A ideia promovida por Trump de um líder "quero, posso e mando" não dá confiança a ninguém, "nem sequer aos americanos", diz Manuel Caldeira Cabral. O antigo ministro da Economia lembra que se a UE adotar um mecanismo anticoerção, "isso pode ter consequências muito graves".
O segundo mandato de Donald Trump veio deteriorar as relações entre os Estados Unidos e a União Europeia, mas a ameaça norte-americana sobre a Gronelândia pode vir a ser a gota de água. "A ameaça de atacar a Gronelândia e de conquistar esse território, e a pressão que está a pôr sobre um país da União Europeia, é absolutamente inaceitável e a União Europeia vai ter que reagir", diz Manuel Caldeira Cabral, antigo ministro da Economia.
Lusa
Trump anunciou que pretende implementar tarifas de 10%, a partir de fevereiro, sobre oito países europeus - Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia -, devido à oposição ao controlo dos EUA sobre a Gronelândia. A taxa de 10% será elevada para 25% em junho, se não for assinado um acordo para a "compra completa e total da Gronelândia" pelos EUA.
Os líderes europeus pretendem responder, eestá em cima da mesa a reativação do pacote antitarifas de 93 mil milhões de euros, mas também uma ativação do instrumento anticoerção da União Europeia (UE), com a possibilidade de imposição de limites a investidores externos.
"Se tivermos que adotar um mecanismo anticoerção, isso pode de facto ter consequências muito graves. Os Estados Unidos já tiveram quebras grandes na bolsa quando foram as primeiras tarifas, principalmente antes de se saber qual seria o desfecho (...) Há uma sensação e dados económicos sólidos de que os mercados estão sobrevalorizados, nomeadamente os americanos. Há uma sobrevalorização também do dólar que já foi parcialmente corrigida pela quebra de confiança nos Estados Unidos, e isso pode gerar até uma crise internacional", comenta, em entrevista ao programa do Negócios no canal NOW.
Caldeira Cabaral lembra que está em causa a própria NATO, uma aliança que "demorou muitos anos e muito investimento a criar". "Um país de uma aliança que ataca outro país dessa aliança põe em causa de forma fundamental a aliança. Neste momento, na Europa, a maior parte dos europeus já não acredita, da forma como acreditava há dois, três anos, que se houver um problema na Europa o nosso aliado dos Estados Unidos nos virá defender. Pode vir, pode não vir, depende do que o Trump pensar que são as suas vantagens", aponta.
Olhando para o que foi este primeiro ano do segundo mandato de Trump, Caldeira Cabral lamenta o "enorme passo atrás" que foi a guerra tarifária que os EUA lançaram contra o mundo em 2025. " Durante 60 anos os Estados Unidos defenderam o liberalismo e o multilateralismo. Construíram-se instituições internacionais que foram criando consenso nesse sentido, muito lideradas pelos Estados Unidos. Os Estados Unidos beneficiaram muito dessa globalização e as grandes empresas norte-americanas não são norte-americanas, são empresas globais. E de repente os Estados Unidos puseram em causa tudo isso", diz.
A nova postura norte-americana veio forçar uma reorganização global do comércio e o economista diz ser já claro que "a Europa, a China, os vários blocos, estão neste momento a fazer comércio à volta dos Estados Unidos", prejudicando, em última análise os próprios EUA. "Os efeitos para a economia dos Estados Unidos não estão a ser os pretendidos. O dólar desvalorizou, a confiança nos Estados Unidos desvalorizou ou diminuiu, o investimento, nomeadamente a criação de emprego industrial, não aconteceu", afirma.
Exemplo desta nova organização é o acordo, recentemente firmado, entre a União Europeia e o Mercosul, que ainda que não compense a receita perdida com as tarifas norte-americanas, representa um caminho. "Um mercado não compensa o outro, mas compensa parcialmente. O Mercosul, mesmo assim, é o quinto maior mercado do mundo. A União Europeia fez também acordos com o México, com o Chile, com o Peru, com a Colômbia (...) ou seja, a União Europeia está de facto a continuar a abrir-se ao comércio com todo o mundo, exceto com os Estados Unidos, por vontade dos Estados Unidos", explica o economista.
Caldeira Cabral não tem dúvidas de que a abordagem de Donald Trump causa dano ao seu país e dá como exemplo a situação na Venezuela. Ao extrair Nicolás Maduro e deixar na liderança a vice-Presidente, anunciando que irá controlar o petróleo do país, deixou o mundo empresarial inseguro. O republicano instou as petrolíferas americanas a investirem na Venezuela, mas a resposta não foi entusiasta: "As empresas norte-americanas o que dizem é que, com a confiança que lhes dá Trump, que é uma garantia de segurança até ao fim do mandato ou até ele se desinteressar, elas não querem investir. Estamos a falar de investimentos que têm que ser rentabilizados a 15, 20, 30 anos. A lei internacional dá confiança às empresas - às empresas europeias, mas também às empresas americanas. Esta ideia de 'quero, posso e mando', centrada numa só pessoa e num só Presidente, não dá confiança a ninguém, nem sequer aos americanos".
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