Regenerar é o novo sustentável
As escolhas já ultrapassam, em muito, separar ou reciclar o lixo, fazer compostagem em casa ou desligar as luzes. São medidas importantes mas, mais importante, é a literacia que nos falta para compreender os modos de funcionamento e agenciamento dos interesses subjacentes às empresas que dominam o que comemos ou bebemos.
Há anos que a palavra sustentável faz parte do nosso quotidiano e houve, mesmo , um período em que tudo se queria sustentável. Das palhinhas às garrafas para água, era ver pessoas substituírem o que já tinham por produtos mais sustentáveis, sem se perceber que a verdadeira sustentabilidade está em usar o que já temos até esgotar a sua capacidade de utilização, provocando, dessa forma, menos desperdício e diminuindo a necessidade de produção. Mas o apelo ao consumo é sempre um forte motivador daquilo que se entende, redundância propositada, por sociedade de consumo e lá andámos, muitos de nós, a comprar garrafas para água em metal, colheres de bambu para fazer refeições fora de casa, palhinhas de bambu para substituir as palhinhas de plástico - perfeitamente utilizáveis - que tínhamos em casa porque são uma ameaça às tartarugas. Mas deitar ao lixo um saco inteiro de palhinhas, por utilizar, não as vai matar. Vai apenas ajudar a combater essa epidemia insustentável em que (ainda) vivemos. Ironia? Muita.
A questão estende-se a outros domínios e, sobretudo, onde tudo - ou quase - começa (os traços são meus, não são inteligência artificial): agricultura. Do conforto do sofá onde me sento a escrever, pouco ou nada sei sobre cultivar a terra e produzir alimento mas sei que há muito que é um sector com grande impacto nas alterações climáticas mas, sobretudo, um sector que sofre com essas mesmas alterações climáticas. Metano, Óxido Nitroso e Dióxido de Carbono são os gases que mais contribuem para as emissões globais de gases de estufa. Resultam da pecuária, da utilização intensiva dos solos com fertilizantes, desflorestação e degradação do solo os quais, por sua vez, reduzem o rendimento, diminuem a fertilidade dos solos, aumentam as pragas e doenças e diminuem a qualidade dos solos (nutrientes) o que, por outras palavras, quer dizer que o que é produzido nesses solos tem menor qualidade a todos os níveis, sobretudo ao nível nutritivo. Vamos com as tartarugas, só demora mais tempo.
Em Portugal, tenho tentado documentar vários exemplos de agricultura e viticultura regenerativa, bem como as iniciativas que conheço nesse sentido porque é determinante compreendermos que não há muito mais tempo e que, de facto, o mundo mudou a todos os níveis. Sim, sempre tivemos tempestades mas estas são piores. O inverno sempre foi frio mas, pelo menos, sabíamos com antecedência quando seria inverno, agora não temos estações, temos períodos que podem estar mais ou menos encostados às datas que definimos para cada estação. Mais. Ou. Menos. E mais para o menos. Fingir ou tentar ignorar, de pouco nos vale e sim, terão razão os que dizem que o cidadão comum nada pode fazer, que são as empresas globais e os governos que têm de “por mão nisto” mas nós temos, ainda, o poder de escolher. E se muitas escolhas dependem da carteira - e sabemos, são muitas as carteiras que andam vazias e tendem a escolher o preço em detrimento da qualidade percebida - (sim, novamente os traços são meus), devemos a nós mesmos essa escolha, na medida das nossas possibilidades. As escolhas já ultrapassam, em muito, separar ou reciclar o lixo, fazer compostagem em casa ou desligar as luzes. São medidas importantes mas, mais importante, é a literacia que nos falta para compreender os modos de funcionamento e agenciamento dos interesses subjacentes às empresas que dominam o que comemos ou bebemos e como, de forma tentacular, interferem em tudo, quem sabe, até, nas decisões políticas e nas políticas que são implementadas sem que as consigamos compreender. A escolha de tentar saber é nossa e depende muito pouco da carteira. Depende de trocarmos a anestesia dos ecrãs por conteúdos que também estão nesses ecrãs e nos ensinam ou mostram uma realidade que anestesia pela dor que provoca. Isso, ninguém quer. Assobiamos para o lado porque não temos tempo mas o tempo que temos precisa, de forma urgente, de ser ocupado de forma mais relevante. Ou vamos com as tartarugas.
Foi o que aconteceu com a criação da Vinha Viva, Associação Portuguesa de Viticultura Regenerativa, criada para garantir que as práticas regenerativas são aplicadas e que, sobretudo, se compreende o que é, de facto, regenerativo, evitando que aconteça o que aconteceu ao sustentável. Nem tudo é regenerativo mas tudo precisa ser regenerativo para vivermos de forma (minimamente) sustentável.
Regenerar é o novo sustentável
As escolhas já ultrapassam, em muito, separar ou reciclar o lixo, fazer compostagem em casa ou desligar as luzes. São medidas importantes mas, mais importante, é a literacia que nos falta para compreender os modos de funcionamento e agenciamento dos interesses subjacentes às empresas que dominam o que comemos ou bebemos.
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