E agora, PS?
Honrando o compromisso com que abriu o Congresso de ouvir e integrar os contributos das moções, José Luís Carneiro prometeu no seu discurso de encerramento um Partido “reformista”, indo além da defesa do legado para afirmar uma oposição “firme” e com propostas para o país.
Depois deste Congresso, não pode ficar tudo na mesma. Não se juntaram centenas de pessoas para nada. As suas reflexões não podem cair em saco roto. Em concreto, o PS terá agora de encontrar não só novas práticas, novas ideias e novo discurso, como terá de clarificar estrategicamente o que quer na sua relação com o Governo e com os eleitores.
Muito se tem escrito ao longo da última semana sobre a moção que apresentei, em conjunto com o Pedro Costa, a Sofia Pereira e vários autarcas e dirigentes nacionais do Partido. Cada um projetou sobre a mesma aquilo que queria, concordando ou discordando, por vezes sem adesão ao que o texto dizia.
Honrando o compromisso com que abriu o Congresso de ouvir e integrar os contributos das moções, José Luís Carneiro prometeu no seu discurso de encerramento um Partido “reformista”, indo além da defesa do legado para afirmar uma oposição “firme” e com propostas para o país. Essas eram precisamente algumas das mais relevantes recomendações do “Socialismo com futuro”.
O desafio estará agora em dar corpo a essa postura. Afinal, à primeira vista, pode parecer incompatível augurar “tempestades” em relação ao negócio do PSD com o CHEGA para a eleição de juízes ao Tribunal Constitucional, e querer continuar a escrever ao Governo a propor acordos políticos. Descalçar essa bota implica mais do que assertividade, muita clareza e coerência no discurso.
Beneficiará, em primeira instância, de clarificar que um divórcio com o Governo tem causas mais fundas que lugares – nomeadamente, o que esses lugares representam para os direitos dos portugueses, mas também o realinhamento reiterado da AD em ter na extrema-direita um parceiro preferencial. Isso é mais do que tática parlamentar. Traduz-se concretamente na vida das pessoas – é dinheiro desperdiçado em rendas (pouco) moderadas, são proteções sobre quem trabalha desmanteladas, é essa aliança ser a única causa para hoje não termos pensões mais altas ou IVA Zero.
Inevitavelmente, porém, o PS terá de definir quais são as “áreas essenciais” nas quais ainda queremos procurar acordos de regime. Nas demais áreas, o PS deve agir como partido de oposição puro e duro. Isso nunca significou ser apenas um partido de protesto, embora importe ser capaz de criticar e protestar. Sempre significou também apresentar propostas alternativas. Mas um partido que lidera a oposição, como o PS deve fazer, não se corresponsabiliza pela ação do Governo, nem dilui a força e a convicção da sua propositura. Dado o comportamento recente da AD, diga-se que assim se evita ficarem com os louros das nossas iniciativas ou, pior, o risco do desprezo que Montenegro tem demonstrado.
Se o PS não for capaz de imprimir essa distinção entre “compromissos e ruturas”, como lhe chamou Francisco Assis, a sua ameaça torna-se inconsequente. Até para aqueles que pretendem um espaço maior de convergência entre PS e PSD, é um erro não entender que a ambiguidade tira pressão a Montenegro e encurrala o PS numa posição negocial fragilizada. Mas este assunto é bem mais importante do que a arte da negociação.
Trata-se do cidadão comum, na rua, compreender as posições do Partido Socialista. Para isso, elas devem estar bem definidas e ser comunicadas de forma clara e tempestiva. A combinação certa entre força e humildade é essencial para convocar respeito e ser credível. Por muito tentador que seja discutir em torno da tática quotidiana ou refugiar-nos na linguagem redonda e elaborada dos tecnocratas e do “politiquês”, temos de ter a disciplina de falar do que importa – do custo de vida, dos baixos salários - e a inteligência superior para o fazer de forma concisa e simples.
José Luís Carneiro lançou, no encerramento do Congresso, várias ideias para o país. Foi um momento importante de afirmação do que poderia ser uma governação socialista, com opções muito diferentes desta “gestão corrente” da AD. Mas, tal como nos ensina o sucesso doutros partidos nossos rivais, as ideias só se percebem se forem repetidas muitas vezes e se apelarem a uma visão aspiracional. Para conseguir que as suas ideias mobilizem, o PS terá de criar “objetos de desejo político”. Por exemplo, traduzir o universalizar do apoio aos idosos num Serviço Nacional do Cuidado. Combater o fenómeno de jovens “nem-nem” deve significar uma verdadeira garantia de emprego ou formação realmente útil e ajustada ao tecido económico local – na hora certa, a cana de pesca e o ensinar a pescar.
Nada disto se fará de um dia para o outro, nem a atual direção do PS tinha de ter isso já pronto a tempo do Congresso. Com eleições só em 2029, e o Presidente a declarar que elas não acontecerão mais cedo, o PS tem tempo. Temos de fazer uso desse tempo para escutar. Temos mesmo de escutar para afinar os temas e os termos em que participamos na batalha das ideias. Na nossa moção, apontamos vários métodos concretos de valorizar a participação dos autarcas e militantes e de abrir o Partido ao conhecimento e à sociedade.
Depois da derrota que tivemos, depois da reflexão adiada, depois de um Congresso em forma de pontapé de saída, a pergunta que se impõe é – e agora? É certo que vivemos numa modernidade “líquida”, como dizia Bauman, e que, em Portugal, nada se inscreve, como nos descreve José Gil. Será muito fácil tudo isto ser esquecido ou relativizado. Mas isso é tanto um “fado” como a profecia de que a social-democracia europeia está obsoleta e acabada. Não tenhamos o medo de mudar. Temos um futuro a conquistar.
E agora, PS?
Honrando o compromisso com que abriu o Congresso de ouvir e integrar os contributos das moções, José Luís Carneiro prometeu no seu discurso de encerramento um Partido “reformista”, indo além da defesa do legado para afirmar uma oposição “firme” e com propostas para o país.
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