Não se resignou ao que muitos previam: que a paralisia cerebral fosse um atestado de incapacidade na representação. Tornou-se ator de sucesso e ajudou a consciencializar o mundo para a importância de combater os estigmas.
RJ Mitte ficou conhecido pelo seu papel na série Breaking Bad - Rutura Total - recentemente eleita pelo New York Times como a melhor série do século XXI - em que interpretava o filho do protagonista: Walter "Flynn" White Jr., um jovem com paralisia cerebral. Ritte usou a sua própria experiência pessoal com a doença para informar a construção da personagem, com as suas lutas físicas e psicológicas a serem transmitidas eficazmente no ecrã. Morreu esta segunda-feira, aos 34, não tendo sido revelados os detalhes sobre as circunstâncias da sua morte.
Em comunicado, os representantes de RJ Mitte prestaram homenagem ao seu legado pessoal e profissional: "É com profunda tristeza que partilhamos o trágico falecimento do amado ator, filantropo e apaixonado defensor dos direitos das pessoas com deficiência, RJ Mitte."
Em Breaking Bad, a personagem interpretada por Mitte usava muletas e tinha dificuldades em falar. Apesar de ser uma personagem secundária, a série acompanhou a luta da personagem enquanto crescia. Desde menor que admirava o pai - ao mesmo tempo que tinha alguma vergonha do mesmo por ser um adolescente - a jovem adulto que o enfrenta, os espetadores assistiram aos obstáculos que Walter "Flynn" White Jr. teve de ultrapassar, como aprender a conduzir apesar de não ter controlo total sobre os reflexos, as dificuldades em expressar-se e fazer-se ouvir ou a simples complicação de se mover pela casa.
Diagnosticado com paralisia cerebral aos três anos, nunca deixou que essa condição neurológica o impedisse de seguir o seu sonho de ser ator. “Nunca, mas nunca, permitiu que esse desafio fosse uma desculpa para nada”, escreveu Bryan Cranston, que interpretou o Walter White, o pai, em Breaking Bad, numa publicação nas redes sociais onde homenageou RJ Mitte. Acrescentou ainda que Mitte enfrentou o exigente ritmo de gravações “com enorme determinação”.
Cranston revelou que tinha trocado mensagens com Mitte poucas semanas antes da morte, enquanto tentavam encontrar uma data para conseguirem almoçar os dois. “Não sei se esse almoço teria mudado o futuro dele”, questionou-se. “Mas sei que o amava e que gostei imenso de estar com ele ao longo dos anos”, concluiu.
O ator falou sobre os rumos da sua vida pessoal e profissional em entrevista ao programa ‘The Joe Vulpis Podcast’. Mitte contou ao apresentador Joe Vulpis que, apesar de ter recebido diversos prémios pela sua atuação em Breaking Bad, a área da sua vida que mais satisfação lhe garantia era o sentimento de preenchimento que tinha a fazer trabalho filantrópico e a ajudar pessoas que vivem em situação de “desespero”. “Uma das coisas que mais me fazem feliz é ajudar os outros. É realmente aí que encontro o meu propósito”, afirmou Mitte, acrescentando que a visibilidade conquistada com Breaking Bad lhe deu a oportunidade de emprestar sua voz a “causas capazes de gerar um impacto significativo”.
“Mitte conferiu autenticidade ao papel e criou uma plataforma de sensibilização e inclusão em torno da deficiência”, refere o comunicado da agência, salientando os programas em que o ator participava junto de organizações dedicadas à angariação de fundos e à sensibilização para a paralisia cerebral e outras perturbações do controlo muscular.
Já em Triumph, série de 2021, Mitter deu corpo a um lutador do ensino secundário com paralisia cerebral e foi ainda porta-voz do Screen Actors Guild para artistas com deficiência e embaixador de celebridades da United Cerebral Palsy.O jovem ator participou ainda em projetos como The Oak Room, The Recall, ou The Guardians of Justice (Will Save You!).