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A Piada Infinita aos 30 anos. Ainda se lê a obra-prima de David Foster Wallace ou basta ver os memes?

O mais difícil dos livros ganha novas edições e recenções. Mas é também alvo de piadas infinitas numa Internet em que falar a sério é cada vez mais raro.

Diogo Barreto 22 de fevereiro de 2026 às 08:00
David Foster Wallace e a obra "A Piada Infinita" ganham destaque. Steve Rhodes

Existe um efeito pavloviano quando se fala de Infinite Jest (A Piada Infinita, na tradução para português): tornou-se obrigatório em qualquer conversa sobre o livro dizer que é “dificílimo” (quase ao nível de Finnegan’s Wake, de James Joyce). E esta fama, além das mais de mil páginas e centenas de notas, terá afastado milhares leitores da obra-prima de David Foster Wallace ao longo dos tempos. Mas nos últimos anos o livro tornou-se um meme em certos círculos da internet, dando-lhe um novo fôlego ao mesmo tempo que cria mitos à volta da sua leitura (e principalmente à volta dos seus leitores). Como acontece com Agustina Bessa-Luís, mas a uma escala global, há muito mais pessoas a falarem do livro com paixão fervorosa do que aqueles que de facto o leram. Agora que se assinalam 30 anos do seu lançamento, ainda vale a pena ler A Piada Infinita ou basta regurgitar os memes?

Com uma capa azul celeste e nuvens ou jogadores de ténis (, editada este mês), o livro agracia estantes por todo o mundo além de thumbnails de vídeos do YouTube em que um cicerone promete “explicar o livro”, “demonstrar o porquê de A Piada Infinita ser bom” ou “”. Juntando às milhões de publicações no X, Reddit, blogs e artigos de jornais, o que não falta é conteúdo para ajudar a navegar este livro tão difícil. Este é apenas mais um artigo para juntar ao bouquet

A Piada Infinita: o livro

Publicado em fevereiro de 1996 o livro tornou-se rapidamente um objeto de culto e David Foster Wallace - professor, crítico e jornalista - consolidou-se como um dos mais pródigos escritores do final do século passado, ao lado de Jonathan Franzen. Foi também o livro que catapultou o seu autor para o estrelato (dentro do meio literário), tornando-o numa pop star da literatura “séria”. 

Livro de vários enredos, David Foster Wallace disse, em 1996, que identificou na sua geração uma “espécie muito particular de tristeza” e que foi essa tristeza que o empurrou a escrever o livro. A geração que Wallace falava era, nos anos 90, uma geração altamente qualificada, mas incapaz de lidar com as várias angústias que a assolavam e sobre as quais não conseguia comunicar, sentido um isolamento num mundo cada vez mais conectado. A incapacidade de comunicar as suas angústias é um tema frequente na vida de Hal Incandenza, o jovem “protagonista” deste romance que ainda hoje, 30 anos depois da sua publicação, se passa “num futuro próximo”, sendo fácil encontrar os elementos ultrapassados (clubes de aluguer de vídeos e adição por media longa como filmes), mas também os elementos que se mantém prescientes.

Além da tristeza (ou a par dela, ou a causa dela, ou até o sintoma dela), a adição é outro dos temas explorados por Wallace, que aflora o vício em drogas, ecrãs, objetivos ou conteúdos de media ao longo do romance, através de várias personagens. Wallace adapta o seu estilo de escrita a cada situação (um dos primeiros capítulos do livro acompanha as horas de um viciado em marijuana antes de poder fumar 200 gramas de erva no mais curto espaço de tempo possível e é um exercício de densidade estilística que pode deixar o leitor exausto várias vezes antes de acabar o capítulo, ao mesmo tempo que não o consegue largar). A Casa de Recuperação de Drogas e Álcool de Ennet é o espaço privilegiado por Wallace para traçar os paralelos de adição, centrando-se em Don Gately, vítima de adição e outro "protagonista".  

Há ainda “a piada infinita”. O filme de James O. Incandenza, o pai do “protagonista”, e que é um produto cultural tão inebriante que quem o vê fica encerrado num ciclo infinito de desejo de ver o filme do início ao fim uma e outra e outra vez, até que se torna um ser à parte do mundo, alienando-se totalmente da realidade apenas para poder continuar a consumir conteúdo (ainda hoje, ou ainda mais hoje, o livro é tido como presciente por todos os críticos em blogs, canais de Youtube ou chatrooms dedicados a DFW). Este elemento narrativo é quase como uma exploração exacerbada do sketch “A Piada Mais Engraçada do Mundo” dos Monty Python. A procura pelo filme surge como elo de ligação entre as várias narrativas dispersas que compõem o livro. 

Por entre temas densos, há elementos de alívio cómico, como o grupo canadiano armado composto apenas por pessoas em cadeira de rodas (Les Assassins des Fauteuils Roulants) ou o calendário que tem o nome de marcas, numa hiperbolização do capitalismo (o futuro próximo em que a obra acontece passa-se, na grande maioria do tempo, no Ano da Roupa Interior para Adultos Depend). 

A Piada Infinita: o livro tornado meme

O livro-oceano de David Foster Wallace (na corrente de livros enciclopédicos como V. ou Gravity's Rainbow / O Arco-Íris da Gravidade de Pynchon, Submundo de Don DeLillo ou 2666 de Roberto Bolaño, como os agrupou Rogério Casanova em Trabalhos de Casa)  completa 30 anos e está a ser alvo de re-edições, recensões, mas, acima de tudo, memes

Enquanto os devotos de David  Foster Wallace olham para o livro como se fosse a versão literária de Music for a New Society (John Cale disse sobre este disco 12 anos depois de o lançareditar: “Não era preciso sofrer tanto para gravar um disco, não era necessário partir as pernas para voltar a aprender a andar. Possuo dor que baste dentro de mim para não ter necessidade de a ampliar daquele modo”), os detratores comparam-no mais a Metal Machine Music, do também ex- Velvet Underground, Lou Reed. Ambos são discos duros de ouvir e digerir. O primeiro pela complexidade e pela dor que o seu autor expressa nas composições. O segundo por ser um ataque impiedoso aos sentidos humanos (provavelmente também aos dos animais e plantas). E A Piada Infinita tem sido agrupado apenas nestes dois grupos: ou genial e essencial ou péssimo e opressivo.

Nos últimos anos, a magnum opus de DFW tem sido alvo de uma "meme-ificação" crescente. De objecto de culto, passou a ser categorizado como uma obra para ser consumida por um tipo de leitor mais preocupado com a imagem que passa de si próprio do que com o conteúdo do que lê. Trazer uma cópia d'A Piada Infinita no tote bag junto da câmara digital e da máquina de iQos, enquanto se bebe uma bebida saudável tornou-se uma piada fácil na Internet para gozar com os "lit bros" (no , Rogério Casanova questiona-se sobre se existem mais de 50 espécimes deste “estereótipo”). A cópia de A Piada Infinita tornou-se mesmo uma alegada red flag: quem escolhe carregar e mostrar este livro é superficial ou tem problemas sérios de um machismo tóxico, dizem milhares de memes e dezenas de artigos publicados nos mais variados sites

Nas últimas semanas vários autores tentaram entender o porquê desta fama do livro, sem chegar a conclusões particularmente interessantes. No , a cantora Michelle Zauner (Japanese Breakfast) escreve sobre o seu fascínio pelo livro - e aconselha a que se ignorem os lit bros que, alegadamente, o co-optaram - num jornal que, meses antes, publicou um intitulado: “É aceitável ler A Piada Infinita em público? Porque é que a internet odeia leituras performativas”. Na questiona-se: "A Piada Infinita faz 30 anos. Esquecemo-nos de como lê-lo" e “analisa-se a diversidade em termos de paridade de género e de representação racial” da obra para se concluir: chumba em ambos os parâmetros. Aquilo a que poucos textos se dedicaram extensivamente - este não é excepção -  foi à análise da obra em si e das suas qualidades e defeitos. 

A Piada Infinita: um guia para a leitura

No panteão de livros difíceis estão obras como Finnegan’s Wake, de James Joyce, pela forma como está redigido; O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon pela aleatoriedade agressiva da narrativa, do aparecimento e desaparecimento aparentemente tosco de personagens e até da alternância de planos em que decorre a ação; ou Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust pela extensão do romance. A Piada Infinita é quase como uma fusão entre os três. Tem passagens em que é difícil perceber o que está escrito por ser redigido em dialeto tem muitas narrativas que podem parecer pontas soltas e é um tomo gigante. 

Um romance com mais de mil páginas (1.102 na nova edição da Quetzal) às quais se acrescentam 95 páginas de notas é, por todas as definições, um romance grande, que rivaliza com um Guerra e Paz ou Os Miseráveis. Nesta nova edição da Quetzal é também pesado: quase dois quilos.

Caso deseje lançar-se à leitura do livro e tiver dúvidas sobre que edição deve escolher, pode optar pela Graça Infinita da Companhia das Letras (para o caso de querer um livro cuja capa seja esteticamente agradável e com uma dianteira única e traduzido para português do Brasil), a nova edição da Quetzal (as badanas podem vir a dar jeito ao longo da leitura) ou, se desejar ler no original, a edição do 20º aniversário da Abacus é um paperback  que aguenta bastante porrada. Há também várias novas edições com capa dura e capa mole a comemorarem os 30 anos com prefácios e críticas variadas. Pode também optar pela edição digital e poupar os braços e possíveis quedas de tomos pesados em cima da cabeça. Caso já tenha a sua edição, resta atacar o livro. 

Depois de várias horas a consumir vídeos e publicações sobre como ler esta obra, deixamos algumas das recomendações mais repetidas:

Tarefas para cumprirr antes de se lançar ao romance A Piada Infinita:

Se cumpriu os passos anteriores (ou simplesmente os ignorou e quer avançar para a leitura do livro), os especialistas aconselham:

O que importa nos trinta anos de A Piada Infinita é que se leia o romance. E que se lembre David Foster Wallace. 

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