A Piada Infinita: um guia para ler o "livro impossível"
O livro de David Foster Wallace é constantemente colocado no pódio de livros mais difíceis de sempre. Partilhamos algumas sugestões de "especialistas" para o ler.
"A Piada Infinita" de David Foster Wallace, um desafio literárioSábado
No panteão de livros difíceis estão obras como Finnegan’s Wake, de James Joyce, pela forma como está redigido; O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon pela aleatoriedade agressiva da narrativa, do aparecimento e desaparecimento aparentemente tosco de personagens e até da alternância de planos em que decorre a ação; ou Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust pela extensão do romance. A Piada Infinita é quase como uma fusão entre os três. Tem passagens em que é difícil perceber o que está escrito por ser redigido em dialeto tem muitas narrativas que podem parecer pontas soltas e é um tomo gigante.
Um romance com mais de mil páginas (1.102 na nova edição da Quetzal) às quais se acrescentam 95 páginas de notas é, por todas as definições, um romance grande, que rivaliza com um Guerra e Paz ou Os Miseráveis. Nesta nova edição da Quetzal é também pesado: quase dois quilos.
Caso deseje lançar-se à leitura do livro e tiver dúvidas sobre que edição deve escolher, pode optar pela Graça Infinita da Companhia das Letras (para o caso de querer um livro cuja capa seja esteticamente agradável e com uma dianteira única e traduzido para português do Brasil), a nova edição da Quetzal (as badanas podem vir a dar jeito ao longo da leitura) ou, se desejar ler no original, a edição do 20º aniversário da Abacus é um paperback que aguenta bastante porrada. Há também várias novas edições com capa dura e capa mole a comemorarem os 30 anos com prefácios e críticas variadas. Pode também optar pela edição digital e poupar os braços e possíveis quedas de tomos pesados em cima da cabeça. Caso já tenha a sua edição, resta atacar o livro.
Depois de várias horas a consumir vídeos e publicações sobre como ler esta obra, deixamos algumas das recomendações mais repetidas:
Tarefas para cumprirr antes de se lançar ao romance A Piada Infinita:
A leitura do ensaio E Unibus Pluram: Television and U.S. Fiction, um texto editado na Review of Contemporary Fiction e que pode ser encontrado na colectânea Uma Coisa Supostamente Divertida Que Nunca Mais Vou Fazer (ou aqui). Neste texto publicado em 1993, Wallace explora os temas de alienação da realidade devido ao entretenimento e a entrada à bruta da publicidade nos meios culturais; Wallace urge ainda aos seus contemporâneos a dedicarem-se a trabalhar a “empatia” como motor da melhor ficção, a que não cede ao “facilitismo” das sit-coms e livros de aeroporto. É tido como um ensaio de anunciação para o que veio a ser A Piada Infinita;
Pesquisar sobre os métodos de funcionamento dos Alcoólicos Anónimos e outros grupos de apoios para pessoas com adições;
Familiarizar-se sobre o passado de DFW como jogador de ténis. Há uma excelente colectânea de todos os textos que escreveu sobre ténis (String Theory: David Foster Wallace On Tennis), mas pode também ler textos soltos como Tennis, Trigonometry, Tornadoes (aqui) ou Roger Federer as Religious Experience (aqui);
Ler sobre a teoria do iceberg na teoria da comunicação e a estrutura em triângulo teorizada por Sierpinski aplicada ao romance (nem a preparação para o livro é fácil);
Ler a peça Hamlet, de William Shakespeare. Porquê? Bem, o título do livro é retirado deste texto dramático e existem vários paralelos entre a obra de DFW e a do Bardo (apesar de o nome do "protagonista" de A Piada Infinita ser uma referência ao Príncipe Hal, das peças Henrique IV e Henrique V);
Há ainda quem trace paralelos entre A Piada Infinita e a Odisseia de Homero (à semelhança do que acontece com outra obra-prima da literatura: Ulisses, de Joyce) e o crítico Timothy Jacobs vê nos irmãos Incandenza uma nova encarnação dos irmãos Karamazov, por isso, porque não pegar nestes clássicos antes?
Se cumpriu os passos anteriores (ou simplesmente os ignorou e quer avançar para a leitura do livro), os especialistas aconselham:
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Tomar notas. Há mesmo quem recomende a compra de um caderno para que se façam anotações sobre a narrativa, as personagens e as relações entre si, para que seja mais fácil encontrar referências. A anotação nas laterais das páginas e os sublinhados são também fortemente encorajados;
A utilização de dois marcadores: um para a narrativa e outro para as notas, de forma a que seja mais célere a passagem entre páginas;
Estabelecer-se um ritmo de leitura. Há quem sugira poucas páginas por dia até se ganhar o ritmo. Outros sugerem um capítulo por dia. Há quem diga que é preciso ler o mais rapidamente possível para não se perder o embalo. No final todos sugerem: leia ao seu ritmo;
Ter mais do que uma edição do livro, para poder saltitar entre ambos;
Ou, a sugestão que pode parecer mais espatafúrdia, mas que muitos juram ser útil: serrar o livro em duas ou três partes para o tornar mais maneável.
O que importa nos trinta anos de A Piada Infinita é que se leia o romance. E que se lembre David Foster Wallace.