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Prince, eterno em púrpura: dez canções para lembrar o músico que morreu há 10 anos

Visionário, virtuoso, impossível de domesticar, Prince transformou funk, rock, pop e erotismo numa linguagem própria. Uma década após a sua morte, revisitam-se dez canções que explicam porque continua sem herdeiros.

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Prince, eterno em púrpura: dez canções para lembrar o músico que morreu há 10 anos
Tiago Neto 21 de abril de 2026 às 07:00
Músico virtuoso, artista consagrado, Prince marcou a indústria por mais de três décadas
Músico virtuoso, artista consagrado, Prince marcou a indústria por mais de três décadas Associated Press

A 21 de abril de 2016, o mundo perdeu Prince, mas a música perdeu algo mais raro: um artista que parecia existir fora de qualquer sistema previsível. Tinha 57 anos e uma carreira que parecia ter produzido o equivalente a várias vidas artísticas. Mais de três dezenas de álbuns de estúdio, centenas de canções escritas para si e para outros, milhares de gravações inéditas guardadas no célebre vault (o cofre onde ficou guardado muito material inédito) e uma influência transversal que se estende de Beyoncé a The Weeknd, de D’Angelo a St. Vincent.

Uma década depois, continua a ser difícil encontrar um artista que tenha combinado, de igual modo, virtuosismo instrumental, radicalismo estético, sexualidade performativa e absoluto controlo criativo. Nascido Prince Rogers Nelson em Minneapolis, em 1958, filho de um pianista de jazz e de uma cantora, cresceu rodeado por música e revelou cedo uma relação com os instrumentos.

Adolescente, já dominava guitarra, piano, bateria, baixo e teclados; aos 19 anos assinou contrato com a Warner Bros. com uma exigência invulgar para um estreante: controlo total sobre as gravações. O arrojo justificava-se. Em For You (1978), tocou praticamente todos os instrumentos e desenhou o primeiro esboço do seu universo sonoro. Foi, porém, I Wanna Be Your Lover  [do segundo disco, homónimo, de 1979] que o apresentou verdadeiramente ao mundo. Um êxito de groove elástico e falsete que revelou um talento capaz de fundir disco, funk e pop com uma assinatura instantaneamente reconhecível.

A entrada na década de 1980 viu-o reformular o léxico da música negra americana. Com Controversy (1981), transformou dúvidas sobre raça, sexualidade e religião em provocação dançável, assumindo a androginia como arma estética num período ainda profundamente conservador.

Logo depois, 1999 (de 1982) elevou-o a uma nova dimensão comercial. Sob a forma de um hino de pista de dança, a canção mascarava ansiedade nuclear e paranóia de Guerra Fria, convertendo o medo do fim do mundo numa festa hedonista. Era esse o génio de Prince, fazer da inquietação política matéria-prima para pop exuberante. Do álbum 1999 fazia parte a canção Little Red Corvette.

A explosão definitiva aconteceu com Purple Rain (1984), o álbum e o filme que o transformaram numa superestrela global. O disco consolidou não apenas o artista, mas também o mito. When Doves Cry, lançada como primeiro single, foi uma decisão de risco e génio, uma canção sem linha de baixo, austera e nervosa, construída sobre batida seca, guitarras cortantes e uma vulnerabilidade emocional rara no topo das tabelas.

Poucos meses depois, Purple Rain - a faixa - tornava-se a magnum opus; uma balada monumental de vocação espiritual, construída como lamento, redenção e apoteose rock, capaz de resumir num só tema a teatralidade e transcendência de toda a sua obra.

Em vez de se acomodar ao estatuto recém-adquirido, Prince acelerou. Around the World in a Day (1985) e Parade (1986) revelaram um artista cada vez mais psicadélico, menos interessado em repetir fórmulas e mais em implodir expectativas. Raspberry Beret - de Around the World in a Day - mostrou a sua faceta mais colorida e barroca, uma canção de pop psicadélica com perfume 1960's que desafiava frontalmente o molde de estrela funk em que o mercado tentava encerrá-lo.

No extremo oposto, Kiss provou que também podia dominar pela subtração: magra, minimalista, a faixa é um exercício de tensão e precisão que redefiniu a ideia de funk-pop nos anos 80.

Se o erotismo era um dos seus idiomas, a consciência social era outro, ainda que nem sempre evidente. Sign o’ the Times, de 1987, - retirada do disco com o mesmo nome, estilizado Sign '?'the Times - permanece uma das suas composições mais agudas: uma enumeração quase jornalística sobre a sida, a violência de gangues, o desastre espacial e a crise moral americana, entregue num registo contido que contrastava com o excesso performativo que o celebrizou. Era a prova de que Prince podia ser intelectualmente camaleónico.

Nos anos 1990, já em guerra aberta com a indústria discográfica e com a editora Warner, o músico fez do próprio corpo um manifesto, surgindo em público com slave [escravo] escrito no rosto e substituindo o nome por um símbolo impronunciável para protestar contra os contratos que considerava exploradores.

Mesmo em conflito com a máquina comercial, continuou a produzir êxitos. Cream, do disco Diamonds and Pearls (1991), encapsulou a sua arrogância carismática num funk luxuoso e insolente.

Um trabalho de onde sairia também a homónima Diamonds and Pearls, faixa que alcançou um morno terceiro lugar no top 100 da Billboard, uma prestação abaixo da tabela de R&B, onde se fixou em primeiro lugar. Maioritariamente elogiada pela crítica, Diamonds and Pearls evidenciou-lhe a capacidade de produzir baladas rock, polvilhando-as com uma monumentalidade assinalável, e deu também palco a Rosie Gaines, integrante do seu projeto The New Power Generation, com quem aqui dividiu os vocais do tema.

No seguimento viria The Most Beautiful Girl in the World, canção que recordou ao público que, por trás da persona provocadora, existia um melodista de exceção, capaz de escrever baladas românticas com uma delicadeza quase clássica.

A produtividade de Prince tornou-se lendária precisamente porque parecia não conhecer disciplina externa. Gravava compulsivamente, muitas vezes durante a noite, regravava discos inteiros, escrevia canções para artistas como Sinéad O’Connor, Chaka Khan ou The Bangles, e acumulava material ao ritmo de quem acreditava que a inspiração era um recurso inesgotável.

O cofre de Paisley Park, aberto gradualmente após a sua morte, confirmou o que durante décadas parecera mito: havia, de facto, música suficiente para sustentar anos de lançamentos póstumos. Dez anos depois da sua morte, Prince permanece um paradoxo raro, um artista de massas profundamente idiossincrático, um virtuoso que nunca sacrificou emoção, um provocador de imagética quase religiosa, um perfeccionista pop que pensava como autor de vanguarda.

Estas canções não resumem a sua obra, mas ajudam a percorrer a narrativa de um músico que recusou fronteiras estilísticas, hierarquias industriais e qualquer forma de contenção criativa. A música popular moderna ainda vive, em muitos aspetos, à sombra daquilo que Prince inventou.

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