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João Paulo Batalha
08.01.2026

Porque voto Seguro

Por pouco que pareça, as nossas opções não são só manter tudo ou partir tudo.

A eleição presidencial tem sido discutida ao sabor dos solavancos das sondagens. É uma pena, desde logo porque, por muito que as notícias se animem com a contabilidade de quem passou de terceiro para primeiro, a verdade é que o único ponto consistente nas pesquisas de opinião é o empate técnico entre os principais candidatos. Ora, por definição, ninguém está à frente num empate. Por isso mesmo, faríamos melhor em promover uma avaliação mais substancial das candidaturas. O nosso arranjo constitucional e a experiência vivida mostram-nos que a Presidência é definida, em grande parte, pelo Presidente – pelo seu carácter, pelas suas prioridades, pela sua visão do cargo. Essa discussão tem mais valor.

Em vez disso, a cobertura mediática e o debate público têm tratado as presidenciais como mais uma volta das legislativas. Em parte percebe-se: a maioria dos candidatos – Ventura, Cotrim Figueiredo, Catarina Martins, António Filipe e Jorge Pinto – são candidatos partidários escolhidos pelo partido para fazerem a prova de vida do partido. Marques Mendes não esperou pela chancela do PSD, mas também não precisou: o alinhamento, natural, estava preparado há muito. As candidaturas partidárias são pouco úteis em eleições presidenciais, e nunca animaram os eleitores, mas são particularmente deslocadas este ano, em que Ventura (o sistemático candidato antissistema) e Gouveia e Melo (o candidato extrassistema do sistema) parecem sugerir que a verdadeira escolha não é entre partidos ou blocos políticos, mas entre manter tudo resignadamente na mesma ou deitar tudo com estrondo para o lixo.

Nesta equação, Marques Mendes seria o candidato da velha política (incluindo a velha política de negócios que lhe vem desgastando a campanha), André Ventura o eterno carrasco da III República e Gouveia e Melo a folha em branco, que só é apelativa por não conhecermos o que pensa e o que quer – e quanto mais conhecemos, dele e da claque de chicos-espertos que o promoveu e apoia, menos apelativo ele se torna. É uma falsa polarização, que não concebe inteligência, vontade reformista e capacidade de mobilização. Como se o país e a democracia fossem para pegar ou largar, sem esperança de que o nosso futuro, como qualquer desígnio coletivo, não possa ser melhorado, reformado, de modo continuado, progressivo, progressista e (desculpem o trocadilho) Seguro.

Um país não é tudo ou nada. Portugal vive numa tensão crescente entre o repúdio do status quo e o medo da mudança. Não gostamos do que há, mas temos medo do que venha. Esta tensão quase geológica traduz-se num imobilismo que fica cada vez mais sufocante, até que explode num terramoto de convulsão que muda tudo num segundo, de forma súbita e desordenada. É uma marca identitária: foi assim com a Revolução liberal, fez agora 205 anos. Foi assim com a implantação da República, em 1910, e com a sua derrocada, fará este ano 100 anos. E foi assim com o 25 de Abril, que fez cair um regime podre que se mantinha já sem ninguém que o defendesse. Em Portugal, os poderes instalados, da política de negócios, da pequena traficância, do favor e do caciquismo, cairiam com um sopro. O nosso problema histórico tem sido arranjar pulmões.

António José Seguro é um pulmão. Político experiente, passou pelo Governo, pela Assembleia da República e pelo Parlamento Europeu. Foi líder do seu partido a seguir à catástrofe Sócrates e até 2014, quando António Costa lhe puxou o tapete, com o apoio maioritário de um PS que teimava não só em proteger, mas em celebrar o seu cadastrado que atirou o país para a Troika. Esse PS, já agora, continua a existir, se não for mesmo maioritário, como se constata na frieza que capatazes socratistas como Augusto Santos Silva reservam a António José Seguro – de resto, o melhor atestado de idoneidade que o candidato podia pedir.

António José Seguro conhece as instituições, os seus poderes e equilíbrios. Conhece os golpes sujos e tem as cicatrizes para prová-lo. E, mais importante do que tudo, fez a sua carreira política sem trocar princípios por fins. Quando era preciso destoar, destoou. Quando outros obedeceram, a pensar no seu futuro, Seguro divergiu, a pensar no seu país. Fê-lo em 2009, quando no Parlamento foi o único voto contra uma alteração à lei de financiamento político que abria (e abriu) novos alçapões à entrada de dinheiro escuro nos partidos, e que todos os partidos celebraram. Em 230 deputados, um só não se calou. Foi António José Seguro.

Não andou a fazer carreira, andou a fazer justiça. A sua passagem pela liderança do PS, no duríssimo período da Troika, foi a única ocasião em que um dos grandes partidos portugueses tomou a sério a agenda anticorrupção e promoveu alguma discussão pública e pensamento sobre as reformas de que o país precisava – e continua a precisar. Seguro pôs a política ao serviço do país. Quando, em vez de fazer a autocrítica ao poder de Sócrates e ao que precisava de mudar, o PS escolheu o atalho cúmplice de Costa (que deu no que deu) e engavetou a reforma que tinha iniciado, Seguro foi viver a sua vida, sem pedir nem aceitar cargos de nomeação, prateleiras douradas ou uma carreira de facilitador. Não ficou a conspirar, foi trabalhar. Manteve uma independência de carácter e uma clareza de propósitos que nos farão muita falta na Presidência. António José Seguro é um homem sério, que está nisto a sério. Poder dizer isso de alguém com o currículo e a experiência política dele, em Portugal, não é um elogio. É quase um milagre.

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