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Ex-bastonário dos Psicólogos e as Presidenciais: "Analistas ignoraram que a moderação podia vender"

Lucília Galha 16 de fevereiro de 2026 às 07:00

Esqueça a ideia de que há personalidades fortes e fracas, o caráter não é um "rótulo moral", esclarece Francisco Miranda Rodrigues. No livro "Mitos da Psicologia" desmonta esta e outras 15 ideias erradas sobre a mente.

"Se desejares muito, consegues", "ouvir Mozart torna-nos mais inteligentes", "quanto mais trabalhos de casa, melhor aprendizagem". Crescemos a ouvir estas coisas mas elas não são necessariamente verdade. Recentemente, na campanha eleitoral para as Presidenciais houve uma prova disso, aponta o psicólogo Francisco Miranda Rodrigues. "O resultado final surpreendeu porque revelou que a realidade é mais complexa do que a narrativa da 'personalidade forte ou fraca'", diz à SÁBADO. O antigo bastonário da Ordem dos Psicólogos compilou em livro os 16 principais mitos da Psicologia. Começou a fazê-lo quando ainda estava em funções, deixou o cargo em 2024, e considera que hoje (mais do que antes) é necessário saber o que a ciência diz realmente. "Porque a mentira circula mais depressa". 
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O que se entende por mitos da Psicologia? São ideias amplamente difundidas sobre o comportamento e os processos mentais que parecem científicas, mas não são. São narrativas simplificadas que ganham um estatuto de verdade por repetição, autoridade percebida e apelo emocional. Alguns nasceram de estudos mal interpretados, outros de extrapolações abusivas, outros ainda de pura tradição cultural. O problema não é existirem mitos, isso é inevitável, mas persistirem quando a evidência já os contrariou. Porque é que é tão fácil acreditarmos neles? Porque o nosso cérebro prefere a coerência à complexidade. Explicações simples reduzem a incerteza e dão uma sensação de controlo. Além disso, tendemos a confiar em informação repetida, partilhada por figuras que consideramos credíveis ou alinhada com aquilo em que já acreditamos. A Psicologia estuda precisamente estes mecanismos: viés de confirmação, heurística da disponibilidade, efeito de verdade ilusória. Não somos irracionais, somos humanos. As fake news são mais apelativas do que os factos? Atualmente, o maior problema não é o acesso à informação, é a arquitetura do ambiente informacional. As plataformas digitais privilegiam conteúdos que geram emoções, como a surpresa, raiva ou indignação. A ciência é cautelosa, probabilística e muitas vezes menos espetacular. Uma afirmação absoluta é cognitivamente mais simples e emocionalmente mais mobilizadora do que uma conclusão condicional. A mentira circula mais depressa porque é nova, emocional e não está limitada pela realidade. Por isso, sim, conteúdos simplificados ou distorcidos tendem a circular mais rapidamente do que explicações rigorosas. Acreditar nestes mitos pode ser perigoso? Em que medida? Depende do mito e do contexto. Alguns são relativamente inofensivos; outros podem influenciar decisões educativas, clínicas ou organizacionais com impacto real. Se acreditarmos, por exemplo, que as pessoas têm estilos fixos de aprendizagem, podemos limitar oportunidades. Se assumirmos que o stresse é sempre patológico, podemos patologizar a experiência humana normal. No caso do mito de que há pessoas com “personalidade forte” e outras com “personalidade fraca”. À primeira vista parece uma simples forma de falar. Mas pode ter consequências. Quais? Primeiro, transforma traços de personalidade em rótulos morais. Uma pessoa mais introvertida, mais prudente ou menos dominante pode ser classificada como “fraca”, quando na verdade tem um perfil diferente, não inferior. Segundo, cria profecias auto realizáveis. Se alguém interioriza que tem “personalidade fraca”, pode evitar desafios, liderança ou exposição pública, não por incapacidade real, mas por efeito do rótulo. Terceiro, no contexto organizacional, pode enviesar decisões de recrutamento e promoção. Confunde-se assertividade com competência, ou dominância com liderança eficaz. A evidência mostra que liderança eficaz associa-se a traços como conscienciosidade, estabilidade emocional e amabilidade – e não a uma caricatura de dominância ou “força”. Qual, de entre os 16 mitos elencados no livro, é aquele que mais o intriga? Intriga-me particularmente o mito de “se desejares muito, consegues”. Não porque a motivação não seja relevante (na verdade, é), mas porque esta versão simplificada transforma um fenómeno complexo numa promessa quase mágica. Intriga-me por três razões: primeiro, porque contém um grão de verdade que lhe dá credibilidade; segundo, porque é moralmente sedutor, responsabiliza totalmente o indivíduo e parece meritocrático; e depois, porque ignora contexto, recursos, desigualdades e acaso. É um mito que conforta, mas ao mesmo tempo pode ser cruel: quando o sucesso não acontece, a falha é interpretada como falta de vontade. Também cresceu a ouvir estes mitos? Qual o marcou mais? Claro. Cresci a ouvir que usamos apenas 10% do cérebro, que os opostos se atraem ou que a crise da meia-idade é inevitável. O dos 10% talvez seja o mais emblemático da minha juventude. É uma ideia poderosa porque sugere potencial oculto quase mágico. E é precisamente esse encanto que a torna resistente à evidência.
A ciência é cautelosa e muitas vezes menos espetacular. A mentira circula mais depressa porque é nova, emocional e não está limitada pela realidade.
Francisco Miranda Rodrigues, psicólogo

Cargo

Enquanto psicólogo, qual é o mito que mais encontra na prática? Talvez o mais enraizado seja o de que há personalidades “fortes” e “fracas”. Esta categorização é intuitiva, mas cientificamente pobre. A personalidade é um conjunto de traços distribuídos num contínuo, não um rótulo moral. Classificar pessoas dessa forma simplifica demasiado a complexidade humana e pode condicionar relações profissionais e pessoais. Este rótulo surge com enorme frequência no comentário público, sobretudo no desporto e na política. No desporto, é comum ouvir apreciações individuais corriqueiras que atribuem uma derrota à “falta de personalidade” de um atleta ou enaltecem a “personalidade fortíssima” de quem decide um jogo. O que é desempenho situacional transforma-se rapidamente em traço fixo de caráter. E na política? Na política, o fenómeno repete-se – e isso foi particularmente visível nas eleições presidenciais em Portugal. Ao longo da campanha, ouviu-se que este ou aquele candidato “tinha uma personalidade mais fraca”, enquanto outros eram apresentados como exemplos de “personalidade forte”, quase como se essa característica, por si só, determinasse liderança e probabilidade de vitória. Confundiu-se força com visibilidade, assertividade com competência e presença mediática com profundidade psicológica, e confundiu-se tudo isto com carisma. Já agora, carisma não é um traço é uma perceção social e relacional. É algo que nós atribuímos a alguém. Quais são as consequências disto? O que muitas análises ignoraram é que, em contextos eleitorais, a moderação pode vender - precisamente porque transmite previsibilidade, equilíbrio e segurança emocional. A investigação mostra que fatores como confiança percebida, proximidade, autenticidade e até simples agradabilidade (“gostar” do candidato) pesam de forma consistente nas decisões eleitorais. Estes elementos são frequentemente confundidos com “força” ou “fraqueza”, quando pertencem a dimensões psicológicas distintas. O resultado final surpreendeu porque revelou que a realidade é mais complexa do que a narrativa da “personalidade forte”. A psicologia da personalidade demonstra que não existem categorias dicotómicas de forte ou fraco; existem perfis de traços, e o desempenho eleitoral depende de múltiplos fatores (institucionais, contextuais e relacionais), não de um rótulo simplificado. Há pessoas mais suscetíveis a acreditar nestes mitos? A vulnerabilidade à desinformação atravessa níveis de escolaridade e estatuto social. O que sabemos é que contextos de elevada incerteza, ansiedade ou polarização aumentam a probabilidade de aderir a explicações simplificadas. A necessidade de pertença e identidade grupal também pesa. Não é uma questão de inteligência, mas de contexto cognitivo e emocional. A especialização também não elimina vieses. Pelo contrário, pode até reforçar a confiança numa crença, mesmo quando a evidência a contraria. Porque escreveu este livro? No contexto atual, marcado por crescente polarização, desconfiança nas instituições e circulação acelerada de opiniões não fundamentadas nas redes sociais e no espaço mediático, a substituição de evidência por achismos tem consequências concretas. Vemo-lo no debate sobre gestão, educação, saúde, liderança ou políticas públicas em geral, onde conceitos psicológicos são frequentemente usados de forma superficial ou instrumental. A degradação do debate público não é abstrata: traduz-se em decisões menos informadas e em maior fragilidade institucional. Quando decisões educativas, organizacionais ou políticas assentam em mitos, o custo é coletivo. Escrever este livro é, portanto, uma forma de contribuir para um espaço público mais exigente, mais informado e mais humanista – um humanismo baseado em evidência e não em convicções intuitivas. No fundo, encaro-o como um imperativo ético: se sabemos que algo não é sustentado pela ciência, temos a responsabilidade de dizê-lo com clareza. O que gostaria que as pessoas retirassem daqui? Gostaria que saíssem com mais perguntas do que certezas fáceis. Que desenvolvessem uma atitude crítica e competências de pensamento crítico, mas não cínica. Que percebessem que a Psicologia é uma ciência robusta, mas não mágica. E que distinguissem entre aquilo que é reconfortante ouvir e aquilo que é sustentado pela evidência.
Francisco Rodrigues explora mitos da psicologia e a ciência da mente Editora Manuscrito
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