Na semana passada protestos pacíficos terminaram em confrontos com a polícia, vandalismo e saque de estabelecimentos comerciais e centenas de pessoas detidas.
Numa cidade com recolher obrigatório, lojas entaipadas e milhares de polícias nas ruas, a luso-francesa Sandra Lopes compara a situação a um estado de "guerra civil" em Paris.
Manifestações em ParisEPA
"Nunca vi nenhuma, mas parece que estamos em guerra civil", confiou à agência Lusa enquanto retira apressadamente pratos e tijelas de cerâmica das prateleiras para guardar na cave.
A proprietária da loja Lusa Luso, onde vende andorinhas coloridas e outros objetos de loiça produzida em Portugal, receia que se repitam os distúrbios do sábado passado.
O dia 17 de outubro foi marcado por uma grande manifestação na capital francesa, convocada por sindicatos, estudantes e 'coletes amarelos' a pedir reformas nos serviços públicos e medidas para aliviar o aumento do custo de vida.
Mas os protestos pacíficos terminaram em confrontos com a polícia, vandalismo e saque de estabelecimentos comerciais e centenas de pessoas detidas.
Apesar de a sua loja se situar longe dos locais onde decorreram as manifestações, Sandra Lopes viu estabelecimentos a serem atacados, caixotes do lixo incendiados e apartamentos invadidos por oportunistas que subiram andaimes.
"Há um antes e depois de 17 de outubro. Até em casa não sabemos se estamos seguros. As pessoas estão muito preocupadas", disse à Lusa.
Ainda assim, não colocou tábuas de madeira nas vitrinas, não só por questões financeiras, mas também porque "esta é uma forma de resistir".
"Tenho de continuar a trabalhar. Além disso, não penso que exista grande risco [de pilhagens] porque a loiça é pesada e difícil de revender na Internet. Mas podem querer parti-la", explicou, a propósito da opção de reduzir as peças na loja.
No restaurante português Pedra Alta, o empregado Alberto Miguel também optou por remover garrafas de bebidas alcoólicas dos expositores e o dinheiro da caixa registadora.
O português receia que o movimento de hoje ainda seja menor do que no sábado passado, quando "nem pagou o salário de um empregado".
Situado a poucos metros da Praça da Bastilha, onde começaram alguns dos distúrbios há uma semana, a porta da frente hoje estava fechada à chave e as mesas vazias, apesar de estar a funcionar.
"Metade dos empregados não apareceu. A sorte é que vivo perto. Mas se continuar assim, fechamos mais cedo", disse hoje à Lusa.
Normalmente, ao fim de semana, este restaurante estaria cheio de turistas, sobretudo asiáticos, "doidos pelo marisco".
Mas a desordem do 17 de outubro afastou a clientela.
"No sábado passado foi muito complicado, tivemos pontapés nas portas e vitrinas. Não partiram porque não calhou", contou Miguel, há 14 anos em França.
Neste período, "esta foi a pior manifestação, com muito gás lacrimogéneo, muita violência".
"O problema não são manifestantes, são os 'índios' que se aproveitam", acredita.
A cerca de cem metros, também perto da Praça da Bastilha, João Daniel Ferraz culpa igualmente os "grupos de pessoas vestidas de preto e caras tapadas" que surgiram à margem dos protestos.
Foram estes que vandalizaram algumas lojas da Boulevard Beaumarchais, nomeadamente a tabacaria vizinha e apartamentos no prédio da frente.
Num caso, descreveu, escalaram a parede até ao primeiro andar, entraram pelas janelas da varanda, roubaram objetos e defecaram no interior.
Compreensivo com os manifestantes, sejam estudantes ou professores, pois "todos têm razões válidas", lamenta que os protestos sejam "infiltrados por alguns desordeiros que causam estragos".
"O problema é que a minoria é enorme", exclama, recordando como os sindicatos antes tinham as suas próprias equipas de segurança para evitar confrontos e confusão.
Vendedor de motorizadas há 25 anos no mesmo local, a Academy Scooters, Ferraz "sabia do risco" das manifestações passarem frequentemente mesmo à porta.
"Por isso temos persianas [de metal]. Mas nunca tive problemas", garantiu.
Este lusodescendente, cuja mãe é originária de Sátão, perto de Viseu, e o pai da região do Porto, acredita que a agitação social se agravou depois da crise financeira de 2008.
Além do aumento de impostos, da imigração, do desemprego e do custo de vida, este antigo motorista de 52 anos lamenta o fim do serviço militar, "porque era uma forma de integração social".
"França deu-me tudo: abrigo, trabalho, rigor, orgulho, vontade de ajudar outros", salientou, triste com a perda de valores e o clima de medo.
O resultado da situação atual, resumiu, é que um vizinho comprou uma arma de balas de borracha para se defender "porque está assustado".
Portugueses preocupados com ambiente de "guerra civil" em Paris
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