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Sem artistas portugueses, o 80.º Festival d'Avignon terá 47 espetáculos

Com o coreano como língua convidada, o festival francês, dirigido pelo português Tiago Rodrigues, não terá este ano artistas portugueses na programação.

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Lusa 09 de abril de 2026 às 12:18
Um dos eventos teatrais mais importantes do mundo, o festival é dirigido pelo português Tiago Rodrigues, antigo diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II
Um dos eventos teatrais mais importantes do mundo, o festival é dirigido pelo português Tiago Rodrigues, antigo diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II Sérgio Lemos

Quarenta e sete espetáculos e duas exposições, num total de quase 300 representações, fazem a programação da 80.ª edição do Festival d'Avignon, a decorrer nesta cidade francesa de 04 a 25 de julho.

O espetáculo Maldoror, que questiona "o segredo do mal", através da escrita de Robert Bolaño e Lautréamont, abrirá o festival que este ano tem como convidada a língua coreana e, entre entre os espectáculos, a peça "Oiseau", a partir de "Despedidas impossíveis", da Nobel sul-coreana da literatura Hang Kang.

Isabelle Huppert, Benjamin Clementine, Carolina Bianchi, Lee Jaram, Tiphaine Raffier, Katerina Andreou, Marion Siéfert são outros nomes para a edição deste ano do Festival d'Avignon.

Segundo os números divulgados esta quarta-feira, durante a apresentação da próxima edição do festival - que tem direção artística do dramaturgo, encenador e ator português Tiago Rodrigues -, este ano serão apresentadas 30 novas criações, o que representa 64 por cento da programação, enquanto 40% será em estreia mundial, 19% das quais do próprio festival, incluindo a secção "Vive le sujet! Tentatives".

Vinte e seis projetos produzidos ou coproduzidos pelo festival (55%), mais de 300 eventos, incluindo espetáculos, leituras projeções, debates e encontros -- estes num total de 80 - fazem também parte da edição deste ano.

No total, a 80.ª edição do Festival d'Avignon oferece um total de 136.000 lugares, mais 14.000 do que os disponibilizados na edição de 2025.

No que respeita à distribuição da programação por áreas, 45 por cento diz respeito a teatro, 15% a projetos pluridisciplinares, 13% a performances, 11% a dança.

A música, o circo, as exposições e as leituras-performance terão um contributo de quatro por cento cada, enquanto o pansori - um género tradicional de narração musical da Coreia do Sul, reconhecido pela UNESCO como Patrimonio Cultural Imaterial da Humanidade e frequentemente comparado a uma "ópera blues" -- terá uma representação. Este género conta com um cantor (sorikkun) e um percussionista (gosu), que combina canto expressivo, fala estilizada e gestos dramáticos para contar histórias longas,

Uma "festa de perguntas" é como o diretor artístico do Festival, Tiago Rodrigues, quer tornar esta edição do festival, partilhando uma série de questões com o público.

"Num mundo repleto de respostas erradas, acreditamos que a criação artística tem o poder de colocar questões complexas, questões que nem sempre admitem resposta. De certa forma, um espetáculo é uma questão colocada por artistas que pedem respostas ao público e é aqui que nasce o debate. Se reunir as pessoas é essencial, o dissenso é-o igualmente: é uma condição da democracia", argumenta Tiago Rodrigues numa entrevista publicada no 'site' oficial do Festival.

O Festival d´Avignon foi sempre lugar de debate, e Tiago Rodrigues afirma que pretende "continuar a alimentar [essa] complexidade". Assim, durante o tempo que durar o festival, surgirão questões a partir dos espetáculos, dos encontros, do Café das Ideias, questões que "serão como poemas em que o ponto de interrogação soa como uma promessa".

Por isso, o Festival terminará com a iniciativa "L´Aube des questions", durante a qual "80 dessas questões serão formuladas por dezenas de personalidades do mundo artístico, cultural, político, associativo e da sociedade civil no Pátio de Honra do Palácio dos Papas: como uma porta aberta para o futuro", frisa o diretor artístico na entrevista.

A abrir a edição de 2026 do certame está o espetáculo "Maldoror", uma criação do Festival que estabelece uma ligação entre as obras de Robert Bolaño e Lautréamont. O criador Julien Gosselin segue os passos dos dois escritores em que cada qual à sua maneira explorou as "profundezas da violência humana". Com uma duração de cinco horas, o espetáculo terá oito representações no Pátio de Honra do Palácio dos Papas, de 04 a 12 de julho.

"Oiseau", a partir da obra "Despedidas impossíveis", da autora sul-coreana Hang Kang, Nobel da Literatura 2024, traduz-se numa leitura encenada por Julie Deliquet, em duas línguas, com a atriz francesa Isabelle Huppert e a sul-coreana Hyeyoung Lee, duas línguas.

Um concerto do britânico Benjamin Clementine, o espetáculo de circo "Le Pas du Monde", pelo Coletivo francês XY, e a produção multidisciplinar "L´Aube des questions", que celebra os 80 anos do festival, são outros espectáculos para o Pátio de Honra do Palácio dos Papas.

Quatro outras produções, três das quais de teatro e um de pansori decorrerão na Ópera Grande de Avignon: duas do festival, da atriz brasileira Carolina Bianchi, que apresentará "Uma luz cordial", terceiro capítulo da "Trilogia cadela força", iniciada em 2023, e "Trilogia cadela força", Capítulos I, II e III.

O espetáculo é de pansori "Snow, snow, now" é protagonizado pela criadora da República da Coreia Lee Jaram e baseia-se na obra "Mestre e homem", de Tolstói.

"L'hors-présence ou Chimères du pays de Morsan", uma criação do festival em estreia com texto e direção de Tiphaine Raffier, "How romantic", um espetáculo de dança, da coreógrafa grega Katerina Andreou e da companhia nacional da Noruega Carte Blanche, e "Bunker", uma criação franco-suiça dirigida por Marion Siéfert, são outras criações do festival.

Sem representação de artistas portugueses, a 80.ª edição do Festival d´Avignon conta com representantes de dez países -- Espanha, Grécia, Bélgica, Itália, Reino Unido, Suíça, Egito, Estados Unidos e República da Coreia.

Do total de artistas que marcam presença nesta edição do certame, 67 por cento é a primeira vez que vai a Avignon.

Sobre a escolha da língua coreana e a sua presença no festival, Tiago Rodrigues salientou, esta quarta-feira, que apesar do surgimento, nos últimos anos, de uma forma de "soft power" através do K-pop e das séries de televisão, as artes performativas continuam a ser muito desconhecidas na cena europeia.

O objetivo do festival não é "apresentar o que já é conhecido", mas "dar a conhecer o que se esconde por trás desse 'soft power'".

"Para dar a conhecer mais profundamente esta sociedade, sobretudo a riqueza da sua criação artística nas artes performativas", a cultura coreana estará representada em espetáculos de teatro documental, dança contemporânea e até através da gastronomia, representando "21 por cento da programação".

Presente na cidade dos papas, a romancista Han Kang terá ainda a sua obra "We do not part by" adaptada ao teatro, num espetáculo com dramaturgia e encenação da criadora italiana Daria Deflorian.

"Che dolore terribile è l'amore" é o título da peça baseada naquela obra da Prémio Nobel da Literatura 2024, que será representando no Claustro dos Carmelitas.

No que respeita ao "Transmission Impossible", um projeto do Festival, da fundação da empresa Hermès e de Lia Rodrigues, cabe a esta bailarina e corógrafa brasileira assegurar a coordenação artística do projeto, sucedendo a Mathilde Monnier.

O programa completo da 80.ª edição do Festival d´Avignon está disponível no 'site' do festival.

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