Sábado – Pense por si

Bárbara Marinho Pinto
Bárbara Marinho Pinto Advogada
07 de outubro de 2025 às 14:44

Camisolas de terroristas

Há muito que a coerência se tornou um bem desvalorizado. A força da narrativa arrasa sem piedade todo e qualquer argumento racional.

“Camisolas de terroristas, condições de terroristas”, terá dito o ministro da defesa israelita Itamar Ben-Gvir, referindo-se aos membros da flotilha que rumava a Gaza e que vieram a ser intercetados e detidos, estando a ser, agora, devolvidos aos seus países de origem. Uma viagem que se traduzia num gesto humanitário de apelo a uma causa (a palestiniana). Um gesto que muitos apelidam de “simbólico” ou até “performativo”. Em todo o caso, um ato claramente inofensivo.

Com aquela singela afirmação tornou o ministro bem claro aquilo que já é visível para todos: Para ele (e não só ele), o ser humano não é todo igual. Ele divide-se em categorias. Os “terroristas”, os “não terroristas” e, porventura, os “escolhidos”.

Aqui temos (mais) um exemplar do desprezo por uma das maiores conquistas civilizacionais: O tratamento do ser humano como igual.

Ainda que possa ser sujeito a medidas de força, como a detenção; ainda que possa ser julgado e punido pelos seus atos – se estes forem ilícitos criminais, claro está – o ser humano nunca é despojado da sua dignidade.

Esse reduto comum a todas as pessoas, da mais odiada à mais louvada é o que garante que a barbárie não triunfa sobre a civilização, tal como nós, os ocidentais amantes da democracia, supostamente a perfilamos.

Mas há muito que a coerência se tornou um bem desvalorizado. A força da narrativa arrasa sem piedade todo e qualquer argumento racional.

Que narrativa? Aquela a que eu escolho aderir.

Não importam os factos, nem a lei, muito menos a ética.

Ser a “favor” ou “contra” determinada prática depende do facto de ela provir de uma personalidade que eu apoie ou combata.

A ideia é, então, tratar como “terroristas” os que são “terroristas”.

Desumanizar o oponente, até ao ponto de ele poder ser “objeto” do tratamento que lhe é dado e não “sujeito” num processo equitativo, onde há direitos e deveres de parte a parte.

Não vou sequer perder energia a tentar demonstrar que Mariana Mortágua, Sofia Aparício e os demais membros da flotilha não são terroristas nem apoiam o terrorismo. Não é esse o ponto. O ponto é saber se queremos aceitar o tipo de justiça “olho por olho, dente por dente” ou se pretendemos agarrar e manter a conquista que é produto de sucessivas evoluções culturais e sociais e se traduz num sistema onde o poder do Estado é limitado por leis e onde os cidadãos são titulares de direitos e liberdades fundamentais que são garantidos e respeitados.

O ponto é também este: Há que deixar de mascarar a realidade. Israel, tal como é hoje governado, não cumpre os requisitos de um Estado de Direito Democrático.

Não se trata de simpatizar ou deixar de simpatizar com a causa judaica. Trata-se de julgar os factos com rigor e objetividade. Um Estado que ocupa, coloniza, oprime e dizima um povo não pode considerar-se “de Direito Democrático” nem pode prevalecer-se de um epíteto que não lhe serve. Um Estado que, segundo Ronen Bergman (membro da Ordem dos Advogados israelita) utiliza o homicídio como um instrumento militar. Um Estado cujos sucessivos governos usam os territórios palestinianos por si ocupados como terreno para testar armamento e sistemas de vigilância de tecnologia avançada, com o propósito declarado de controlar a população “inimiga”.

As tentativas de alcançar a paz em Gaza e na Cisjordânia tiveram o seu auge com os Acordos de Oslo, tendo soçobrado com o assassínio (por um judeu de extrema-direita – recordemo-lo) de Ytzhak Rabin, precisamente, quando discursava sobre a tão desejada paz, em Telavive, corria o ano de 1995.

Há quem apoie a solução de dois Estados.

Há quem prefira um Estado único no qual judeus e palestinianos tenham direitos iguais.

O certo é que o caminho não pode ser nunca o da desumanização do oponente ou da vingança.

O caminho – tantas vezes começado e interrompido – tem que continuar.

Mais crónicas do autor
05 de dezembro de 2025 às 07:04

O centro, esse buraco negro

O centrismo tem sido proclamado por diversas personalidades que não têm a mais pálida ideia do que fazer ao país. É uma espécie de prêt-à-porter para gente sem cultura política e, pior que isso, sem convicções ou rumo definido.

04 de dezembro de 2025 às 07:11

A coisa aqui está Preto

Legitimada a sua culpa, estará Sócrates tranquilo para, se for preciso, fugir do país e instalar-se num Emirado (onde poderá ser vizinho de Isabel dos Santos, outra injustiçada foragida) ou no Brasil, onde o amigo Lula é sensível a teses de cabalas judiciais.

04 de dezembro de 2025 às 07:00

O Labirinto da Razão de Estado: Uma análise comparada da arquitetura do sistema de informações da República Portuguesa no contexto europeu

Ao contrastarmos o modelo português com os gigantes da inteligência europeia emerge uma assimetria profunda.

02 de dezembro de 2025 às 07:00

Nem desvirtuar a democracia, nem o orçamento

O Governo não fez choradinho com o impacto orçamental das propostas da oposição.

02 de dezembro de 2025 às 07:00

CR7 e o zepelim

A propósito das tolices que se disseram em torno da visita de Ronaldo a Trump, lembrei-me de uma de muitas letras geniais de Chico Buarque: “Geni e o Zepelim”.

Mostrar mais crónicas

O centro, esse buraco negro

O centrismo tem sido proclamado por diversas personalidades que não têm a mais pálida ideia do que fazer ao país. É uma espécie de prêt-à-porter para gente sem cultura política e, pior que isso, sem convicções ou rumo definido.

O sono da razão

A coisa aqui está Preto

Legitimada a sua culpa, estará Sócrates tranquilo para, se for preciso, fugir do país e instalar-se num Emirado (onde poderá ser vizinho de Isabel dos Santos, outra injustiçada foragida) ou no Brasil, onde o amigo Lula é sensível a teses de cabalas judiciais.