Transfobia, covid-19 e polémicas: quem é Nikolas Ferreira, o deputado federal mais votado de sempre no Brasil?
Foi reeleito e bateu o recorde de votos, anteriormente detido por Eduardo Bolsonaro. Mas quem é esta figura tão controversa do panorama político brasileiro?
Nikolas Ferreira foi reeleito deputado federal, no passado dia 4 de outubro, pelo Partido Liberal (PL), e quebrou o recorde de Eduardo Bolsonaro, tornando-se no deputado eleito com a maior votação da história do Brasil, cerca de 3,1 milhões de votos. Controverso, é um fenómeno da política brasileira, adorado entre os conservadores.
Tem 30 anos, nasceu em Belo Horizonte, e é um assumido conservador e evangélico. Formou-se em Direito, pela Pontíficia Universidade Católica de Minas Gerais, e começou a sua atividade política publicamente em 2016, especialmente através de vídeos na plataforma YouTube.
Contudo, Nikolas Ferreira não é uma personalidade consensual no país. É uma figura muito presente nas redes sociais, mesmo quando vê a sua conta suspensa, ou é processado judicialmente pelo conteúdo que cria e partilha.
Negacionismo e anti-vacinas
Durante a pandemia, foi uma das figuras brasileiras mais vocais contra as medidas preventivas para combater a propagação da Covid-19.
Em janeiro de 2021, enquanto era vereador de Belo Horizonte, pediu a suspensão do decreto municipal que fechava temporariamente os serviços não essenciais. O pedido foi negado pelo Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, em primeira instância.
Ganhou mais visibilidade ao nível nacional em setembro de 2021, após ter sido impedido de visitar o Cristo Redentor. Por não ser vacinado contra a Covid-19, foi lhe barrada a entrada no comboio do Corcovado - o transporte que faz a deslocação para o topo do morro onde está o monumento.
Contudo, em novembro do mesmo ano, durante uma entrevista no Bora Podcast, revelou que acabou por tomar a vacina. "Estou a sentir-me imposto, porque preciso de fazer uma viagem importante, vou rodar a Europa a trabalhar. Foi contra a minha vontade", acrescentou.
Discursos transfóbicos
São vários os episódios relacionados com transfobia que marcam o percurso político de Nikolas Ferreira.
Num deles, após uma mulher 'trans' ter denunciado, nas suas redes sociais, um episódio de transfobia, Nikolas Ferreira republicou o vídeo e comentou. "Ela se considera mulher, mas é um homem", adicionou o então vereador, em setembro de 2022.
A mulher processou-o e o atual deputado do PL contestou as acusações. Negou qualquer tipo de crime e afirmou que as declarações estavam inseridas no debate público acerca da ideologia de género, alegando até que estaria protegido pela liberdade de expressão.
Já em 2025, foi condenado pela Justiça de São Paulo ao pagamento de uma indemnização de 40 mil reais brasileiros (cerca de 6.740 euros), à vítima.
Também em 2020, fez declarações acerca de Duda Salabert - a primeira mulher trans eleita no estado da Bahia. "Eu ainda irei chamá-la de 'ele'. Ele é homem. É isso o que está na certidão dele, independentemente do que ele acha que é", afirmou na altura. Reagiu depois na rede social X, tendo mesmo perguntado a um outro usuário se este queria "criminalizar a biologia".
As suspensões nas redes sociais
Tornou-se um dos fenómenos da política brasileira, adorado por muitos no campo conservador. Usa as redes sociais como uma das suas maiores armas, onde mais interage com os seus seguidores, seja no X, Telegram ou WhatsApp. Apesar disso, já viu as suas contas serem derrubadas algumas vezes.
Em 2022, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ordenou que a conta do X (na altura Twitter) de Nikolas Ferreira fosse suspensa. Esta decisão judicial veio no seguimento do uso das redes sociais, por parte do deputado federal, para divulgar alegadas mentiras sobre as urnas eletrónicas e o apuramento dos votos pelo TSE.
Também as suas contas do Instagram e Facebook foram suspensas, devido à partilha de notícias falsas. “Se vocês me perguntarem o porquê, eu também não sei, não faço ideia por que estão derrubando minhas contas. ‘Ah, Nikolas, foi por causa daquele vídeo, daquele post’, eu não sei. Não tenho acesso aos autos, não sei o que está acontecendo”, partilhou o deputado no TikTok - uma das poucas redes sociais em que não lhe tinha sido negado o acesso.
As mentiras contra Lula da Silva
São muitas as publicações dedicadas ao presidente Lula da Silva, nas redes sociais de Nikolas Ferreira. Algumas mais 'leves', outras mais acusatórias, mas mais recentemente uma dessas publicações resultou num processo judicial.
Em setembro deste ano, já durante a campanha eleitoral, distorceu e partilhou na rede social X um excerto de um discurso do presidente agora eleito. Na publicação, Lula falava sobre exames médicos que envolvem "toques".
E na sequência dos "toques", o deputado federal partilhou distorceu o que Lula quis dizer e, numa pesquisa realizada apenas com base em perguntas e respostas da Inteligência Artificial, garantiu que as crianças com menos de 13 anos no Brasil não realizam consultas de saúde ginecológica e reprodutiva.
Depois dessas declarações, foi acionado o Tribunal Superior Eleitoral por parte da campanha de Lula. Nikolas Ferreira foi obrigado a remover a publicação, no prazo máximo de 24 horas. Ficou também proibido de partilhar de novo o conteúdo.
Segundo a juíza Estela Aranha, do TSE, as publicações de Nikolas podem "conduzir o destinatário da mensagem à conclusão de que o candidato representado estaria a fazer referência, anuindo ou normalizando práticas de crimes extremamente graves envolvendo crianças e adolescentes", como avança o Carta Capital.
A publicação continua disponível.