Compram-se: histórias da carochinha
Já sabíamos que vivemos numa era de ciclos mediáticos muito curtos. Isso já era o caso com a televisão e passou a sê-lo mais ainda com as redes sociais. Todavia, estes meios deveriam permitir-nos confrontar os políticos com o que disseram ou propuseram no passado. Como se diz na gíria, "a internet não esquece".
Esta semana foi um chorrilho de "novidades". Na quarta-feira, o Parlamento fez as últimas votações antes do verão, aprovando adescida do IRS e a nova lei dos estrangeiros. Na quinta-feira, o debate do Estado da Nação trouxe consigo três tentativas de anúncio: sobre a descida do IRC, o bónus para as pensões e, ainda, os apoios para os professores deslocados. Um olhar acrítico chamaria a esta sucessão de eventos a primeira boa semana do Governo em algum tempo, sobretudo depois do monumental fracasso que representa a crise do INEM. Como tudo, porém, isso depende de como se conta a história.
Na verdade, esta semana representou uma nova fase na vida política do nosso país – a aliança sistemática entre a AD e o CHEGA. Há muito que os sinais estavam aí. O PSD escolheu, como estratégia para esvaziar e amarrar a extrema-direita, adotar as mesmas prioridades (e.g. imigração e segurança), o mesmo registo e, em alguns casos como a Lei da Nacionalidade, as mesmas propostas que o CHEGA. Luís Montenegro pode bem dizer que privilegia pontualmente os partidos que estão mais próximos do seu programa de Governo, mas a boca dos seus generais foge para a verdade. Hugo Soares já tinha alertado para nos "habituarmos" e Carlos Abreu Amorim surpreendeu, desmentindo o Primeiro-Ministro sobre a existência de um "acordo de princípios" com o partido de André Ventura. O que os últimos dias confirmaram foi que este acordo não se limita já apenas a áreas de proximidade programática, mas também à esfera fiscal e orçamental, firmando um compromisso sobre como reduzir o IRS no Orçamento de Estado do próximo ano.
Qualquer pessoa que veja os títulos dos jornais da última semana não dará conta desta mudança de paradigma, ainda para mais quando contrasta com o sonoro "não é não" repetido por Montenegro na campanha eleitoral. Também não serão recordados de que o apoio para professores deslocados, agora anunciado com pompa e circunstância, foi chumbado pela AD há uns meros 4 meses na Assembleia da República. Nenhum caso será feito de como o acordo para o IRS teve como contrapartida chumbar a continuidade da devolução das propinas – habilmente colocada na gaveta sem revogação. Assim se deixa que um Governo passe a sua mensagem sem o escrutínio e o contraditório que uma imprensa livre e plural deveria assegurar.
Já sabíamos que vivemos numa era de ciclos mediáticos muito curtos. Isso já era o caso com a televisão e passou a sê-lo mais ainda com as redes sociais. Todavia, estes meios deveriam permitir-nos confrontar os políticos com o que disseram ou propuseram no passado. Como se diz na gíria, "a internet não esquece". É, por isso, surpreendente que o valor da palavra continue a cair vertiginosamente. Perante a proposta do Governo de limitar o reagrupamento familiar, foi o Primeiro-Ministro confrontado com as suas próprias declarações 2 anos antes, no Congresso do PSD em Almada, a defender "atrair os agregados familiares como um todo – e não apenas os progenitores masculinos desses agregados familiares"? Ou, por acaso, teve Montenegro que justificar a clara contradição entre as posições que assumiu sobre a lei da nacionalidade, de 2006 para os dias de hoje? Falo-vos apenas de 2 exemplos flagrantes.
Estamos decididamente numa era de pós-verdade. Isto é, claro, apenas uma face da superficialidade com que a coisa pública é tratada entre formadores de opinião. Alguém perguntou por que motivo os retroativos da descida do IRS se concentram nas vésperas de eleições e não no resto de 2025? Já alguém sabe qual o motivo do atraso no concurso dos helicópteros do INEM ou no seu plano de refundação? E terá sido realmente posta à prova a ideia de que a nossa "robusta" situação orçamental não permite fazer aumentos permanentes das pensões mas apenas bónus extraordinários de natureza anual?
Este adormecimento informativo é o caldo perfeito para que alguns políticos oportunistas façam vingar um período de imobilismo mascarado de reformismo. Como dizia Lampedusa, "tudo tem de mudar para que tudo fique na mesma". Isto não representa apenas um dano para as perspetivas de desenvolvimento do país. Representa uma ameaça para a credibilidade do próprio projeto democrático. Afinal, quando nada é questionado, tudo pode ser questionado.
Na presença de um vírus mortífero para as nossas democracias e o seu tecido social, como é a extrema-direita, não nos podemos limitar a defender o direito a ser informado, combatendo todas as formas de desinformação. Devemos defender o dever de informar. Queria, por isso, terminar com um reconhecimento aos jornalistas que todos os dias tentam questionar, investigar e fazer diferente. São muitos e são bons. Nesta semana em que a justiça chumbou a recuperação da Trust in News, é devida ainda uma palavra especial aos jornalistas da Visão, Exame, Jornal de Letras e Caras pelo trabalho importante que fazem pelo nosso país.
Para ser totalmente transparente
Aguiar Branco sabe tudo isto. Mas dar melhores condições de trabalho aos deputados só interessa se interessar os deputados trabalharem. Enquanto discutirmos quem são os políticos em vez do que fazem, bem podem se entreter a discutir salários, obrigações declarativas e outras perceções enganadoras.
Os custos da falta de palavra
Se pensarmos bem, na política como na vida, a arte está no difícil equilíbrio não só entre interesses conflituantes, como entre os anjos e demónios que habitam dentro de nós – a verdade e a moderação, a coragem e a prudência, a inteligência e a humildade.
Regionalizar para quê?
É preciso dar confiança aos cidadãos de que a criação das regiões administrativas não serve para criar mais lugares para os políticos, mas para verdadeiramente melhorar as suas vidas, através de políticas públicas mais eficientes e que respondam mais rapidamente às necessidades que sentem em cada local. Há 10 anos, ninguém acreditava que uma tão vasta descentralização de competências para os municípios poderia funcionar.
Quando o Estado não paga
As promessas da resposta mais rápida de sempre e de dinheiro na mão sem burocracia são, e bem, tema de uma primeira e muito pertinente Presidência Aberta de António José Seguro. Têm sido, também, um foco do Grupo Parlamentar do PS, com visitas no terreno e a exigência de um relatório mensal de execução desta despesa.
E agora, PS?
Honrando o compromisso com que abriu o Congresso de ouvir e integrar os contributos das moções, José Luís Carneiro prometeu no seu discurso de encerramento um Partido “reformista”, indo além da defesa do legado para afirmar uma oposição “firme” e com propostas para o país.
Edições do Dia
Boas leituras!