Não fizemos tudo
A destruição estende-se muito para além do que algum órgão de comunicação social conseguiria retratar: estradas secundárias intransitáveis, habitações isoladas, empresas paradas, campos devastados, populações exaustas.
Há uma diferença fundamental entre dizer que uma catástrofe foi inevitável e dizer que se fez tudo o que era possível. A primeira frase reconhece limites humanos perante a natureza. A segunda é uma afirmação política grave. Porque, quando não é verdadeira, transforma falhas em opção e impotência em soberba.
O país que hoje vemos não cabe nas imagens televisivas. A destruição estende-se muito para além do que algum órgão de comunicação social conseguiria retratar: estradas secundárias intransitáveis, habitações isoladas, empresas paradas, campos devastados, populações exaustas. Em muitos territórios, a sensação é clara: a prevenção falhou e a resposta está a falhar, apesar do trabalho imenso das autarquias, dos agentes de proteção civil, dos bombeiros e da sociedade civil. Não por falta de empenho, mas por falhas de organização, antecipação e coordenação.
Pouco poderia ter sido feito para contrariar ventos daquela intensidade. Isso é verdade. Mas não é verdade que pouco pudesse ter sido feito antes e em paralelo. As pessoas deviam ter sido avisadas de forma mais atempada, clara e veemente. Muito mais podia ter sido feito para ativar, pré-posicionar e articular meios tanto humanos como técnicos. E, claro, a montante, muito haveria e haverá a fazer para reduzir riscos, proteger infraestruturas críticas e preparar respostas de emergência. Falemos no concreto.
O estado de prontidão IV, que mobiliza 100% dos dispositivos, não podia ter sido ativado apenas horas antes da tempestade. Já se sabia, com dias de antecedência, o que aí vinha. Logo a seguir à tempestade, devia-se ter ativado o Plano Nacional de Emergência de Proteção Civil e tudo o que ele prevê precisamente para cenários desta natureza. Nunca esperar mais de um dia para declarar o estado da calamidade, um erro que é uma repetição face ao que sucedeu este verão nos incêndios. Um erro que não sucedeu no passado. Em 2022, declarou-se o estado de alerta antes dos incêndios, pré-posicionando meios e contribuindo para melhores respostas. Agora, o estado de calamidade deve durar tanto tempo quanto necessário, não só para agilizar a recuperação mas também para preparar as chuvas intensas e os riscos de cheias que se antevê para os próximos dias.
Não nos podemos escudar a dizer que isto são apenas responsabilidades técnicas, nem podemos ficar calados só porque alguns dizem que observar e sugerir é aproveitamento político. Uma resposta a uma emergência destas implica coordenação política e operacional ao mais alto nível. É para isso que existe a Comissão Nacional de Proteção Civil. Inexplicavelmente, esta apenas reuniu no domingo, cinco dias depois da catástrofe e no dia em que se antecipava um novo evento climatérico grave. Reunir esse órgão não é um detalhe burocrático. É o que permite articular todas as respostas ao alcance do Estado: o envolvimento das Forças Armadas, a requisição e distribuição de geradores, bombas de água, abrigos temporários, meios de evacuação e apoio logístico.
Tudo isto hoje faz falta e tudo isto podia e devia ter sido pedido ao Mecanismo Europeu de Proteção Civil, a que Espanha recorre desde o dia 28. Não é sinal de fraqueza pedir ajuda. É sinal de responsabilidade. Ao invés disso, temos uma Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil e um Governo que diz que todas as necessidades estão acudidas e que há meios ainda por esgotar. Se acham que ainda não há necessidades, vão ao terreno. Se ainda há meios para esgotar, façam-no rápido porque a passividade numa emergência destas é imperdoável.
Tudo isto não reduz a dificuldade do que se segue. Temos de pensar seriamente no apoio à limpeza, à estabilização de solos, à reconstrução de edifícios, empresas e comunidades. Não como um exercício avulso de anúncios, mas como um plano coordenado, com meios, calendários e responsabilidades claras. Cada dia de atraso custa dinheiro, empregos e coesão social.
Infelizmente, este padrão não é novo. Já o vimos com o apagão e com os incêndios: falhas básicas de procedimentos, ativação tardia de mecanismos, dificuldades de coordenação. Seria razoável esperar que o Governo tivesse aprendido com esses erros. Não parece ter sido o caso. Governar também é reconhecer erros e limitações, ouvir quem está no terreno, aceitar sugestões e corrigir decisões a tempo. A soberba nunca salvou ninguém. A humildade e a capacidade de adaptação às dificuldades, sim.
Ainda vamos a tempo de fazer melhor. Mas isso exige abandonar a narrativa do “fizemos tudo” e assumir, com seriedade, que o Estado tem de estar à altura quando as pessoas mais precisam dele.
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