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João Carlos Barradas
09.05.2026

O temor e a aposta

A aposta na ocorrência ou não de uma pandemia funciona como um apaziguador da ansiedade provocada por acontecimentos fora de controlo e é também uma forma socialmente aceitável de reconhecer a real existência de risco.

As apostas abriram logo a 4 de Maio, dois dias depois dos testes a um passageiro evacuado para a África do Sul terem detectado hantavírus, quando o navio cruzeiro MV Hondius se encontrava ainda ao largo da Cidade da Praia.

«Haverá uma pandemia de hantavírus em 2026?», é a questão em aberto na plataforma Polymark e as apostas movimentavam sexta-feira ao final do dia cerca de três milhões de dólares.

As apostas numa declaração de pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS) até ao final deste ano rondavam os 9%.

É significativo que o risco de pandemia valha uma aposta tanto como o vencedor do concurso da Eurovisão, do Mundial de Futebol, do preço do crude West Texas Intermediate ou do retorno à normalidade na circulação comercial no Estreito de Ormuz.

A aposta na ocorrência ou não de uma pandemia funciona como um apaziguador da ansiedade provocada por acontecimentos fora de controlo e é também uma forma socialmente aceitável de reconhecer a real existência de risco.

A par de mercados de apostas internacionais ou locais surgirem como um modo de enquadrar e racionalizar as hipóteses de sobrevivência a um evento pernicioso ou letal, assiste-se, também, a um vazar torrencial de teorias de conspiração sobre as origens e características do vírus, letalidade ou tratamentos.

Mais importantes ainda são as manifestações de desconfiança para com a capacidade de as autoridades sanitárias lidarem com a crise e, em especial, de governos e entidades administrativas providenciarem informação correcta, isenta e atempada.

São reacções compreensíveis na ressaca da pandemia de COVID-19 em que foi notória a negação de riscos, ocultação de dados, incúria, incompetência, especulação financeira e económica e, praticamente, todos os demais defeitos e virtudes da espécie.

No entender dos especialistas a estirpe dos Andes, uma variante transmitida por mamíferos roedores e passível de contaminação entre seres humanos com uma letalidade de 35% a 40%, está na origem dos casos registados no MV Hondius muito provavelmente após escala no porto argentino de Ushuaia, na Terra do Fogo.

O temor a uma mutação que facilite a propagação do vírus é, igualmente, reconhecível em muitas reacções que vão sendo disseminadas pelos media e redes sociais, apesar da OMS descartar o risco de pandemia.

O reavivar de receios quanto ao mpox (vulgo varíola dos macacos) cujo surto em países não-africanos onde a doença não é endémica levou a OMA a declarar uma emergência de saúde pública de interesse internacional, é, desde logo, bem provável.

Uma nova variante de vírus, outra estirpe letal de uma doença endémica confinada a regiões ignotas para muitos, mesmo que mais facilmente controlável do que as mutações de vírus que levaram às recentes pandemias de COVID-19 e HIV-SIDA ou à epidemia da SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave), em 2002-2004, é um pesadelo social recorrente.

Agora, a diferença é que o temor vale uma aposta.

Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945

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