Menstruação: a desigualdade silenciosa que continua a afastar milhões de pessoas da escola, do trabalho e da dignidade
Demasiadas pessoas continuam privadas da dignidade, dos cuidados e do apoio necessários para gerir a sua menstruação de forma segura e saudável. Não por falta de soluções. Mas por vezes por falta de vontade política, de investimentos e de coragem colectiva.
Há temas que, apesar de fazer parte da vida de quase toda a humanidade, continuam a ser tratados como se fossem inconveniências sociais. A menstruação é um deles.
Em 2026, ainda vivemos num mundo onde milhões de raparigas faltam à escola por estarem menstruadas, mulheres evitam atividades profissionais ou sociais durante o período, e famílias inteiras não conseguem falar sobre o assunto sem desconforto.
É estranho pensarmos que algo tão natural continue a gerar tanto silêncio. Afinal, todos os meses, cerca de 1,8 mil milhões de pessoas menstruam. Não estamos perante uma realidade marginal, rara ou excecional. Estamos perante um fenómeno biológico universal que continua, paradoxalmente, escondido atrás de portas fechadas, embalagens discretas e conversas sussurradas.
O problema é que o silêncio tem consequências reais, e muitas delas profundamente injustas.
Em pleno século XXI, demasiadas pessoas continuam privadas da dignidade, dos cuidados e do apoio necessários para gerir a sua menstruação de forma segura e saudável. Não por falta de soluções. Mas por vezes por falta de vontade política, de investimentos e de coragem colectiva.
A menstruação não deveria determinar se uma menina vai à escola, se uma mulher participa plenamente na vida económica ou se alguém vive com dignidade. Mas determina. Globalmente, apenas duas em cada cinco escolas disponibilizam educação sobre saúde menstrual. Apenas uma em cada três tem recipientes adequados para resídios menstruais nas casas de banho. Pode parecer um detalhe. Mas não é. É a diferença entre permanecer na sala de aula ou faltar às aulas todos os meses.
Os números são alarmantes. Dados internacionais mostram que o absentismo relacionado com a menstruação pode atingir os 15% em atividades escolares, profissionais e sociais. Na África Subsaariana, o absentismo escolar durante a menstruação chega, em alguns contextos, aos 31%. Quantas oportunidades são perdidas? Quantas meninas acabam por abandonar a escola? Quantos sonhos ficam para trás por falta de um produto menstrual, de uma casa de banho segura ou simplesmente de informação?
E o problema não se limita aos países mais pobres. No Reino Unido, mais de metade dos pais admite sentir desconforto em falar sobre menstruação e puberdade com os filhos. Quarenta por cento dos rapazes entre os 8 e os 16 anos dizem saber pouco ou nada sobre menstruação. Isto revela algo profundamente preocupante: continuamos a tratar a menstruação como um “assunto de mulheres”, perpetuando ignorância, estigma e discriminação.
O silêncio tem consequências. Em muitas partes do mundo, a falta de informação antes da primeira menstruação leva raparigas a sentir medo, vergonha ou ansiedade. Algumas acreditam que estão doentes. Outras escondem-se. Outras ainda deixam de participar na vida social.
E não estamos apenas perante uma questão de higiene. Estamos perante uma questão de direitos humanos. A saúde menstrual está diretamente ligada ao direito à dignidade, à educação, ao trabalho, à igualdade de género e à saúde sexual e reprodutiva. Quem consegue gerir a sua menstruação com conforto e segurança tem melhores resultados de saúde, maior autoestima e maiores oportunidades de participação social e económica.
Por isso, precisamos de mudar radicalmente a forma como olhamos para este tema. Não basta distribuir produtos menstruais uma vez por ano ou lançar campanhas simbólicas nas redes sociais. Precisamos de políticas públicas consistentes e financiamento real. Precisamos de educação menstrual abrangente nas escolas. Precisamos de garantir acesso universal a água, saneamento e produtos seguros e acessíveis. Precisamos de locais de trabalho que reconheçam a saúde menstrual como parte integrante do bem-estar. Precisamos de incluir homens e rapazes na conversa. E precisamos urgentemente de normas globais de segurança para produtos menstruais, algo que ainda hoje não existe.
Talvez o primeiro passo seja precisamente esse: normalizar a conversa. Falar de menstruação em casa, nas escolas, nos meios de comunicação social e nos locais de trabalho sem embaraço nem paternalismos. Porque a menstruação não é um detalhe íntimo que deva ser escondido da sociedade. É uma realidade humana que atravessa saúde, educação, economia e direitos fundamentais.
Uma sociedade mede-se também pela forma como trata as necessidades mais básicas das pessoas. E uma sociedade verdadeiramente inclusiva não é aquela que evita falar de menstruação. É aquela que garante que ninguém fica para trás por causa dela.
Menstruação: a desigualdade silenciosa que continua a afastar milhões de pessoas da escola, do trabalho e da dignidade
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