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Entrevista

A última entrevista de Jorge Palma (1950-2026) à SÁBADO, na íntegra: "Nunca pensei estar vivo aos 72 anos, mas não penso na morte. O que é que se há de fazer?"

Gonçalo Correia 24 de setembro de 2026 às 18:27

Até hoje inédita em formato integral, a entrevista aconteceu em casa do músico, há três anos, a propósito da edição do último álbum de originais editado por Palma em vida.

"Ainda gostava de ter uns anos com qualidade de vida, pá. Não digo subir ao pico do Pico - isso já fiz. Há coisas que sei que já não vou fazer", confessava Jorge Palma, sentado no sofá da casa onde vivia "há 20 anos", a dado momento desta entrevista.

Falava-nos, então, de ter os pulmões "estragaditos", eram então a sua "parte fraca", confessava. Mas falava-nos também da alegria de ter gozado a vida, que naquele ano, 2023, no disco Vida - o último álbum de originais que viria a lançar -, celebrava e descrevia assim no tema Estróina:  

E já que a vida é para ser vivida
ao vivo e a cores
brindemos aos prazeres
sem falsos pudores

Jorge Palma viveu-a, ao vivo e a cores. Nesta conversa, que até hoje permanecia inédita neste formato integral, confessava, sobre ter chegado aos 72 anos (idade que tinha então) com saúde e energia, a fazer canções e a lançar álbuns: "Nunca pensei." Quando tinha 30 anos, "dizia que não queria viver para lá dos 50", lembrava. Só que "a opinião vai mudando", ria-se, "isto afinal vale a pena ficar mais uns tempos". Rematava: "Eu sou como o diz o Woody Allen: sou absolutamente contra a morte, pá. E não penso nisso. O que é que se há-de fazer?"

Jorge Palma morreu esta segunda-feira, 21 de setembro, depois de mais de 50 anos de atividade musical. Para a posteridade, deixou incontáveis canções em que . Nesta conversa, recordava métodos, experiências e histórias antigas e partilhava confissões, memórias e desejos futuros. Ei-lo em discurso direto.

Vida é uma canção de alguém que se divertiu à brava a viver?
Podes crer [risos].

É uma ode ao gozo de viver?
É, é. Tem sido uma vida muito curiosa, muito engraçada. Com fases menos boas, obviamente, não é? Mas no cômputo geral é francamente positiva.

Como é que foi construindo este disco, nos últimos anos?

Tinha gravado há 12 anos [2011] o Com Todo o Respeito. Em 2017, há seis anos, achei que se calhar era porreiro fazer um disco novo. Tinha acabado de escrever uma canção que é a e no espaço de um mês escrevi mais quatro - e cheguei a experimentar gravar com a banda, para ver como estava a soar. E depois, desde aí, todos os anos tive projetos, coisas trabalhosas, concertos, essas coisas todas... por um lado não senti necessidade, por outro lado de facto não tive muito tempo até ao ano passado [2022].

No ano passado [2022] disse: pronto, vamos a isto. Então, escrevi aquelas quatro canções. No meio disso tudo tinha escrito numa madrugada aqui em casa, sozinho na sala, com a viola na barriga... gravei no dictafone: [cantarola] "Viiiida". Só a primeira parte. Ficou no dictafone e esqueci-me que tinha aquilo, porque no dictafone tenho imensas ideias para canções. Só que nesse dia passei logo aos meus managers a canção, eles acharam porreiro e não se esqueceram. E o ano passado disseram: olha lá, não vais gravar aquela? Ah, ok... depois foi fácil completar a canção. E acabou por dar o nome ao álbum. Já tinha pensado em 40 mil nomes. Para quê? Ainda por cima tenho uma canção chamada Vida, e o disco vai acabar com Canção de vida, isto é vida por todo o lado...

As novas gerações estão tramadas. Nunca é demais chamar a atenção, mas cai em orelhas moucas.
Jorge Palma

Cargo

Num outro espectro, há aqui uma canção com mais sombras que é a . Canta versos como "considerámos cada migrante apenas mais um transtorno" e "criança cresce de arma na mão / criança cresce, ninguém lhe pede perdão". O que catalisou essa canção, lembra-se? Alguma notícia, algum episódio?

Não foi episódio nenhum em especial. Foram as notícias em geral, das alterações climatéricas às guerras. E resolvi, no refrão.... não gosto muito de usar a palavra mensagem, mas pronto, a ideia era referir-me ao estado das coisas a nível planetário. E os versos... faço uma coisa muitas vezes que é: faço citações de escritores, de livros e de filmes. Gosto muito de citar, quando vem a propósito. E comecei a construir uma melodia e harmonia e comecei a olhar para as lombadas dos livros... e vejo ali [olha para a estante] o Tristes Trópicos do [Claude] Lévi-Strauss, vejo o Kama Sutra e começo a brincar com as palavras de títulos de livros, com frases e não sei que mais. E foi assim que construí os versos.

Essa preocupação com o presente e com o planeta vê-se também, aí com humor à mistura, na .

Vi aquelas notícias que passam nos rodapés das televisões cá em baixo, vi só uma vez e achei piada… algo como: cientistas experimentam cultivar micro-plantas em terra lunar. Ou coisa assim. Nunca mais ouvi falar disso [risos], mas achei piada, pá. Plantas na lua? É porreiro [risos], vou fazer uma rockalhada a brincar com as plantas na lua. Lembrei-me logo quando fiz o refrão: estou a ouvir aqui a voz do Rui Reininho e já agora da Manuela Azevedo, os dois caem aqui que nem ginjas.

Pensa muito no futuro do mundo?

Não vale a pena, não penso muito... é o que se sabe. É o caminho que isto toma. E ninguém faz de facto nada de jeito para evitar a desgraça final.

Pensa-se mais nisso quando se tem filhos e netos?

Quando penso é mais por eles, porque a minha expectativa de vida não me parece que... [faz uma pausa] As novas gerações estão tramadas. E nunca é demais chamar a atenção, mas cai em orelhas moucas.

Tenho-me arriscado ao longo da vida em coisas muito estúpidas, loucuras. Tenho tido muita sorte.
Jorge Palma

Cargo

Na fala de um “cangalheiro”. Há uns anos, numa outra entrevista, disse-me que tinha desafiado a morte de uma forma completamente louca, ao longo da vida…

Tenho, tenho-me arriscado ao longo da vida em coisas muito… no fundo, estúpidas. Acrobacias, passar por cima de um capô de um carro a 200 à hora a ser agarrado pelos outros na outra janela - isto é uma das loucuras que já fiz. E os excessos... porque eu experimentei muita coisa ao longo da vida. Tenho tido muito sorte, ahn?

Estar vivo aos 72 anos, com saúde, com energia, a fazer canções e lançar álbuns…

Nunca pensei, nunca pensei.

Nalgumas fases anteriores da vida suspeitou que isso não fosse acontecer.

Aos 30 anos dizia que não queria viver para lá dos 50. A opinião vai mudando [risos]. Isto afinal vale a pena ficar mais uns tempos. Eu sou como o diz o Woody Allen: sou absolutamente contra a morte, pá. E não penso nisso. O que é que se há-de fazer?

Voltando à Estróina...

É uma caricatura, um personagem que pede dinheiro a toda a gente e não paga, é o “crava”, é o gajo que não leva o amor muito a sério. É um boneco.

Tem alguma relação com o seu passado, com alguma fase sua?

A beata na mão e o chinelo - a havaiana - no pé, isso condiz. Agora no aspeto de cravar dinheiro a toda a gente, não.

No fundo é uma pessoa não se querer sentir limitada. A liberdade é um valor fundamental para mim.
Jorge Palma

Cargo

"Onde quer que eu vá / vou de corpo inteiro", versos que canta neste disco, lembraram-me um verso da [segundo tema do disco ‘Té Já, que Jorge Palma editou em 1977] "A distância que existe entre o não ser e o ser é uma questão de não se ter medo de ir longe de mais".

Esse espírito mantém-se, mantém-se. Procuro manter esse espírito, sim. Já agora, que seja por coisas positivas. Mas... no fundo é uma pessoa não se querer sentir limitada, não é? A liberdade é um valor fundamental para mim.

Há pouco, falava também dessa liberdade, quando dizia que não tinha uma necessidade premente de fazer este disco…

Não tinha, não. Economicamente... o disco é um marco, é uma recordação, tem um significado que acho importante e que quero preservar. E tem uma função prática que é espoletar a procura, isto é, trazer concertos. Eu não tenho sentido necessidade de um disco para ter concertos. Porque se me sentisse com a corda na garganta, 'ah espera aí que não tenho trabalho', aí se calhar em 15 dias fazia um disco [risos]. Mas não foi o caso, foi com muita calma, com o espírito de “há de fazer-se”. Na primeira fase ficaram cinco músicas feitas em que achei que sim, que iam para a frente, mas 2017, 2018 e 2019 foram anos extremamente ocupados. Não só com trabalhos mas também com viagens, que eu gosto muito de viajar. Viagens de longo curso, transoceânicas.

Onde foi?

Agora em pouco mais de um ano foi Cuba, no princípio do ano passado [2022], depois Tanzânia - safari - e depois Zanzibar. No final do ano foi Paris mas isso já é... não é bem uma viagem, é uma visita.

Reencontrou velhos amigos em Paris?

De sempre, de sempre. Ainda há pessoal amigo vivo em Paris e não só, em Copenhaga, em Berlim. E este ano [2023] há pouco tempo estive agora três semanitas na Guiné-Bissau. Isso faz muito bem à cabeça.

Ainda há gente a continuar a tocar na rua, entre esses velhos amigos em Paris?

Há.

Desta última vez não foi com eles tocar?

Não. Desta vez nem levei guitarra. Às vezes levo quando vou. Tenho uma guitarra pequenina que é a Baby Taylor. Por exemplo, para a Colômbia levei-a e toquei. Mas já não faço o dinheiro que costumava fazer em Paris. Paris e Europa, onde quer que fosse, fazia-se dinheiro. Também se cantava muito durante o dia todo, mas fazia-se “taco”. Hoje em dia se calhar estou mais burguês, a roupa é um bocadinho melhor, não tenho o ar esfomeado [risos]. E não tenho uma pessoa... uma pessoa quando é mais nova tem mais graça, não é? [risos].

Abriram uma garrafa de champagne quando o disco ficou pronto, ouvi dizer.

Foi, foi o “Quim” Monte [Joaquim Monte] lá do [estúdio] Namouche, descobriu lá uma garrafinha de espumante. Estava o produtor, estava a parte da banda que trabalhou nesse dia. Mas a banda já tinha feito o trabalho todo, praticamente. Estava o meu filho Vicente, que tocou teclados e guitarras acústicas, nesse dia ainda meteu mais uns apontamentos.

O ano passado [2022] foi o ano em que eu disse: porra, vamos lá fazer as canções que faltam e fazer um disco, andar para a frente com isto. No final do ano passado já estava praticamente feito. Não queria já engonhar mais... andava há muito nisto, “adia, agora é para a semana, agora é para o ano”. Não, vamos lá fazer isto.

A 3 Palmas na Mão é a primeira música que gravo com os meus dois filhotes. Dá gozo.
Jorge Palma

Cargo

Temos de falar da 3 Palmas na Mão.

Essa é especial. Não é assim uma canção super hiper... é uma balada.

Meio Crosby, Stills & Nash, pareceu-me…

O que eu tinha em mente era o som dos CSN [Crosby, Stills & Nash]. É a primeira música que gravamos os três, eu e os meus dois filhotes [Jorge Palma, Vicente Palma e Francisco Palma]. Já a temos tocado ao vivo e o pessoal sente, é porreiro. Cada um com a sua guitarra, com a sua voz, dá gozo.

E dá-lhe gozo ver que eles têm um interesse semelhante pela música e pelas canções?

Qualquer um deles o tem. Um é profissionalíssimo há mais de 20 anos. O outro tem uma maneira muito própria de ir estudando: sabe 500 canções, sabe imenso e escreve e lê sobre música... Sabe muito mais [do que Jorge Palma] sobre a vida do Bob Dylan e inclusivamente sobre a obra do Bob Dylan - ou do Paul Simon, esse pessoal que não é suposto ser para a geração dele. A verdade é que sabe muito. E tem uma maneira muito curiosa de abordar a música. E está a seguir a minha experiência, coisa que o outro não fez. Isso tem a ver com os feitios, também. Para já tem feito isso: ir pela Europa fora, comboios, guitarra, tocar aqui, tocar ali. Agora esteve dois meses fora, Holanda, Alemanha, Itália, a tocar na rua. É uma escola do caraças. Faz bem à voz e faz bem à cabeça. Dá cabedal.

Sobre o Com Todo o Respeito, disco anterior, disse-me há uns anos: “Não acho que seja um disco muito brilhante comparado com outros. Mas tem canções porreiras."

Claro que tem de ter, se não tivesse não saía. Mas não é um dos discos de que mais me orgulho, não.

Considera este melhor?

Sem dúvida. Tem mais... não sei explicar muito bem porquê. Se me pusesse a meditar sobre isso, diria que tem muito mais vida [risos], é mais versátil, é mais variado. Não, este disco é francamente melhor do que o anterior.

(A dado momento, fala-se de um concerto de Jorge Palma no festival Às Vezes o Amor, em que teve como convidadas A Garota Não, Márcia e Marisa Liz. E Palma lembra outra colaboração recente, com Tatanka, vocalista dos The Black Mamba: “Apeteceu-me convidar o gajo, gosto muito dele”)

O Ary [dos Santos] tinha gozo em brilhar, em mostrar o que sabia. Foi a minha escola. 
Jorge Palma

Cargo

Há pessoas que gostariam de ter consigo uma relação parecida com a que o Jorge teve com o Ary dos Santos?

Há pessoas de quem gosto muito e que gostariam de se aproximar mais de mim e dos meus métodos. Só que eu não tenho métodos [ri-se], não tenho propriamente um método de escrita. É muito aleatório e às vezes caótico. A minha relação com o Ary foi de discípulo-mestre.

Não teve o mesmo com ninguém mais novo, agora no papel de mestre?

Não tenho muito feitio para... nunca gostei de dar aulas. Estou a falar de música. Não sei explicar como é que escrevo. É uma coisa muito intuitiva.

O Ary tinha esse feitio?

O Ary era uma pessoa aberta. Toda a gente era bem-vinda. E tinha gozo em brilhar, em mostrar o que sabia. A minha convivência com o Ary  foi a minha escola. Porque músicas minhas, em que ele tenha posto letras, gravadas foram duas. O período de aprendizagem foi a conviver com ele, a vê-lo escrever para outras pessoas, para o Carlos do Carmo, para a Tonicha, para a Simone de Oliveira, para toda a gente. A ver como ele funcionava, percebes? Do nada surgia uma coisa sem sentido, de repente já era um poema. Foi a vê-lo trabalhar que aprendi muito.

Poderia haver gente que beneficiasse dessa mesma experiência, vendo-o trabalhar a si.

Nesse aspeto sou o oposto do Ary: para escrever gosto de... Há duas situações em que me sinto bem a escrever. Uma é no meio da confusão, tipo sentado numa esplanada, cheio de barulho à volta e de pessoas a passar. Já escrevi canções porreiras nesse tipo de ambiente. Mas a maior parte das vezes é sozinho, absolutamente sozinho, sem ninguém a ouvir sequer o que estou a fazer. E só quando a coisa já está orientada é que posso começar a mostrar à minha mulher e às pessoas mais próximas. Acho que é um processo muito... é um processo solitário.

Além da sua banda, tem aqui vários músicos a participar no disco que são companheiros de longa data: Júlio Pereira, Rão Kyao…

Velhos guerreiros, sim. O Tomás Pimentel também é dos primórdios mas com esse tenho mantido uma relação musical, de palco, bastante constante. Com o Rão nunca mais tinha tocado desde o meu segundo álbum, de 1977. A gente vê-se quando se vê, bebe um copo e tal, é porreiro mas... ele também deixou de ser o saxofonista de jazz - brilhante - que era, entrou no mundo das flautas e daquela espiritualidade. Uma série de músicos conheci-os no Hot Clube. E depois no rock, também.

A conselho dos meus filhos, por exemplo, que têm idades muito diferentes - têm 12 anos de diferença - vou ouvindo coisas. Dizem-me: epá ouve isto, ouve aquilo. Pessoal novo. Por outro lado, nunca desisto de ouvir os velhos mestres. Também trabalhei neste disco com o Mário Barreiros, com quem já tinha trabalhado em 2004: quando decidi gravar o disco a que chamei Norte, a primeira vez que trabalhámos mesmo a sério foi nesse disco. E somos amigos. Lembrei-me de o convidar a produzir este. Há bocadinho falavas d’A Garota Não… gosto imenso dela. E à medida que vou conhecendo mais coisas, cada vez gosto mais. É uma pessoa fantástica.

Acho que herdei da minha mãe o gosto por viajar. Ela adorava, conheceu o mundo inteiro. Eu já viajei um bocado, também.
Jorge Palma

Cargo

O que lhe dá mais gozo fazer fora da música?

Viajar é uma dessas coisas. Conhecer sítios novos, revisitar locais e gentes. Acho que herdei isso da minha mãe, adorava viajar, conheceu o mundo inteiro. E eu já viajei um bocado, também. Acho que já pus o pé... da Austrália ao glaciar da Argentina, quase do pólo sul a Estocolmo. Agora tenho experimentado África, que era um continente a que não costumava ir - exceto Cabo Verde, tenho ido lá várias vezes tocar. Quando vou tocar assim a alguns sítios - Moçambique, também - arranjo sempre maneira de ficar lá. Se um gajo faz uma viagem de 10 horas, é bom arranjar calendário para poder ficar lá a curtir mais uns tempos.

Ler tenho fases, neste momento estou numa fase em que não leio um livro inteiro há muito tempo. Não me perguntes porquê. Sou capaz de passar horas a ver televisão, às vezes coisa sem interesse nenhum, tendo aqui livros... tinha de viver 10 mil anos para ler isto tudo que aqui tenho. Mas às vezes não leio um livro inteiro mas sei que ele existe, sei mais ou menos o que aborda e não sei quê. E não ler é uma estupidez, porque é das melhores coisas para estimular a criatividade e abrir a cabeça. Assim como ver filmes, peças de teatro, exposições.

Obrigado pela entrevista. E parabéns pelo disco.

[Sorri] Acho que está bom, pá.

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