Tragédia no Nepal pode ter sido desencadeada por um glaciar: há 1.300 pessoas desaparecidas
Inicialmente pensou-se num sismo, mas o serviço geológico dos Estados Unidos já desmentiu esta hipótese.
As enxurradas que atingiram a região fronteiriça entre o Nepal e a China, onde pelo menos 289 pessoas morreram e 1.300 continuam desaparecidas, podem ter sido causadas por um glaciar e não por um sismo, como inicialmente se pensou.
O serviço geológico dos Estados Unidos (US Geological Survey) revelou que tudo começou com o desabamento de um glaciar - grande porção de gelo que se desprende e cai por uma encosta - que originou as enxurradas e as cheias. "Análises adicionais de estações sísmicas próximas, ondas sísmicas de longo período e imagens de satélite levaram à conclusão de que o evento sísmico foi, na verdade, um colapso glaciar e fluxo de detritos. Não houve nenhum sismo”, explicou aquele organismo, acrescentando que o desabamento causou “impactos catastróficos a jusante” e que o próprio colapso foi registado como um evento sísmico de magnitude 5,2 na escala de Richter.
De acordo com o World Wide Fund for Nature, uma uma organização não-governamental internacional fundada em 1961 que trabalha na área de preservação da natureza e redução do impacto humano no meio ambiente, os glaciares do Nepal estão a recuar a uma taxa de até 15 metros por ano. Estas alterações desestabilizam as encostas das montanhas, criando volumes de água instáveis, que podem levar a inundações mortais.
O professor Daniel Shugar, geomorfologista da Universidade de Calgary, no Canadá, contou que a análise inicial por satélite mostrou que um bloco de gelo de 0,2 km² "desmoronou cerca de 1,2 quilómetros verticalmente". "Pelo que consigo ver nas imagens de satélite da Planet Labs, a parte inferior de um glaciar desprendeu-se a cerca de 5.200 metros de altitude e caiu para o fundo do vale, cerca de 1.200 metros abaixo”, explicou, citado pelo The Guardian.
O mesmo especialista adiantou ainda que as imagens de satélite também pareciam mostrar que uma grande quantidade de neve tinha derretido nas 24 horas anteriores ao desastre. “Alguns glaciares do vale estavam cobertos de neve ontem e hoje estão praticamente sem gelo. Então, por outras palavras (e eu ainda não vi nenhum dado da estação meteorológica), provavelmente aqueceram.”
Já o professor Andrew Mackintosh, um especialista no estudo de glaciares da Universidade Monash, em Melbourne, na Austrália, disse que não estava claro se o colapso se restringiu apenas ao glaciar ou se "toda a encosta da montanha desabou, incluindo parte do glaciar". “Quando um glaciar desta magnitude desaba, gera muita água, ocorrendo então uma sequência de eventos em cascata, em que a água e os sedimentos se combinam, acumulam-se e criam a inundação.”
As encostas íngremes e os vales verdejantes situados abaixo da cordilheira dos Himalaias são particularmente vulneráveis a inundações e deslizamentos de terras, enquanto fenómenos meteorológicos extremos, como monções intensas e o degelo dos glaciares, tornaram-se mais frequentes devido ao aquecimento provocado pelas alterações climáticas de origem humana.
Sunil Sharma, porta-voz do organismo de turismo do Nepal, afirmou que entre os desaparecidos estavam 133 cidadãos indianos que participavam numa peregrinação ao monte Kailash, no Tibete, um local sagrado para os hindus.
Estavam também desaparecidos 47 cidadãos dos Estados Unidos, 34 da Austrália, 33 do Reino Unido e 24 do Canadá, segundo o responsável.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros confirmou que pelo menos dois cidadãos portugueses, um homem e uma mulher, estão entre os desaparecidos.
Com Lusa
(Notícia atualizada às 11h19 com o número de mortos)