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Miriam Assor
16.07.2026

Do tanque à piscina; o naufrágio ético

O ministro da Administração Interna meteu água e sofre de um defeito terrível, que pode ser letal para quem não anda na vida pública e na política de trotineta: insensatez.

Havia um tanque, de pedra cinzenta, onde a ganga esfregada no sabão clarim ficava azul Beatles. Não só servia para modernizar jeans, dava, com jeitinho, para encaixar a boca de uma mangueira, e no verão, sem piedade e cerimónias, matava o calor à trupe do prédio 38. Piscina, não, não, não existia. Perto, só o lago do parque Eduardo VII. Um vizinho tinha outro tipo de tanque, algures no Ribatejo, era, e ainda é, um reservatório de água instalado numa casa rural que garante o abastecimento. Os seus pais insuflavam o peito sempre que falavam desse milagre. Numa ocasião, soprámos velas de aniversário e a um membro da nossa inofensiva quadrilha faltou pouco para ir ao engano no mergulho. Pensou que o tanque era uma piscina. Já nessa altura do tempo, um tanque não era piscina e vice-versa, bem intendido. Continua a não ser, que se note. Os miúdos podem viajar na imaginação, até na maionese. Um adulto, não, não. Calha a excursão ao saudoso passado para reflectir que um ministro, aqui ou na Cochinchina, que julga ser dono de um tanque e, afinal, o que o empreiteiro, desconhecido e depois amigo, lhe colocou no terreno foi uma piscina, não se encontra nas perfeitas condições. Urgente verificar com o oftalmologista. Por outro lado, afirmar, tenho lá um tanque, e na realidade, o que lá tem é uma piscina, é ouro útil para esconder ou, para sermos mais francos, mentir. O objectivo é contornar a necessidade de licenciamento e comunicação prévia à Câmara Municipal de Odemira, já que uma piscina exige esse tipo de controlo e o pagamento de taxas superiores. Ao contrário de um tanque agrícola simples, uma piscina com deck e acabamentos modernos é considerada uma obra urbanística. Exige, por conseguinte, um controlo prévio obrigatório por parte da autarquia. Paga-se sendo piscina, essa é que. Ana Gomes, ex-eurodeputada, demoliu a piscina, um anexo, a casa das máquinas e a arrecadação da sua quinta, em Colares, porque as obras ilegais foram detetadas algures na primavera de 2022 após a diplomata ter colocado a vivenda à venda e o município ter efetuado uma fiscalização. De livre e espontânea iniciativa, a malta encolhe a verdade. A adjudicação de obras da PJ a uma empresa que viria a remodelar a casa do ministro Luís Neves levanta, com as duas mãos, dúvidas sobre eventuais conflitos de interesses e regularidade dos contratos públicos. Não vale a pena fugir.

Dirigiu, e bem, a Polícia Judiciária entre 2018 e 2026, Luís Neves, e vem dizer o que não se diz sendo ministro ou não, o que um director da PJ jamais deve dizer, o que ninguém diz com a consciência em dia. O ex-director da PJ que deixou o cargo para se responsabilizar de uma pasta governamental, deixou cair a integridade e ética, outrora irrepreensíveis. Não é garantia que os jornalistas estejam todos a dormir em pé, ou sentados.

Entregou aos jornais a lista de faturas, mas nenhuma, que se saiba, esclarece as obras da piscina no monte em São Teotónio, no belo Alentejo. O ministro da Administração Interna meteu água e sofre de um defeito terrível, que pode ser letal  para quem não anda na vida pública e na política de trotineta: insensatez.

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