Olhe-me nos olhos! O pior conselho para apanhar um mentiroso
O segredo mais bem guardado dos profissionais está no fim do corpo, os pés são os piores mentirosos que existem porque estão longe do centro de controlo consciente e ninguém os ensaia.
Crescemos a ouvir que quem mente desvia o olhar. Os interrogadores do FBI, da CIA e da Mossad sabem que é precisamente ao contrário e procuram a verdade noutro sítio: nos pés.
Todos aprendemos o mesmo teste em criança: "Olha para mim e diz-me a verdade." A ideia de que quem mente não sustenta o olhar está tão enraizada que passou de geração em geração como certeza absoluta. Há só um problema, é falsa! Vários estudos comprovam que os mentirosos olham mais, não menos, no momento da mentira e a explicação é deliciosamente humana, como todos fomos ensinados de pequenos que desviar o olhar denuncia, quem mente compensa e faz um olhar fixo e intenso, precisamente para ser percebido como verdadeiro. O mito criou o disfarce e quem continua a confiar no mito olha, literalmente, para o sítio errado.
Passei décadas a estudar como as agências de informação detetam a mentira, e a primeira lição que os profissionais ensinam contraria tudo o que o cinema mostra, não existe um "gesto de Pinóquio", um sinal único que denuncie o mentiroso, o que existe é mais subtil e muito mais fiável, a anomalia. Antes de interpretar seja o que for, o interrogador estabelece a linha de base, como se comporta esta pessoa quando está tranquila? Fala depressa ou devagar? Gesticula muito ou pouco? Tem o pé quieto ou irrequieto? Só depois procura desvios. Alguém habitualmente ansioso que fica subitamente calmo é tão suspeito como alguém calmo que fica subitamente agitado. A mentira não tem uma cara, tem um antes e um depois.
Há um caso clássico que ilustra isto na perfeição. Numa base militar, durante a caça a uma fuga de informação, um interrogador conduzia conversas informais com o pessoal, a certa altura, reparou que um dos entrevistados abanava o cigarro sempre e apenas quando era mencionado o nome da pessoa já apanhada. Repetiu o nome várias vezes ao longo da conversa e o cigarro tremia pontualmente, como um sismógrafo. Não foi o gesto que o denunciou, foi o momento em que acontecia. É esta a regra de ouro, um sinal isolado é ruído, mas um desvio da linha de base, no segundo exato em que se toca no assunto sensível, é informação.
Com a linha de base estabelecida, o corpo transforma-se num mapa e cada zona conta a sua parte. Na cabeça, mais revelador do que o olhar é o pormenor temporal do aceno, quem acena afirmativamente antes de começar a falar tende a estar a dizer a verdade; quem acena depois de já ter começado a resposta está, com maior probabilidade, a construí-la. Nas sobrancelhas mostra um comportamento quase primata, perante uma acusação falsa, o inocente baixa-as, genuinamente zangado com a injustiça e quem as levanta revela que a pergunta não o surpreendeu, já sabia a resposta. Procure a indignação, quando alguém é acusado e ela não aparece, desconfie porque a raiva do inocente é das emoções mais difíceis de fingir.
Depois há o sorriso mais traiçoeiro do reportório humano, que os especialistas batizaram de duping delight o prazer de enganar. É rápido, involuntário, com um ar inconfundível de desprezo, uma fuga de satisfação por estar a conseguir enganar, misturada com o esforço de a esconder, aparece num instante e desaparece, mas quem o vê uma vez nunca mais o esquece. Ainda no rosto, há uma regra que vale ouro em qualquer negociação, as emoções falsas vivem na boca. Quando a felicidade, a tristeza, a raiva ou a culpa são genuínas, mobilizam a cara inteira, olhos, testa, músculos que não se comandam por vontade, mas quando são fabricadas, a expressão fica limitada à zona da boca, como uma máscara mal colada que só cobre metade do rosto, o sorriso que não chega aos olhos.
O tronco conta outra história, mentir consome tanto esforço cognitivo que o corpo encolhe, os movimentos da parte superior minimizam-se, os cotovelos aproximam-se do tronco, a pessoa "congela" e as mãos, governadas por um sistema límbico em pânico silencioso, fazem o contrário acalmam-se a si próprias. O melhor indicador de honestidade é gratuitamente simples, mãos à vista porque quando desaparecem para os bolsos, para trás das costas ou para debaixo das pernas no momento da pergunta difícil, existe uma anomalia.
Mas o segredo mais bem guardado dos profissionais está no fim do corpo, os pés são os piores mentirosos que existem porque estão longe do centro de controlo consciente e ninguém os ensaia. A pessoa tem o pé quieto e, à pergunta "há alguma coisa com que me deva preocupar?", começa a abaná-lo ou o inverso, o pé está irrequieto e congela, antes da pergunta-chave, e depois repare para onde apontam; se, ao ouvir a pergunta, os pés se desviam para uma porta, ativou-se o sistema inconsciente de fuga. As autoridades aeroportuárias usam exatamente esta pista, o agente cruza o olhar com um passageiro e observa os pés se apontarem de imediato para uma saída, a pergunta impõe-se, porque é que esta pessoa, ao ver-me, precisou de fugir?
Ficam duas categorias finais para levar para a próxima conversa difícil. As assimetrias o sorriso unilateral, uma palma para cima e outra para baixo, apontar para um lado olhando para o outro denunciam o conflito entre o consciente que mente e o inconsciente que teima em dizer a verdade. E os gestos higiénicos em resposta, ajustar a gravata, endireitar a saia, tirar fios invisíveis da roupa no preciso momento de responder a uma pergunta específica. Relembro, isolados, não são nada, em resposta, são pistas.
Olhe-me nos olhos! O pior conselho para apanhar um mentiroso
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