Começar de novo. Os cem anos do 28 de maio
Não foi nesse momento que o Estado Novo nasceu, mas esse foi o primeiro passo para a implantação desse regime fascista no nosso país.
No email que, em maio de 2022, enviei à então directora desta revista justificando a escolha do tema (e do título - que era “Por uma EU Federal”) do primeiro dos meus textos publicados na edição online da SÁBADO, escrevi o seguinte:
“Esta "coisa" da Federação Europeia é, para mim, da máxima importância.
Deixe-me dar-lhe conta dessa relevância: não quero que a minha neta, que irá fazer 4 anos em meados de julho, passe por aquilo que a minha mãe e a minha avó materna passaram, e estou convencido (não por "achismo") que estamos mesmo a caminhar para a destruição dos valores europeus (os americanos não são exactamente os mesmos que os nossos), da Democracia - e democracia iliberal é algo que pura e simplesmente não existe - e do Estado de Direito.
O Estado Social de Direito esse já está a "balões de oxigénio".
E, inevitavelmente, passaremos novamente a viver no estado de guerra permanente que existiu na Europa até 1945, sendo certo que nenhum dos Estados europeus dispõe já de um império colonial para "aparar os golpes", o que beneficiará os EUA e a China (a "Rússia" tornar-se-á, tal como as demais ex-potências europeias, um mero peão irrelevante).
E a ONU e as organizações que lhe estão agregadas desaparecerão igualmente.
Nestas condições, será normal que tente fazer tudo o que estiver ao meu alcance para evitar esse desastre.
Enfim, não "lutarei até à morte" como os ucranianos e não tenho elevadas expectativas quanto aos resultados desse esforço - até porque a histeria colectiva (sem aspas) em que o Planeta está mergulhado não me deixa ser optimista
Ainda assim tentarei e vamos ver o que isto vai dar.”.
Como referi, em maio de 2025, no primeiro texto da série “Os despojos de Abril”, “De início, os temas que abordei [(na) minha colaboração com a revista SÁBADO] tinham um carácter mais ou menos aleatório, mas, a certa altura, pensei que seria bom - e eventualmente mais eficaz - concentrar a minha atenção em assuntos mais específicos. E, por essa razão, comecei a dar às crónicas que fui escrevendo um correspondente título genérico, a saber, “POR UMA UE FEDERAL”.”.
Ainda assim, durante essa primeira fase, já havia procedido a alguma agregação de textos sob um título comum partindo da mitologia do Antigo Testamento que nos relata a estória do assassinato de Abel às mãos do seu irmão Caim.
Esse título era “Os filhos de Caim” e a linha condutora do mesmo era (e é), que nós - todos nós, ou seja, a Humanidade inteira - somos filhos do invejoso Caim e não do bondoso Abel.
A inveja é, portanto, mais um “defeito de fabrico” a juntar ao egoísmo, à selvajaria, e ao tendencial irracionalismo que faz parte do núcleo central primário da natureza humana, mas que, como estes últimos, pode ser combatido e vencido com a utilização sistemática da parte racional dessa mesma nossa natureza primordial.
Racionalidade emotiva, acrescento, como decorre dos ensinamentos do justamente famoso neurologista e neurocientista português António Damásio.
Como os resultados práticos da série de crónicas pugnando pela abertura de um debate a sério acerca da necessidade de proceder a mudanças estruturais na arquitectura sistémica da União Europeia foram nulos, mudei os objectivos do encadeado de textos que continuei a enviar para publicação na edição on line desta revista, os quais passaram intitular-se genericamente “Os ventos de Oeste”.
Isto porque foram esses “ventos” e não os “de Leste”, como erradamente previu Mao Zedong (nos meus tempos de juventude escrevia-se Mao Tse-Tung), que, com a implosão da União Soviética e a total derrocada do chamado “Bloco de Leste” europeu, cujo primeiro passo foi a queda do Muro de Berlim, ocorrida a 9 de novembro de 1989, venceram a batalha ideológica que se iniciou com a Revolução Soviética de 1917.
Acontece, porém, que também esses “ventos” passaram a ser desprezíveis e nefastos.
Efectivamente, os Valores Éticos subjacentes a documentos tão fundamentais como a Carta das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Convenção Europeia doa Direitos Humanos, e outros imbuídos do mesmo espírito humanista e humanitário – valores e princípios esses que agora são considerados fraquezas por aqueles que se consideram os novos donos do Mundo -, começaram a ser paulatina e sistematicamente combatidos e deixaram de ser considerados o guia do relacionamento dos Estados a nível planetário.
Logo, nova mudança de título genérico das crónicas, desta vez com um pendor mais nacionalista, o qual passou a ser “Os despojos de Abril”.
Entendo, porém, que é altura de mudar novamente a orientação destes escritos.
Já chega de lamúrias acerca da perda do muito que foi construído em Portugal após o 25 de abril de 1974 (e, no fundo, é isso que aquele título genérico significa) e há que passar ao ataque.
No próximo dia 28 deste mês irão completar-se cem anos sobre a data em que foi concretizado o golpe militar reaccionário que pôs fim à Primeira República portuguesa.
Não foi nesse momento que o Estado Novo nasceu, mas esse foi o primeiro passo para a implantação desse regime fascista no nosso país. Regime que era mesmo fascista, mas à portuguesa e, por isso, assumindo algumas características distintivas dos fascismos italiano, francês, inglês ou húngaro, e do nazismo (nazi-fascismo) alemão.
Essa data não merece ser comemorada, mas merece não ser ignorada.
Tal como merece não ser ignorada toda a história (e os profundos falhanços) da Primeira República que permitiram que esse golpe de estado tivesse obtido um tão grande sucesso, bem como a história e os relativos falhanços do Estado Democrático desde 1974 até hoje, que permitiram a ascensão da boçalidade, da irracionalidade e da selvajaria dos novos fascistas, baptizados de extrema-direita nacionalista.
Em João 8:32 (isto é, no versículo 8:32 do Evangelho segundo São João) escreve-se que o Ungido Yeshua ben David disse "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." E um outro judeu, o alemão Karl Marx, afirmou “Só a verdade é revolucionária”.
Não devemos ter medo da verdade e daí que seja da maior pertinência que, como proposto pelo Bloco de Esquerda, sejam tornados públicos os dados relativos aos processos das FP-25, mas, de igual modo e na mesma exacta medida, os relativos às várias organizações terroristas de extrema-direita, de que o ELP/MDLP foi o expoente máximo (mas existiram muitas outras).
Só que, em minha opinião, a perspectiva dessa actividade deve ser a de lutar pelo alargamento dos direitos e não apenas pela preservação dos que já existem.
O capitalismo selvagem e predador que hoje domina o Mundo (incluindo a China) não é a solução e conduzirá inevitavelmente a novas desgraças e, em última análise, pela cada vez maior proliferação das guerras, poderá conduzir à extinção do género humano.
Mas porque o comunismo resultante da Revolução Soviética de 1917 mostrou também não ser a solução, há que voltar atrás e, socorrendo-me do título de uma bela canção de Ivan Lins e Simone Bittencourt de Oliveira, começar de novo.
As aspirações a um Mundo Novo, que obedeça ao primado da justiça e da equidade, e que consagre o bem-estar para todos os membros da Comunidade, são justificadas e legítimas.
E essa Utopia pode tornar-se uma realidade se a racionalidade emotiva prevalecer sobre o egoísmo, a selvajaria, a inveja e a irracionalidade.
Não será fácil. Mas não é impossível.
Começar de novo. Os cem anos do 28 de maio
Não foi nesse momento que o Estado Novo nasceu, mas esse foi o primeiro passo para a implantação desse regime fascista no nosso país.
Alguém sabe para onde estamos a ir?
Os actuais dirigentes do país, muito provavelmente por força de um revanchismo que, apesar de mascarado de “modernidade”, é cada vez mais indisfarçável, estão mais preocupados em destruir os equilíbrios sociais construídos na sequência do 25 de abril de 1974 e do 25 de novembro de 1975, do que em procurar encontrar soluções para debelar essas dificuldades, ou pelo menos minorar as suas consequências para os mais desfavorecidos.
Por que razão deveríamos ter comemorado condignamente o "V Day"?
E nunca como hoje, porque a capacidade de destruição se tornou tão devastadora e porque é tão intenso e generalizado o desprezo pelos valores fundamentais da liberdade, da igualdade, da fraternidade e da soberania do Direito sobre a barbárie, se tornou tão necessário demonstrar que, em termos práticos, a vitória sobre essas forças tenebrosas é possível e está ao nosso alcance.
Maio, maduro Maio
As várias comemorações de Maio podem e devem motivar debates profundos acerca do nosso quotidiano. Debates de natureza política, sem dúvida, mas também éticos e morais.
Os três 25 de Abril
Já agora, considero importante repetir, pela enésima vez, que, em termos de ciência política, quer se queira quer não, o PREC foi apenas uma crise revolucionária e não, como muitos afirmam, de ambos os lados do espectro político nacional, uma revolução falhada).