A arca de Noé de Vavilov
O que sucedeu no Instituto Vavilov, junto à Catedral de Santo Issac, no centro histórico da antiga capital imperial de Sampetersburgo, é um caso extremo de sacrifício pela ciência em prol do próximo.
Finava-se Nikolai Ivanovitch Vavilov no hospital da prisão de Saratov, sem ver sequer o imenso rio Volga, num dos últimos dias de Janeiro de 1943, e mal sabia que ainda lutavam por ele.
O mais prestigiado dos especialistas em botânica e genética da União Soviética, reconhecido como uma das maiores autoridades mundiais em domesticação de plantas e optimização de cultivos, fora preso em 1940.
Vavilov morria, aos 55 anos, vítima da tara stalinista de uma pretensa ciência proletária de manipulação do cultivo e crescimento de plantas à revelia das leis de transmissão de características genéticas descobertas, no século XIX, pelo frade agostinho Gregor Mendel.
Geneticistas, agrónomos e botânicos submetiam-se às teorias aprovadas por Stalin do charlatão Trofim Lissenko que alegava ser possível alterar por meios artificiais a configuração genética de plantas para aumentar o rendimento das colheitas.
Nem as tentativas de intercessão do físico Serguei Vavilov, irmão mais novo de Nikolai, membro da Academia das Ciência desde 1932, instituição a que presidiria de 1945 até morrer seis anos mais tarde, salvariam o pioneiro de estudos sobre biodiversidade alimentar.
Foram, também, em vão os esforços dos seus colegas britânicos que em 1942 o elegeram para a «Royal Society» de Londres,
Vavilov morria, mas havia, todavia, um legado a perseverar no «Instituto de Investigação Científica de Fitotecnia» que o botânico criara em 1921, na então Petrogrado, para preservar um espólio único de sementes recolhidas em expedições por todo o planeta.
Cerca de 200 investigadores, um corpo de pessoal de mais de 20 mil funcionários, trabalhavam sob a sua direcção em quatro centenas de centros de investigação botânica e estações experimentais dispersas de Leningrado a Vladivostock.
Eliminar pragas e aumentar a produção de alimentos eram os objectivos do Instituto, uma instituição pioneira que albergava um acervo único.
O relato do que então sucedeu no Instituto, junto à Catedral de Santo Issac, no centro histórico da capital imperial de Sampetersburgo, fundada por Pedro, O Grande, em 1703, é um caso extremo de sacrifício pela ciência em prol do próximo.
Leningrado, nova denominação da cidade desde 1924 após a morte de Lenin, foi cercada pelas tropas nazis no início de Setembro de 1941.
Os 872 dias de cerco, até ao final de Janeiro de 1944, custaram a vida a cerca de 750 mil civis na segunda maior metrópole da União Soviética.
No Instituto, onde, em Agosto de 1940, se ficara a saber que o director fora detido numa expedição à Ucrânia, a opção do responsável interino, Nikolai Ivanov, foi fazer o possível por salvaguardar mais de 400 mil sementes e tubérculos vivos, um espólio conservado em Leningrado e nas estações nas cercanias da cidade.
Parte do espólio consistia em duplicados e pouco fora possível levar para fora da cidade sitiada.
De sementes de amendoim a milho e girassol não faltava com que saciar a fome.
A maior parte dos sitiados na antiga capital do Império Russo morreu no Inverno de 1941 no auge da fome.
Entre cerca de setenta investigadores e funcionários pelo menos 13 morreram à míngua de comida, outras duas dezenas foram vítimas das pestilências e bombardeamentos.
Cães e gatos, pombos, tinham desaparecido e só restava a ameaça de ratos e ratazanas.
Uma foi das funcionárias do Instituto foi assassinada, vítima de traficantes de carne humana, e esse crime, no auge do canibalismo no Inverno de 1941, era uma das memórias mais vivas que conservava, por exemplo, um dos sobreviventes do cerco, Dmitri Ligatchov, historiador da literatura que viria a tornar-se um dos mais proeminentes defensores russos dos direitos humanos.
Esse e muitos outros assassínios para conseguir cartões de racionamento ou algo que se pudesse trocar por comida criaram um ambiente aterrador.
A maior parte dos actos de canibalismo resultou, no entanto, do desespero que levava a aproveitar a carne dos cadáveres.
No Instituto resistia-se à tentação.
Nikolai Ivanov dizia que as sementes, os tubérculos, seriam precisos para depois da guerra.
Antes ainda, logo na Primavera de 1942, começaram a ser utilizados em hortas espalhadas por Leningrado ao cuidado do pessoal do Instituto.
Vadim Lekhnovitch, que zelara pelas colecções de batatas, justificou inapelavelmente todos os sacrifícios: «Era impossível comer o trabalho da vida dos nossos amigos e colegas».
O destino reservava, ainda, outras vicissitudes.
Em Junho de 1943, seis meses depois da derrota nazi em Stalingrado, quando as forças alemãs já cediam às contraofensivas soviéticas, um oficial das SS liderou uma missão para confiscar todo o material de interesse que ainda restasse nas estações do Instituto de Vavilov.
O comando SS do tenente Heinz Brücher, um botânico especializado em genética, recolheu sementes em 18 estações na Ucrânia ocupada e transferiu o saque para um centro de investigação no castelo de Lannach, perto de Graz, no sudeste da Áustria.
De Novembro de 1943 a Fevereiro de 1945, Brücher dirigiu o «Instituto de Genética das Plantas» de Lanach e na iminência da chegada das tropas soviéticas desobedeceu a ordens para destruir as instalações.
Com auxílio de um prisioneiro inglês com formação em botânica, William Venables, Brücher escapou com parte do espólio e, após uma curta estada na Suécia, conseguiu partir para a Argentina.
Em 1948, Brücher passou a leccionar botânica e genética na Universidade de Tucumán, enquanto Venables, que ficara em Lanach a supervisionar a entrega das instalações ao «Exército Vermelho», abria uma empresa de sementes em Chester, negócio que não correu pelo melhor, tendo o inglês falecido em 1959 aos 44 anos.
Já Brücher teria um encontro, em 1958, com um colaborador próximo de Vavilov, o especialista de taxonomia botânica, Piotr Jukovski, durante uma das expedições do Instituto soviético à Argentina, Perú, Chile e México.
A partir de então passaram a chegar com regularidade ao Instituto de Leningrado, dirigido por Jukovski entre 1951 e 1961, remessas de sementes enviadas por Heinz Brücher.
O alemão prosseguiu a actividade docente e de investigação na Argentina, Paraguai, Venezuela e África do Sul até ser assassinado por desconhecidos na sua quinta em Ugarteche, na província argentina de Mendoza, aos 76 anos.
O que jornalista inglês Simon Parkin conta neste livro notável de alta divulgação científica e histórica obriga a que se olhe com renovada admiração e angústia para aquele palácio na grandiosa Praça de Santo Isaac que ostenta agora o nome de «Instituto Pan-Russo de Fitotecnia Vavilov», a Arca de Noé de S. Petersburgo.
Simon Parkin
O Jardim Proibido de Leningrado
430 páginas
Temas e Debates, Lisboa, 2026
Texto escrito segundo o Acordo Ortográfico de 1945
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