Quando decisões comprometem a ética, a integridade ou a sustentabilidade do projeto, a diplomacia deve dar lugar à responsabilidade de escalar. Proteger as equipas e os resultados é também um ato de liderança.
Nas organizações, os gestores de projeto são formados para antecipar riscos técnicos, processuais ou externos. Contudo, raramente se aborda o risco mais delicado e, talvez, mais difícil de gerir: o que vem de cima. Mesmo líderes experientes podem, involuntariamente, comprometer o sucesso de um projeto com decisões precipitadas, prioridades mutáveis ou expectativas desalinhadas com a capacidade da equipa.
Este tipo de risco não resulta, na maioria das vezes, de má intenção. Tem origem em viéses cognitivos, assimetria de informação, culturas hierárquicas rígidas ou pressões emocionais próprias de contextos de elevada responsabilidade. Quando o questionamento é visto como deslealdade e a informação chega filtrada ao topo, o terreno torna-se fértil para erros de julgamento e desalinhamentos estratégicos.
Perante este cenário, o gestor de projeto precisa dominar uma competência que vai muito além da técnica: gerir para cima com diplomacia. Trata-se de influenciar sem autoridade formal, equilibrando coragem e tato para proteger a missão sem ferir suscetibilidades.
A diplomacia começa pela credibilidade: comunicar de forma clara, entregar de forma consistente e antecipar riscos antes que se tornem crises. Segue-se a capacidade de enquadrar — trocar o “isto não vai resultar” por “aqui está uma alternativa que pode aumentar as probabilidades de sucesso”. O tom e as palavras são determinantes para que a mensagem seja recebida como colaboração, e não confronto.
Outra ferramenta essencial é o uso de dados em vez de emoções. Argumentos suportados por evidência — dashboards, registos de risco, análises de custo-benefício — ajudam a manter o diálogo objetivo e construtivo. Paralelamente, criar canais seguros de feedback — reuniões individuais, retrospetivas ou fóruns regulares — permite normalizar a comunicação ascendente e reduzir o peso emocional de desafiar a hierarquia.
Quando bem aplicada, esta diplomacia transforma o risco em parceria. Um prazo ajustado após dados sólidos, uma abordagem gradual aceite por demonstrar menor exposição ao erro — pequenos gestos que fortalecem a confiança mútua e reposicionam o gestor como aliado estratégico da liderança.
Ainda assim, há limites. Quando decisões comprometem a ética, a integridade ou a sustentabilidade do projeto, a diplomacia deve dar lugar à responsabilidade de escalar. Proteger as equipas e os resultados é também um ato de liderança.
Em última análise, liderar não é apenas gerir equipas ou tarefas, mas gerir relações de poder com inteligência emocional e sentido ético. Num contexto onde a hierarquia encontra a responsabilidade, o verdadeiro líder é aquele que domina a arte — muitas vezes silenciosa — de gerir para cima com diplomacia.
A propósito das tolices que se disseram em torno da visita de Ronaldo a Trump, lembrei-me de uma de muitas letras geniais de Chico Buarque: “Geni e o Zepelim”.
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Há um ataque em curso que vai contra os cérebros humanos e esse ataque parece ter vários pontos de partida. Isto a propósito do que Macron afirmou por estes dias: “Estamos numa guerra cognitiva com a China”, expressão importante e que, assim formulada, exige reflexão.