Sábado – Pense por si

Morreu o designer José Santa-Bárbara, criador das capas dos discos que serviram de senha ao 25 de Abril

O designer é também o responsável pelo logótio da CP e de vários álbuns icónicos da cena musical portuguesa.

Capa da Sábado Edição 21 a 27 de abril
Leia a revista
Em versão ePaper
Ler agora
Edição de 21 a 27 de abril
Morreu o designer José Santa-Bárbara, criador das capas dos discos que serviram de senha ao 25 de Abril
Diogo Barreto 28 de abril de 2026 às 21:59
José Santa-Bárbara
José Santa-Bárbara DR

Morreu José Santa-Bárbara, designer português cujo trabalho ficou imortalizado nas capas de discos de José Afonso. No total, a dupla trabalhou em conjunto nove vezes, tendo Santa-Bárbara também sido o responsável pelo logo da CP entre outras capas de discos icónicas.

Santa Bárbara nasceu em 1936, em Lisboa. Fez uma carreira no design gráfico, tendo apresentado a sua primeira exposição individual em 1964, na Galeria Divulgação, no Porto, e na Galeria 111, em Lisboa. Antes tinha já participado em diversas exposições coletivas

José Santa-Bárbara e José Afonso conheceram-se “num encontro ocasional” de amigos, em meados da década de 1960, no bairro lisboeta dos Olivais, e “a partir daí começou a existir cada vez mais proximidade, até que José Afonso, quando vinha a Lisboa, passou a ser visita regular da casa de Santa-Bárbara e até já lá tinha um pijama”, recordou Abel Soares da Rosa na apresentação do livro Santa-Bárbara, Capista de Zeca, editado pela Lusitanian em 2023. Nestas estadias, “José Afonso apresentou Santa-Bárbara a outros dois ilustres vizinhos do bairro dos Olivais, [o compositor] José Niza [1938-2011] e o [músico e cantor] Adriano Correia de Oliveira [1942-1982]”.

José Afonso e o músico Rui Pato ensaiaram na casa de José Santa-Bárbara temas do álbum Contos Velhos Rumos Novos (1969). Sobre este disco, Soares da Rosa recordou “uma história muito engraçada”. Na casa de Santa-Bárbara havia um candeeiro de plástico rígido, de design italiano, e a meio de uma sessão de ensaio “José Afonso, sempre à procura de ritmos e novos sons, virou-se para Santa-Bárbara e disse que precisava de qualquer coisa para fazer o ritmo. Santa-Bárbara lembrou-se daquele candeeiro de plástico com estrias, e com um lápis fez o ritmo, lá acabou por sair no tema Era Noite e levaram-no. Está registado no disco”.

O convite para capista terá partido do cantor: "Olha lá, tu não queres fazer a capa do meu novo disco?”, questionou Zeca. O disco em causa era Outro Amigo Também, de 1970. Depois desenhou as capas para a reedição de Cantares do Andarilho e Contos Velhos, Rumos Novos (discos que Zeca editara no final dos anos 60). 

Depois Santa-Bárbara foi responsável pelas capas de Cantigas do Maio (1971), Eu Vou Ser Como a Toupeira (1972), Venham Mais Cinco (1973), Enquanto Há Força (1978), Fados de Coimbra e Outras Canções (1981) e Como Se Fora Seu Filho (1983), o penúltimo disco do autor de "Maio Maduro Maio". 

Mas não foi só para José Afonso que Santa-Bárbara desenhou capa de discos. Mário Viegas, com A Invenção do Amor e Outros Poemas de Daniel Filipe (1973), Adriano Correia de Oliveira com Notícias d’Abril (1978), Fausto e O Despertar dos Alquimistas (1985), Ana Firmino e Carta de Nha Cretcheu (1989), Andrés Stagnaro e Entre Dos Lunas (2009), ou o mais recente Não Lugar (2023), de O Gajo, entre outros.

 Mário Viegas, Fernando Tordo, Carlos Mendes, José Jorge Letria, Paulo de Carvalho, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias ou os cabo-verdianos Celina Pereira, Travadinha e Ana Firmino viram os seus trabalhos musicais agraciados com ilustrações de Santa-Bárbara, como documenta o livro Santa-Bárbara, Capista de Zeca, da autoria de Abel Soares da Rosa, editado pela Lusitanian em 2023.

Em 1970, participa na 1ª Exposição de Design Português, na FIL, em Lisboa; em 1976, integra os artistas representados na exposição «20 Anos da Gravura», na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Participa ainda, entre muitas outras, na Design Lisboa 94, no CCB e, também em 1994, na Exposição dos Galardoados com o Prémio Nacional de Design, no Centro Português de Design, em Lisboa.

Nesse mesmo livro, Santa-Bárbara conta que fazia as capas inspiradas nas letras, lembrando o exemplo de uma das capas mais icónicas da música portuguesa, a de Cantigas do Maio. Na canção "Coro da Primavera", José Afonso escreveu: "Sempre a nossa fome/ Nos consome/ Dá-me a tua mão". E a partir daqui, o designer teve a ideia de fazer uma capa com a sua mão multiplicada em várias cores. 

A investigação de Abel Soares da Rosa levou-o à consulta do processo do artista nos processos da polícia política, a PIDE, atualmente depositados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. É um dos documentos apresentados neste livro. “Santa-Bárbara estava vigiado pela PIDE e, o curioso, é que sendo ele um homem solidário e comprometido na luta contra a ditadura e pela liberdade de expressão, por sorte, nunca foi apanhado pela polícia política”, afirmou Soares da Rosa.

Curiosamente, Santa Bárbara foi também o designer por trás da capa das duas canções que foram usadas como senha para o 25 de Abril: o single de Paulo de Carvalho "E Depois do Adeus" e o EP de José Afonso "Grândola, Vila Morena", bem como o disco em que a canção acabou por ser incluída. 

A Newsletter SÁBADO Edição Manhã no seu e-mail
Tudo o que precisa de saber sobre o que está a acontecer em Portugal e no mundo. Enviada de segunda a domingo às 10h30