Entrevista
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Tozé Marreco: “Não sinto saudades de jogar, só de festejar os golos”

Tozé Marreco: “Não sinto saudades de jogar, só de festejar os golos”
Ana Bela Ferreira 30 de julho

Admite que teve uma carreira mediana e que devia ter apostado mais no estrangeiro. Depois de ter brilhado no Tondela como jogador (foi o melhor marcador da II Liga), quer fazer história como treinador e sonha conquistar a supertaça já este sábado, frente ao FC Porto.

Depois de treinar os sub-17 da Académica e o Oliveira do Hospital no Campeonato de Portugal, assume a equipa do Tondela, numa época muito difícil, uma vez que o clube beirão, que desceu à II Liga, está impedido pela UEFA de contratar jogadores até ao verão de 2023 (por causa do contrato de Naoufel Khacef, que tinha rescindido unilateralmente com uma equipa argelina) e perdeu 10 jogadores da época passada. Não promete o regresso à I Liga, mas quer ganhar a supertaça (o jogo contra o FC Porto é já este sábado). António José Marreco Gouveia, no mundo do futebol conhecido por Tozé Marreco, lembra à SÁBADO a carreira, fala da família e das ambições futuras – já foi a Itália ver Ronaldo na Juventus, agora quer ir a Roma por causa de José Mourinho.

Quais são as expectativas para o jogo da supertaça, com o FC Porto?
É uma oportunidade de ouro, de disputar um troféu nacional. E temos de a agarrar, independentemente do favoritismo do FC Porto. No futebol, a coisa boa que sabemos é que o resultado muitas vezes é imprevisível.

Foi um grande revés esta situação de o Tondela estar impedido de contratar jogadores?
Eu sabia das regras desde o início e aceitei-as. Claro que a situação vai ser difícil de resolver, mas temos de arranjar soluções. E estou confiante de que podemos dar a volta a isto.

Regressa ao Tondela, onde já tinha sido feliz como jogador. Foi isso que o fez aceitar o desafio?
Obviamente que o que eu vivi no Tondela, nas duas passagens, foi marcante, fui feliz aqui. Há uma boa imagem que eu aqui criei, agora isso não me salva de nenhum problema.

As pessoas estão confiantes na sua capacidade de fazer o clube subir.
Não vou entrar nesse caminho de falar de subida porque é injusto no contexto atual. É preciso não esquecer que perdemos 10 jogadores importantes da época passada, estamos a viver uma situação que nenhum clube na história de Portugal viveu. Agora, se me perguntar se o Tondela vai entrar contra o Nacional (na 1ª jornada da II Liga) para ganhar? Vai. E depois contra o Benfica B? Também. O meu foco é jogo a jogo.

Há uma empatia com os adeptos?
Acho que sim. Da mesma forma que eu me sinto em casa aqui, há um grande respeito das pessoas para comigo. E eu sinto isso e sinto essa confiança, que foi uma imagem de marca, além dos golos que aqui fiz, foi sempre o lutar, o querer, a ambição. Eu sempre me dei bem no Interior e admiro as gentes do Interior, no sentido de que têm de lutar mais e contra mais coisas.

Vamos falar do momento em que decidiu pôr fim à carreira de jogador e passar a treinador (em 2019). Como é que foi esse processo?
Sempre tive a ideia de ser treinador desde o dia em que comecei a jogar. Foi uma coisa que fui preparando ao longo da carreira, não sabia se ia acontecer, nem sabia se tinha talento para o conseguir, mas sempre tive essa paixão pelo treino, de perceber as coisas, da estratégia. E fui-me preparando naquilo que podia, fiz os dois cursos da UEFA C e B, tirei o curso de direção desportiva, fui estando atento ao que se trabalhava, e ter vivido em diferentes contextos e países também me enriqueceu.

Passou por 16 clubes na carreira...
Tive 20 e tal ou se calhar 30 treinadores, nunca os contei, mas fui percebendo o que se devia fazer e o que é que nunca se devia fazer. Isso foi-me dando alguma bagagem, até em termos de liderança.

Ainda tem vontade de entrar em campo para corrigir os jogadores?
Não, nenhuma, não me apetece nada jogar.

Nem para corrigir os jogadores?
Não, que podia não correr bem. Estes três anos [como treinador], se joguei quatro ou cinco treinos foi muito. Há sempre amigos a chatear-me para jogar, mas não me apetece nada. Se me perguntar se tenho saudades de festejar um golo, tenho, isso tenho.

Acabou a carreira com 32 anos. Porquê?
Porque mais nada nem ninguém me motivaram a continuar. Fiz uma carreira que considero mediana, estive muito tempo fora, sempre com a casa às costas. E tive a liberdade financeira de tomar essa decisão porque fui poupando. Nos últimos anos, as propostas que tive não me motivaram a dizer: “Vais deixar a tua família, vais para longe porque vai acontecer isto.” A única equipa que me motivou no último ano foi o Farense do Rui Duarte: eu tinha estado com ele em Olhão e ele ligou-me e convenceu-me. O clube tem uma mística interessante com os adeptos e eu já tinha vivido no Algarve e tinha gostado. Mas depois perguntei-lhe se quando vínhamos jogar ao Norte podia ficar para estar com o meu filho, o Santiago. E ele disse-me: “Eh pá, o presidente não deixa.” E eu disse-lhe: “Esquece.” Tinha de voltar para o Algarve e depois vir outra vez para cima, ia-me rebentar todo. Foi este contexto que me levou a não querer continuar.

Lamenta nunca ter chegado a um clube grande da I Liga?
Se calhar fiz uma carreira muito melhor do que muita gente estava à espera. Agora, se em algum momento podia ter dado o salto para outros patamares? Claro, houve ali dois ou três anos em que podia ter acontecido, como na época da subida do Tondela [2013/14] ou depois de fazer 20 e tal golos na Holanda [no Zwolle, em 2007/08]. Mas não aconteceu e não sei explicar porquê.

Voltemos ao início. Como é que o futebol aparece na sua vida?
Era a nossa brincadeira. Tenho dois irmãos mais velhos, e o meu irmão do meio, o Vítor, já gostava muito na altura. Vivíamos no bairro Francisco Sá Carneiro, em Miranda do Corvo, e juntávamo-nos para jogar, 10, 12 rapazes, tínhamos um campo ao lado de minha casa, ou então na rua, fazíamos duas balizas. O meu pai depois levou-me à Lousã para treinar e comecei a jogar, nos infantis.

Essa obrigação dos treinos e de ser tudo mais a sério não lhe tirou o entusiasmo de jogar?
Era o que eu mais queria. Passei do Lousanense para a Académica, ia e vinha de comboio, era um sacrifício para mim, saía às 6h da tarde, ia para Coimbra e depois chegava a casa às 11h da noite, a minha mãe a fazer o jantar. Ela ficava doida porque eu dizia que queria ser jogador de futebol.

E obrigou-o a manter os estudos?
A minha mãe era professora, portanto… Ela tinha pesadelos quando sabia que eu não fazia as coisas como deve ser na escola, que foi quando comecei a ser chamado para a equipa sénior da Académica e era júnior. Mas nunca chumbei nenhum ano e entrei na faculdade.

Foi para Psicologia.
Sim, ainda fiz uma série de cadeiras, mas detestei o curso, Psicologia e Filosofia foram as únicas disciplinas que me motivaram. Eu sempre detestei a escola, não tenho vergonha de o dizer.

E o seu filho, gosta tanto da escola como de futebol?
Eu nunca o incentivei a nada. Mas de repente ele entra no primeiro ano e dá-me ideia que, por causa dos amigos, surge a paixão pelo futebol, e agora é louco por futebol. Mas acho que ele tem pouco talento para o futebol, e costumo dizer-lhe isso. Mas se ele quiser ir atrás disso, que vá [risos].

Perdeu o seu pai muito cedo [16 anos]. Fez-lhe falta ao longo da carreira?
Muita. O meu pai acompanhou-me sempre. O meu pai acreditava, a minha mãe não. O meu irmão era mais talentoso que eu, mas o meu pai dizia de mim: “Este vai lá chegar porque este quer muito.” E dói muito perder o pai tão cedo, porque além de pai era o meu melhor amigo.

E a sua mãe entretanto ficou convencida de que conseguia viver do futebol?
Convencidíssima. Mas sofreu muito.

Até com as ausências no estrangeiro?
Sim. Só deixei a minha família ir-se despedir de mim a primeira vez no aeroporto e foi remédio santo, nunca mais deixei, as despedidas são horríveis. Agora, se tiver de ir para algum lado é “beijinhos e até já”. A primeira vez que saio de casa, a minha mãe está na China numa viagem e liga-lhe o filho de 19 anos a dizer: “Vou para a Holanda, vou lá treinar à experiência.” E já não ouvi mais nada do outro lado, imagino que ela deva ter começado a chorar.

E como foi ir para lá sozinho?
Foi a melhor coisa que me aconteceu. Estava longe de tudo e tive de me desenrascar: nunca tinha vivido sozinho, nem tinha tomado conta de um budget mensal, aprendi que a louça não se lavava sozinha nem que a comida se fazia sozinha. Isso deu-me uma bagagem incrível para a vida, fez de mim homem.

Foi a sua melhor experiência no estrangeiro?
Em termos daquilo que são os números, do rendimento, foi inesquecível. Mas tive a sorte de viver em bons países, de fazer boas escolhas. Adorei viver na Bélgica [jogou no Mouscron em 2015/16] e na Suíça [no Servette, em 2009/10], não gostei da Bulgária [esteve no Lokomotiv Mezdra em 2008/09].

Porquê?
É um país muito pouco desenvolvido naquilo a que estamos habituados, o futebol está muito condicionado por coisas extra futebol. E o frio? A neve é muito bonita na televisão, mas quem tem de viver com ela diariamente é um tormento.

E depois regressou a Portugal. Era um objetivo?
Era. Mas foi uma estupidez. Porque isso foi sempre um erro a ambição de voltar a Portugal. Mas faz parte.

Isso deve-se a ter cá a família?
A minha mulher ficou sempre cá, ela trabalha e tem a sua independência, sempre achamos que não fazia sentido que ela abdicasse da sua vida para me acompanhar.

E as saudades?
A minha mulher ia lá alguns fins de semana, mas o facto de estares sempre sozinho é muito desgastante emocionalmente. E havia a ambição de querer jogar em Portugal, mostrar que era capaz de jogar cá, o que, como eu disse, foi um erro.

Como vai ser se no futuro, como treinador, for chamado para o estrangeiro?
Não tenho problemas, vai acontecer naturalmente, mas queria também poder levar a minha família. Tenho essa ambição de levar o meu filho a conhecer outras realidades, estudar noutras escolas, pode ser muito interessante para a vida dele. Mas não faço planos, não sei se é daqui a um, três ou a 10 anos. Este ano já houve abordagens, mas achei que para já não fazia sentido.

Quando era jogador referiu que o Milan era a sua equipa de sonho. E como treinador?
O Milan era por causa dos jogos, gostava das cores. E tenho uma paixão enorme pela liga italiana. Quando o Cristiano estava em Itália fui várias vezes vê-lo a Turim. E agora falta-me ir ver o Mourinho a Roma.

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