As reformas dos professores não dizem respeito só aos professores
Enquanto nos digladiamos com as frivolidades quotidianas, ignoramos um problema de escassez estrutural que tratará de dinamitar as nossas parcas possibilidades de liderarmos o pelotão da economia do futuro, para a qual não estamos minimamente preparados.
No final do resplandecente ano de 2025, a turba mediática entreve-se a debater se a 11 de Dezembro o país tinha testemunhado uma verdadeira paralisação total ou, ao invés, se o comum dos mortais mal se tinha apercebido do impacto da greve geral. Do lado dos sindicatos, como sempre, vingou a tese de que a massa de aderentes à greve terá sido superior ao total de trabalhadores existentes em Portugal, ao passo que, para o Governo, terão estado no batente inclusivamente pessoas que não se encontram (ou nunca encontraram) no activo.
Triste sina a nossa. Só para estas guerras pueris é que as entidades em que depositamos alguma fé estatística se convencem da importância dos números. O mesmo Portugal em que ninguém sabe quantos cidadãos de cada nacionalidade por cá residem, em que a Administração Pública tem dificuldades em quantificar o absurdo de funcionários que tem ao seu serviço, em que o Estado desconhece a extensão do seu próprio património imobiliário, em que nenhuma reforma da floresta permite apurar os proprietários de vastas parcelas de terreno abandonado e em que nenhum ministro das Finanças ou da Reforma do Estado consegue descortinar a colossal e risível participação pública em empresas de todos os géneros e feitios é aquele em que, em meia dúzia de horas, são produzidas sentenças com dados precisos sobre abstenção laboral e os seus efeitos nesta frágil economia celebrada com pompa pelos neoadoradores de revistas internacionais.
Ainda que ninguém saiba grande coisa sobre o que quer que seja, nesta espécie de navegação à vista ditada pelas parangonas com que involuntariamente colidimos, lá vamos conhecendo alguns dados a que até os mais incautos deveriam dispensar alguma atenção. Exemplo? Os que dizem respeito aos professores e ao futuro da educação. Há três meses, o Expresso noticiava que até ao ano lectivo 2034/2035 cerca de 37% dos docentes hoje em funções (46 mil no total) passariam à reforma. O que, em rigor, obrigaria a que se recrutassem 3800 professores por ano durante uma década para não agravar a crise já sentida nas salas de aula de todo o país.
O ano transacto é um exemplo eloquente da tendência. Em 2025, reformaram-se mais de 3600 professores. Só em 2013 o cenário foi mais negro, com 4600 aposentações. Acresce a este envelhecimento generalizado outro problema: o número de novos diplomados em ensino tem ficado bastante aquém do necessário. Em cada um dos últimos anos, ter-se-ão formado, em média, pouco mais de metade do que seria necessário para garantir uma justa ponderação entre entradas e saídas. Além disso, o desequilíbrio entre a oferta e a procura de professores, com a severidade que isso representa na vida de milhares de crianças, é particularmente visível nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.
Enquanto nos digladiamos com as frivolidades quotidianas, ignoramos um problema de escassez estrutural que tratará de dinamitar as nossas parcas possibilidades de liderarmos o pelotão da economia do futuro, para a qual não estamos minimamente preparados, e, pior ainda, de liquidar os discursos floridos sobre o papel da escola pública como maior garantia de mobilidade social (que, de facto e felizmente, já foi).
Ao mesmo tempo que aplaudimos medidas que devolvem alguma atractividade à carreira docente e procuramos mitigar as iniquidades inerentes ao concurso nacional e aos primeiros anos de profissão, não podemos condescender com a falta de compromisso com as futuras gerações dos professores que, reformando-se com o ano lectivo em andamento, condenam os alunos à lotaria das substituições centralizadas e, por maioria de razão, os entregam à sua própria sorte (ou à da carteira dos encarregados de educação).
Em 2024, o Governo implementou um mecanismo, um suplemento salarial de 750€, destinado aos professores que, reunindo as condições para se aposentarem, continuassem a dar aulas. Ainda assim, continuam a chegar-nos relatos mais ou menos próximos e notícias, como a desta semana no Diário de Notícias, de que as centenas de reformas com o ano em curso agudizam um problema em que as soluções eficazes estarão longe de ser populares. Não sendo a bala de prata, deixo uma: que os professores só possam reformar-se no final de cada ano lectivo. Que me desculpem a franqueza, sobretudo os realmente empenhados nos respectivos projectos pedagógicos e os verdadeiramente comprometidos com o futuro dos mais novos: desta vez não é - nem pode ser, como em tantas outras ocasiões -, sobre eles próprios e sobre as reivindicações da sua poderosa classe. As reformas dos professores não dizem respeito apenas aos professores. Haja coragem.
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