Dizia que era “um individualista romântico” e que tinha “um lado mais anarca”. Deixou-nos na última madrugada, aos 76 anos.
Um dos músicos a figurar no Panteão da escrita de canções em português, Jorge Palma (1950-2026) morreu esta segunda-feira à noite, aos 76 anos. Dizia que era “um individualista romântico” e que tinha “um lado mais anarca” do que os cantores de intervenção do seu tempo. À SÁBADO, há três anos, declarava: “Como diz o Woody Allen, sou absolutamente contra a morte, pá”. Eis dez citações marcantes em que se descrevia e que resumem a sua forma de encarar a vida e a música:
“Aos 30 anos dizia que não queria viver para lá dos 50. A opinião vai mudando [risos]. Isto afinal vale a pena ficar mais uns tempos. Como diz o Woody Allen: sou absolutamente contra a morte, pá. E não penso nisso. O que se há de fazer?
Entrevista à SÁBADO, 2023
“A minha convivência com o Ary [dos Santos] foi a minha escola. O período de aprendizagem foi a conviver com ele, a vê-lo escrever para outras pessoas, para o Carlos do Carmo, para a Tonicha, para a Simone de Oliveira, para toda a gente. A ver como ele funcionava. Do nada surgia uma coisa sem sentido, de repente já era um poema. Ao vê-lo trabalhar, aprendi muito.”
Entrevista à SÁBADO, 2023
“Às vezes mostrava a ‘Encosta-te a Mim’, por brincadeira, ao Rui Veloso, ao Tim, ao Vitorino, ao João Gil. E quando dizia ‘isto é uma baladazita’, e tal, eles diziam-me: estás maluco pá! Tens de meter essa merda! E eu: ok…”
Entrevista ao Observador, 2022
“Não acredito em receitas. Pensar: vamos lá escrever um ‘Encosta-te a Mim’, um ‘Deixa-me Rir’ ou um ‘Frágil’? Não resulta e não sei fazer. O que sei e aprendi a fazer relativamente bem foi a escrever letras de canções em português. Trabalhar com a métrica, com a rima.”
Entrevista ao Observador, 2019
“Tenho desafiado a morte de uma forma completamente louca, de uma forma que não é suicida porque… quanto mais tempo estiver aí – e em boas condições, atenção -, melhor. É a minha ideia, a funcionar bem quero estar aí até 2050 ou qualquer coisa assim. Os milagres tecnológicos e essas coisas todas mostram que não são só coisas más a acontecer [no mundo]”
Entrevista ao Observador, 2019
“O meu corpo tem resistido de uma forma que ninguém sabe explicar, quase como o Keith Richards. Os pulmões estão um bocado chamuscados mas de resto estou aí para as curvas.”
Entrevista ao Observador, 2019
“Acho que nunca perdi anos de vida. Sei que ganhei experiência e diverti-me imenso. Houve situações difíceis, pontuais.”
Entrevista ao Observador, 2019
“O tabaco e o álcool – vinho e cerveja – vêm de um grande esforço que fiz aos 13 ou 14 anos para ser um homem. O meu organismo rejeitava o tabaco, o vinho, a cerveja. Foi muito complicado mas consegui ser um homem [pausa]. Consegui fumar e beber de tal forma que a bebida e o tabaco tornaram-se um problema para mim. O álcool está basicamente afastado, mas não consigo deixar de fumar”
Entrevista ao Observador, 2019
“Fui sempre buscar músicos de jazz ao Hot Clube, que frequentava. O jazz é uma vertente que não se nota muito na minha execução, mas está cá.”
Entrevista ao Observador, 2019
“Mesmo nos cantos livres, naquelas coisas todas da Voz do Operário, por todo o lado, nunca escrevi nem alinhei em músicas panfletárias. Nunca me passou pela cabeça pertencer a um partido. Costumava dizer que era um individualista romântico [ri-se]. Se isso vem do Dylan, da ideia de não querer ser porta-voz de nada nem de ninguém? O Dylan foi uma espécie de guia para mim, sim, de cicerone. Eu tinha, sim, um lado mais anarca.”
Entrevista ao Observador, 2022