Ainda envolvido em controvérsia por comentários antissemitas, Kanye procura reerguer-se com uma digressão que termina em Portugal. Bilhetes voaram.
O anúncio surgiu como uma surpresa familiar: desde que se tornou um pária social pelos seus comentários controversos e discriminatórios, Kanye West, ou Ye, como reza a sua mudança legal de nome, tem anunciado concertos esporádicos em lugares improváveis, como Incheon e Goyang-si, na Coreia do Sul, Xangai e Haikou, na China, ou Cidade do México. Disponíveis na íntegra na internet, são concertos minimalistas, invariavelmente em estádios, em que Kanye caminha sozinho pelo palco, reproduzindo os instrumentais das suas canções, muitas vezes cortadas a meio, e cantando por cima da sua própria voz gravada.
É provável que seja um concerto muito semelhante a estes o que trará a Portugal com este anúncio que ninguém esperava. Mas o Algarve não será o seu único destino improvável este ano: na sua primeira digressão desde 2021, além de Madrid, Nova Deli, Istambul e Los Angeles, passa por Arnhem, nos Países Baixos, Marselha, em França e Reggio Emilia, em Itália.
Os concertos serão, ostensivamente, de divulgação do seu 12º álbum de estúdio a solo, Bully, anunciado pela primeira vez em 2024 e várias vezes adiado sem motivo aparente – uma atitude habitual de West, que por várias vezes nos anos 2010 prometeu discos que nunca saíram –, sendo, entretanto, partilhadas maquetes de canções com a voz de Kanye substituída por inteligência artificial. A atual data de lançamento de Bully está marcada para sexta, 27 de março – sem garantias, ainda assim, de que será cumprida.
No entanto, e não obstante os vários pedidos de desculpa que foi fazendo, a sua carreira continua a ser manchada pelas manifestações antissemitas e de apoio ao nazismo que praguejaram os seus últimos anos, marcados por instabilidade e problemas pessoais, artísticos e do foro mental.
De incendiário a neonazi
Considerado um dos melhores e mais bem-sucedidos artistas da história do hip-hop – a revista Rolling Stone inclui seis dos seus discos na lista dos 500 Melhores Álbuns de Sempre – Kanye nunca foi um estranho à controvérsia, tendo já um longo historial de utilizar a sua plataforma pública para, por um lado, desafiar os fãs mais fiéis da sua música e, por outro, para promovê-la através do ruído mediático em torno da sua figura, com uma atitude que já foi apelidada de performance art – a transformação da própria vida em objeto artístico.
Houve, no entanto, um ponto a partir do qual as suas declarações começaram a funcionar contra ele. A interrupção de Taylor Swift em palco nos MTV Video Music Awards de 2009 foi talvez a melhor publicidade para My Beautiful Dark Twisted Fantasy, do ano seguinte, um dos seus discos mais aclamados, mas Kanye passou de dizer, em 2005, que “George Bush não se preocupa com pessoas negras”, para, 13 anos depois, sugerir que a escravidão "soava a uma escolha" por parte da comunidade afroamericana.
Em retrospetiva, é fácil ver nesse momento o início do fim. Nessa mesma entrevista, em que perde a cabeça na redação da americana TMZ, revela o diagnóstico de bipolaridade que já lhe causara episódios de psicose em palco, e no qual os seus fãs mais fervorosos se escudaram para justificar as suas tiradas mais excêntricas. 2018 foi também o ano em que lançou ye, o bem-sucedido disco em que explorava a sua doença mental, e em que colocou pela primeira vez o chapéu Make America Great Again, em apoio a Donald Trump – apesar do historial de apoio a candidatos democratas, incluindo Obama em 2008 e 2012 e Hillary Clinton em 2016.
A associação aos Republicanos não seria muito duradoura, já que, em 2020, ainda Trump estava no seu primeiro mandato, Kanye renegou-o para se candidatar ele próprio à presidência, cumprindo uma promessa que havia feito, em canção, no disco The Life of Pablo, de 2016. Vindo de um renovado fervor religioso, que produziu Jesus is King (2019), um dos seus mais criticados discos, a campanha centrou-se sobretudo no ataque ao aborto, incluindo num comício político em que chora ao dizer que o seu pai queria abortá-lo, e que esteve prestes a abortar a sua própria filha. West teve pouco mais de 66 mil votos, uma média de 0,32% nos estados em que concorreu legitimamente.
Em 2021, lançou o seu mais recente disco de sucesso, Donda, um tributo à mãe, Donda West, cuja morte em 2009 na sequência de uma operação mal-sucedida deixou Kanye irremediavelmente afetado (o documentário jeen-yuhs, realizado por Coodie Simmons, que o acompanhou desde os primeiros dias na indústria, atribui o seu colapso mental a esta perda). No mesmo ano, a separação de Kim Kardashian empurrou-o mais para o abismo: passou os meses seguintes a perseguir Kardashian, e em lançamentos subsequentes, como Donda 2 (2022), a insultá-la e aos seus namorados subsequentes. As referências ao nazismo não tardariam a surgir.
Começaram no final de 2022, quando Kanye foi banido do Instagram, e logo depois do Twitter, por comentários depreciativos direccionados a judeus. Nos anos subsequentes, com cada nova ação, foi um pouco mais longe: apropriou-se iconografia nazi nos discos VULTURES e VULTURES 2; associou-se a supremacistas brancos como Nick Fuentes e conspiracionistas como Alex Jones, da InfoWars; vestiu e vendeu, na sua página oficial, t-shirts com cruzes suásticas; deu uma entrevista vestido com o manto do Ku Klux Klan; lançou canções, como "WW3" e "Heil Hitler", a referir-se a si próprio explicitamente como nazi.
A retórica manteve-se até meados do ano passado, quando removeu as canções de teor nazi da internet e renunciou ao antissemitismo pelo Twitter, pedindo "perdão a Deus pela dor" que causou. No final do ano, encontrou-se com o rabino israelita Yoshiyahu Yosef Pinto para pedir perdão aos judeus, num momento amplamente divulgado e, em janeiro, publicou um anúncio de página inteira no jornal Wall Street Journal, intitulado "Àqueles que Magoei", com um longo texto de desculpas que atribui as suas ações ao "dano neurológico" causado por um acidente sofrido em 2002, no início da carreira, que exacerbou a sua doença mental.
Ainda que as suas canções (mesmo as mais recentes, do seu período problemático) continuem a fazer sucesso, o cerco público a Kanye mantém-se – até porque não foi a primeira vez que pediu desculpas, para depois regressar ao discurso de ódio. Só o tempo dirá se, desta vez, está a ser sincero: para muitos, West já caiu demasiado, e durante demasiado tempo, para alguma vez se conseguir reerguer completamente. Com a nova digressão, que encerra no Estádio do Algarve a 7 de agosto, é isso o que vai tentar fazer. A BOL vendeu 20 mil bilhetes em duas horas, numa fase de venda exclusiva para utilizadores inscritos em lista de espera.