Sam the Kid com Orquestra e Orelha NegraPedro Miranda
Num ano em que NOS Alive, Primavera Sound e Rock in Rio apostaram em velhos conhecidos e regressos precoces, pode dizer-se que o Kalorama se destacou pela exclusividade: várias confirmações de luxo e pelo menos uma autêntica raridade fizeram parte da programação musical da edição de 2026 e, apesar das necessárias repetições de outros anos, compôs-se à partida um cartaz sólido e equilibrado, com especial foco no hip-hop, na música alternativa e no rock mais extremo.
Os cancelamentos de Black Star e Unknown Mortal Orchestra poderiam ter manchado o cenário, mas foi um festival repleto de excelentes desempenhos o que decorreu no Parque da Bela Vista este ano. Sem ordem particular, fique com os melhores momentos que testemunhámos ao longo dos três dias de MEO Kalorama.
O MEO Kalorama regressou ao Parque da Bela Vista de 28 a 30 de agostoPedro Miranda
Anna von Hausswolff
Já se vai tornando conhecida do público português esta sueca que destoava ligeiramente do cartaz, e encaixaria melhor em alinhamentos de festivais de metal exploratório como os do AmpliFest ou Sonic Blast – ou, quiçá, a encerrar os concertos do Kalorama de madrugada. Nada que a tivesse impedido de protagonizar um magnífico arranque dos grandes concertos do festival na tarde do primeiro dia, com uma mistura simultaneamente agressiva e fascinante de doom metal, música coral e darkwave.
Bruno Pernadas
Consolida-se como aposta ganha o prodigioso compositor nacional que mescla universos na sua música, algures entre o jazz, o city pop e o rock progressivo. Aos comandos de um ensemble de oito elementos, fez sentir que poderia estar melhor colocado no cartaz, já que o grosso do público apenas começara a chegar àquelas horas da tarde do segundo dia. Tudo certo: a música complexa, colorida, por vezes desconcertante mas sempre coesa combinou na perfeição com o ambiente que se vivia no palco principal.
Angine de Poitrine
Foi uma confirmação de peso esta dupla de mascarados que conquistou a internet e que goza de uma onda de popularidade notável nos dias que correm. Os bonecos-músicos gesticulam, falam ao público por grunhidos e tocam os seus instrumentos como se a vida dependesse disso, num espetáculo que pode passar por engraçado, absurdo e mesmo ridículo, mas nunca deixa de ser musicalmente prodigioso. O público, que dançou e vibrou tarde fora ao som daquele math rock instrumental, que o diga – este vai ficar para a memória.
Angine de PoitrinePedro Miranda
Criolo, Amaro e Dino
Primeiro estranha-se, depois entranha-se: eis a reação natural ao trio que une o cantor português Dino d'Santiago, o rapper paulista Criolo e o pianista pernambucano Amaro Freitas, que parecem não combinar até se perceber o encaixe. À vez, habitam os universos musicais uns dos outros, com resultados variáveis, é certo, mas um todo convincente que eleva a três dimensões as experiências gravadas no seu aclamado disco homónimo. No final, ainda houve tempo para Não Existe Amor em SP, êxito de Criolo recebido com aplausos.
Criolo, Amaro e DinoPedro Miranda
Vince Staples
Com uma t-shirt dos prodígios nova-iorquinos Geese vestida e uma formação ao vivo a acompanhá-lo, o rapper regressou a Portugal de cara nova: o seu mais recente disco, Cry Baby, é uma incursão profunda no rap-rock e Staples trouxe ao Parque da Bela Vista energia de sobra a coincidir, exigindo, mal entrou em cena, que todo o público sentado se levantasse e acorresse à frente de palco. A plateia, por sua vez, entrou na onda de Vince, mesmo quando o concerto se tornou mais político: "Façam barulho se odeiam os EUA", pediu o americano, recebendo gritos em retorno.
Vince StaplesPedro Miranda
Freddie Gibbs & the Alchemist
Juntos, alcançaram o maior sucesso comercial de duas carreiras muitíssimo respeitadas no seio do hip-hop. O disco Alfredo, de 2020, deu enorme notoriedade ao rapper Freddie Gibbs e ao produtor The Alchemist, que o sucessor, Alfredo 2, editado este ano, veio revitalizar. Como costuma acontecer com o rapper, o concerto soube a uma volta da vitória: ao entrar em palco de kimono de artes marciais e cinturão preto, Gibbs já se coroava vencedor e o público, perante o desfile de rimas e batidas prodigiosas, não pôde discordar.
Freddie Gibbs e The AlchemistPedro Miranda
Grace Jones
Confirmação de peso e rainha de uma constelação muito própria de música de dança, R&B, reggae e art pop, Grace Jones foi antecedida por um curto DJ set de house clássico que denotava um concerto mais mexido. Como demonstrou Nightclubbing, o tema de abertura, o imaginário de noite da jamaicana é outro: mais etéreo, serpenteante e subversivo, mas munido de uma força inegável. Em si, Jones é uma presença a testemunhar, difícil de descortinar e mais ainda de esquecer.
Grace JonesPedro Miranda
Sam the Kid com Orquestra e Orelha Negra
Chamado à difícil tarefa de ocupar o lugar dos Black Star (Talib Kweli e Yasiin Bey), Sam the Kid chegou à Bela Vista não como substituto, mas como herói regressado a casa – "Boa noite, Chelas", fez questão de dizer. Qualquer espetáculo baseado em Pratica(mente), disco cimeiro do hip-hop português e o prodígio de rimar de Samuel Mira seria um sucesso sem reservas. O acompanhamento rítmico e melódico dos Orelha Negra e do ensemble orquestral só ajudou a engrandecer a experiência – um dos mais bem-sucedidos exemplos de substituição à última hora de que nos recordamos.
Sam the Kid com Orquestra e Orelha NegraPedro Miranda
Interpol
Apesar do sucesso inegável dos Interpol, que são parte da história do rock alternativo internacional, não é controverso dizer que são uma banda de momentos, habitantes de um registo específico que nem sempre combina com todos os ambientes. Portugal já viu espetáculos da banda que ficaram aquém, mas este não foi um deles: à boleia de um disco, This Mirror Weighs a Ton, tido como regresso à boa forma, vivem um bom momento, que passou para o público numa performance musculada e adequadamente imersiva.
InterpolPedro Miranda
Clipse
Para lá dos nomes grandes, são confirmações como esta que conquistam o respeito dos fãs de hip-hop. O grupo composto por Pusha T e Malice pode não ser o mais célebre do mundo, mas são escuta essencial do género nos anos 2000 e tiveram um regresso em grande no ano passado com o álbum Let God Sort Em Out, editado 16 anos depois do antecessor. Deslizando sobre as batidas de Pharrell Williams, os irmãos mostraram que conquistaram o seu lugar no pódio do género: isto é hip-hop puro e duro, cru e ímpio, e do melhor que por aí ainda.
ClipsePedro Miranda
Turnstile
No último dia, eram praticamente co-cabeças de cartaz: particularmente para as novas gerações, era visível a expectativa para a banda de hardcore de Baltimore, que correspondeu em igual medida. Chegar a este concerto era sentir que se estava a passar algo de especial. A energia no ar era palpável, mesmo nos interlúdios instrumentais que deixavam o público respirar entre canções, e o frenesim geral que se lhes seguia, eletrizante. Depois de tantos moshpits, era de se estranhar que ainda houvesse corpo para o que quer que fosse.
TurnstilePedro Miranda
Robbie Williams
O novo concerto de Robbie Williams é um objeto curioso: depois de um filme, Better Man, e um disco, Britpop, em que subvertia a imagem e expectativas de estrela pop e sex symbol que cultivou ao longo da carreira, regressa com um espetáculo que descreve como uma "carta de amor ao entretenimento", com valores de produção quase comicamente excessivos e números de stand-up comedy a pontuar os seus êxitos. Fica a impressão de que Robbie ainda não se decidiu entre a sinceridade e a ironia, mas as canções, o carisma e o espetáculo estão lá: não se pode dizer que tenha faltado entretenimento.
Robbie WilliamsPedro Miranda
Ms. Lauryn Hill
Os sinais estavam lá para quem soube prestar atenção: na sua segunda passagem por Portugal, Ms. Lauryn Hill far-se-ia acompanhar por uma longa entourage de colaboradores, incluindo dois filhos, Zion e YG Marley, e o ex-colega dos Fugees, Wyclef Jean. O que não sabíamos era que largas porções do espetáculo seriam ocupadas quase exclusivamente por estes convidados, com direito a canções como Three Little Birds e No Woman No Cry, de Bob Marley, ou Hips Don't Lie, de Shakira, co-escrita por Wyclef Jean. Pior para quem queria ouvir The Miseducation of Lauryn Hill, o seu único disco, que se ficou por alguns destaques. Apesar de tudo, no final, Killing Me Softly fez as pazes com os fãs mais desiludidos.