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André Silva

A resposta do sector tauromáquico ao pacifismo: brutalidade e cobardia

31.08.2018 16:57 por André Silva
"São conhecidos os casos de activistas que foram condenados pela justiça, mas em que a sentença do tribunal realçou a importância do acto para trazer luz ao problema."
Foto: Sábado

A violenta agressão sobre activistas anti-touradas em Albufeira marcou este mês de Agosto. Um triste acontecimento ao qual não podemos ficar indiferentes por vários motivos.  O PAN compreende o desgaste que está na base da acção destes activistas, no entanto, defende o Estado de Direito e é por essa via que temos que lutar pela abolição desta prática anacrónica. Reconhecemos que foi uma acção pacífica, provocatória certamente, aliás como todas as acções históricas que alcançaram mudanças sociais fundamentais e que sempre suscitaram respostas violentas por parte daqueles que não conhecem outro tipo de reacção. São conhecidos os casos de activistas que foram condenados pela justiça, mas em que a sentença do tribunal realçou a importância do acto para trazer luz ao problema.

Não nos devemos esquecer de que a história está repleta de exemplos de coragem e tenacidade que moveram pessoas - muitas anónimas - a lutar por um mundo mais digno e nem sempre foi possível fazê-lo no cumprimento da lei estabelecida nas diferentes épocas e lugares do mundo. Em 1930, Mahatma Gandhi iniciou a Marcha do Sal contrariando a obrigatoriedade legal dos indianos comprarem produtos industrializados de Inglaterra, sendo proibidos inclusive de extrair o sal no seu próprio país. Em resposta à provocação, os ingleses prenderam mais de 50 mil indianos, entre eles o próprio Gandhi. Fazendo uso a desobediência civil, com o objetivo último e fundamental de evitar a violência, esta iniciativa pretendeu chamar a atenção para as injustiças na legislação e na sociedade colonial.

Rosa Parks fez história em 1955. A recusa da costureira de Montgomery no Alabama em deixar o lugar a um passageiro branco, mudando-se para as traseiras, reservadas, por lei, aos negros, levou à sua detenção. Em protesto, a comunidade negra de Montgomery promoveu um boicote aos autocarros, liderado pelo jovem pastor Martin Luther King Jr. Em 2012 o então presidente norte-americano, Barack Obama, visitou este autocarro que se tornou um ícone do movimento pela luta dos direitos civis.

Luaty Beirão foi preso preventivamente, em 2015, juntamente com 14 jovens que se reuniam num apartamento para discutir o livro: "Ferramentas para destruir o ditador e evitar nova ditadura — Filosofia política da libertação para Angola", de acordo com a lei angolana eram suspeitos de "crimes contra a segurança do Estado".

Em 2009, em Portugal, enquanto começava a XIX Cimeira Iberoamericana de chefes de estado e governo, no Estoril, nove activistas da Greenpeace escalaram e penduraram na Torre de Belém, duas faixas com 75 metros quadrados e a mensagem "O Nosso Clima, a Vossa Decisão". Os activistas foram detidos.

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Há muita indulgência com este tipo de acção pacifista ou, por exemplo, com as invasões de estádios de Futebol. Não vemos jogadores ou espectadores a espancarem os activistas que entram em campo ao manifestarem-se por uma causa. Estes, são naturalmente detidos e sujeitos às consequências jurídico-legais dos seus actos e a bola continua a rolar.

As questões legais e as questões éticas não estão separadas. A lei faz-se pelos seres humanos e pode ser mudada, a ética é algo que não pode ser ignorada pela lei, por isso, vejo sinais que mostram que, sem desrespeitar a lei, ela deve ser questionada sempre que necessário focando-se naquilo que é realmente universal.

Ficou claro para todos os que viram as imagens que a resposta dos defensores da tauromaquia a uma acção pacifista e não violenta foi totalmente desproporcional e de uma enorme cobardia. Os activistas foram espancados quando já se encontravam manietados e indefesos, uma atitude que foi violenta e criminosa, também ilegal, na medida em que intentou contra a integridade física destas pessoas. Mas não me admira este comportamento por parte do sector tauromáquico, afinal de contas a banalização da violência ocorre na vida destas pessoas desde tenra idade, estão dessensibilizados. Desde cedo que lhes são incutidos valores em que a relação com o outro se constrói pela dominação e pela subjugação, que matar é uma tradição, que ser-se cruel com indefesos é uma arte, e que, violência significa cultura.


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