Estar numa sala, no escurinho do cinema, sem outras interferências - nem pipocas - além do que se passa no grande ecrã, pode ter os dias contados? É esta questão que se adensa à medida que são conhecidas as notícias acerca do encerramento de salas de exibição no País, num total que chega agora quase à meia centena. Os mais recentes, todos multiplexes da Nos, Cineplace e UCI, afetaram Lisboa, Loures, Guarda, Caldas da Rainha, Covilhã, Viana do Castelo, Braga, Maia, Vila Nova de Gaia, Viseu, Tavira, Guia, Seixal e Funchal.
Em alguns locais, isso significa que as populações ficam literalmente sem acesso a programação cinematográfica. Nesses casos, ver filmes passa a acontecer apenas em casa, através dos canais de televisão, das plataformas de
streaming ou, no pior dos cenários, recorrendo a
sites piratas que disponibilizam os títulos mais recentes a custo zero.
Nem todos querem isso. Duas associações de moradores de Telheiras e Alto do Lumiar, na semana passada pediram esclarecimentos à Inspeção-Geral das Atividades Culturais (IGAC) acerca do encerramento das 12 salas do cinemas NOS Alvaláxia, por representar “uma alteração estrutural da oferta cultural” naquele bairro lisboeta.
Uma fonte oficial do Sporting Clube de Portugal, o detentor do espaço comercial em elevado grau de abandono, explicou à Lusa um dia após o encerramento do complexo cinematográfico que tem previsto “um novo espaço pioneiro de experiência imersiva, que será desenvolvida através da reconversão das salas de cinema do Alvaláxia, permitindo a criação de um espaço inovador, alinhado com as novas formas de consumo de entretenimento e com a visão estratégica do clube para o seu ecossistema desportivo, cultural e de lazer.”
O Londres, na Avenida de Roma, encerrou em 2013 devido à insolvência da empresa proprietária, a Socorama
O King era um triplex de culto e está agora à venda por 1,7 milhões de euros
Os cinema Alvaláxia abriram em 2003, pela mão de Paulo Branco. Na altura tinham todas as condições
Reinvenção, precisa-se
O produtor Paulo Branco, um nome incontornável do cinema nacional e europeu, e que lançou este conjunto inovador de salas de cinema que, na altura, em 2003, detinha excelentes condições técnicas de projeção, não se admira com estes fechos sucessivos. Sabe, por exemplo, que a exibidora Cineplace (chegou a ser a segunda maior a operar no mercado português) está insolvente - acaba de receber uma carta do tribunal enquanto seu credor -, que os espetadores dessas salas comerciais, os chamados multiplexes, já não são assim tantos e que este negócio é muito menos rentável para os centros comerciais do que outra loja qualquer. Não há por isso grande abertura para ajudar os exibidores a ultrapassarem esta fase, a um ritmo tendencialmente mais lento.
No entanto, recusa-se a vaticinar o fim de uma era e acha a notícia da morte do cinema extremamente exagerada. Prefere assinalar o início de outra fase, que precisa de intervenção para crescer. "Estamos perante uma modificação completa de hábitos. Há que transformar a ida ao cinema em algo mesmo diferente a ficar em casa, puxando pelo lado lúdico da experiência", explica. E repensar a relação do espetador com novos espaços reestruturados, chamando a atenção para as estreias, nos meios de comunicação social. "Como se explica que não exista nenhum programa de cinema da estação pública?"
Mesmo que não encontre todas as razões para o descalabro das salas de cinema, neste ponto, Luís Urbano, dono da produtora O Som e a Fúria, concorda com Paulo Branco. "Temos de reinventar o ato de ver cinema, numa lógica de articulação entre os privados e políticas públicas", resume. E realça que cinema é grande ecrã e uma experiência coletiva.
Onde as salas estão cheias
À boleia do PRR, imensas câmaras por esse País fora conseguiram equipar-se com projetores e angariar espaços para exibir filmes. Porém, nota o produtor, continuam a faltar pessoas que saibam transformar essas salas em algo que não seja uma mera reprodução do que se passa no recato do sofá. "Não existem mediadores culturais que cativem públicos, convencendo-os de que aquele espaço é melhor do que a sua casa", lamenta Paulo Branco.
A realidade de Lisboa e Porto é um pouco diferente. Luís Urbano sublinha, por oposição ao encerramento dos
multiplex, o êxito de cinemas como o Trindade, a norte, o Fernando Lopes, da Universidade Lusófona, o Ideal ou o Nimas, na capital, e o facto de terem todos "porta para a rua". O produtor considera que esse pode ser um dos segredos destas salas, mas sabe que replicar esse modelo torna-se difícil, por culpa da especulação imobiliária atual que coloca as rendas nestas cidades num patamar incomportável. O plano estratégico plurianual do Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA), 2024-2028, já agrega a discussão e avaliação das linhas para o futuro. E na sequência de todos estes encerramentos, a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, anunciou a criação de um grupo de trabalho para refletir sobre a exibição de cinema no país, precisamente com o ICA e o IGAC. Hoje mesmo, houve uma reunião a três, mas ainda se desconhecem as medidas que de lá saíram.
De dinâmica de programação percebe Paulo Branco, à frente do Nimas, a sala lisboeta que tem batido todos os recordes, com apenas 200 cadeiras. Fecharam 2025 com quase 90 mil espectadores (um aumento de 31,5% face ao ano anterior) - tendo em conta os números de janeiro, já apontam para um ano a bater nos 100 mil bilhetes vendidos. A título de exemplo, repare-se que, no sábado passado, às 10 da manhã, havia 120 pessoas a ver o filme
Sirât, do realizador franco-galego Oliver Laxe. No dia seguinte, à mesma hora, o mesmo número de cinéfilos esperava pelo começo de
O Agente Secreto, o êxito brasileiro, com assinatura de Kleber Mendonça Filho. Já o
Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, levou quase meio milhão às salas desde a sua estreia - não se pode dizer que seja uma obra comercial. "Os espetadores estão cá, é preciso ir buscá-los", conclui o cineasta.
A este propósito, Luís Urbano lembra uma das medidas de êxito em França. "Lá, fazem educação para a imagem, fomentando a ideia de ir ao cinema. Depois de uma escolha dos principais filmes do ano, esses tornam-se títulos obrigatórios e são levados à escola para que os alunos os vejam em sala." Talvez assim, os mais novos larguem os outros ecrãs, mais pequeninos e distrativos, nem que seja durante o tempo de duração da obra, e reaprendam o gosto de estar no escurinho do cinema.