As pequenas
e médias empresas portuguesas estão a acelerar a adoção de práticas de
sustentabilidade, mas continuam vulneráveis aos riscos das alterações
climáticas e à pressão crescente dos mercados. O alerta foi deixado pelos
especialistas reunidos no Centro de Congressos de Aveiro, durante o encontro que
juntou os distinguidos das quatro edições do SME EnterPRIZE – Prémio Europeu de
Sustentabilidade para PME.
Entre dados,
casos de sucesso e exemplos concretos, a mensagem foi unânime: a
sustentabilidade deixou de ser uma opção para se tornar um fator decisivo de
competitividade. Na abertura do evento, Nuno Megre, da área de Sustentabilidade
da Generali Tranquilidade, explicou que a iniciativa pretende ir além da
distinção das empresas mais avançadas. “Queremos muito dar reconhecimento às
PME que já têm práticas de sustentabilidade consolidadas, mas sobretudo trazer para
a sustentabilidade outras PME que não estão tão avançadas neste caminho.” O objetivo,
acrescentou, é “estimular o interesse e o debate sobre estas matérias”.
Portugal
acima da média
Nuno Megre
apresentou ainda os resultados de um estudo da Universidade Bocconi, realizado
junto de mais de 1.100 PME de 11 países europeus. Os dados mostram que 41% das
PME europeias possuem um plano de sustentabilidade, valor que sobe para 49% em Portugal.
“As nossas PME estão um bocadinho à frente da média europeia”, destacou.
O estudo
revela igualmente que as empresas reconhecem a sustentabilidade como um fator
de eficiência, gestão de risco e acesso ao financiamento. Contudo, identifica
uma fragilidade: embora 70% das PME admitam estar expostas aos riscos climáticos,
apenas 35% têm cobertura para eventos catastróficos. “Há aqui aquilo a que
chamamos um protection gap, uma lacuna de proteção”, alertou.
Há aqui aquilo a que chamamos uma lacuna de proteção.
Nuno Megre, da área de Sustentabilidade da Generali Tranquilidade.
1.900 candidaturas
em quatro edições
O balanço
das quatro edições do prémio esteve a cargo de Norma Franco, da EY Portugal, knowledge
partner da iniciativa. “Nos últimos quatro anos recebemos mais de 1.900
candidaturas. É de facto uma adesão extraordinária quando sabemos das
dificuldades e problemas que existem no ecossistema das PME nacionais”, afirmou.
A responsável destacou que, embora a maioria dos projetos continue centrada na
dimensão ambiental, cresce o número de iniciativas que conjugam preocupações
ambientais e sociais. Mas mais importante do que os números, defendeu, é a transformação
que estes projetos representam. “Falar de sustentabilidade dentro das
organizações é cada vez mais falar de criação de valor e resiliência do negócio.
Traduzindo por uma única palavra, é falar de competitividade”, afirmou a
responsável.
Falar de sustentabilidade dentro das
organizações é cada
vez mais falar de
criação de valor e
resiliência do negócio.
Norma Franco, partner da EY Portugal
Sustentabilidade
dá trabalho
A
intervenção mais incisiva da manhã coube a Alberto Castro, economista e
professor da Católica Porto Business School. Para este académico: “A
sustentabilidade é uma questão de negócio. Não é uma conversa lírica. É uma conversa
que se pode traduzir em números”, afirmou. O economista recordou que as
alterações climáticas já geram custos para as empresas e alertou que o maior
risco é adiar decisões. “Muitas empresas têm a tentação de procrastinar as
decisões sobre estes temas. O problema é que o mercado vai tratar do assunto. E
quando o mercado trata do assunto, trata de uma forma bruta”, afirmou.
Para Alberto
Castro, a sustentabilidade deve ocupar um lugar central na estratégia
empresarial. Ou seja: “A sustentabilidade não é um luxo. É preciso torná-la num
projeto central.” Reconhecendo que a transição exige investimento e competências,
deixou um último aviso: “Não vale a pena contar histórias de fadas. Isto dá trabalho.”
As três intervenções convergiram numa mesma ideia: a sustentabilidade tornou-se
um fator decisivo de competitividade.
Se as PME
portuguesas já estão acima da média europeia na adoção de planos de
sustentabilidade, continuam vulneráveis aos riscos climáticos. E se o crescente
número de candidaturas ao SME EnterPRIZE mostra que muitas empresas já
iniciaram esta transformação, a mensagem final foi clara: quem continuar a adiar
este caminho arrisca perder competitividade, clientes e capacidade de
crescimento.
A sustentabilidade
é uma questão
de negócio. Não é uma
conversa lírica.
Alberto Castro, economista e professor da Católica Porto Business School.
A sustentabilidade
é uma aventura
Viajar pelo
país da forma mais sustentável possível e mobilizar comunidades para a ação
climática. Foi desta ideia que nasceu a Viagem pelo Clima, projeto da Get2C vencedor
da quarta edição do SME EnterPRIZE. A iniciativa desafia três equipas a
percorrer vários municípios durante 12 dias, sendo avaliadas através de uma
“moeda clima”, que contabiliza emissões de CO2, consumo de água, custos, tempo
e impacto social.
Mas a
competição vai além da viagem. As equipas promovem ações junto das comunidades,
visitam pequenos negócios sustentáveis e dão visibilidade aos chamados “heróis
do clima”. Estas são “pessoas anónimas que normalmente não têm palco, mas que
são responsáveis por projetos nas suas comunidades”, explicou Maria João Ramos,
People Partner da Get2C.
A equipa
vencedora participa ainda na Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas
(COP), levando o projeto ao principal palco mundial da ação climática.
O saber
de uma vida ao serviço da comunidade
Como
transformar décadas de experiência na agricultura numa oportunidade para
pessoas mais vulneráveis? Foi esse o desafio que inspirou o Projeto TREVO –
Tratar, Revitalizar, Empoderar e Viver Origens, do Centro Social Vale do Homem,
distinguido com uma menção honrosa no SME EnterPRIZE.
Desenvolvido
em Vila Verde, no Minho, o projeto junta idosos, pessoas com deficiência e outros
públicos vulneráveis em atividades ligadas à agricultura sustentável e à
valorização do mundo rural.
A iniciativa
aproveita os conhecimentos dos séniores para transmitir competências a quem
procura novas oportunidades de integração. Segundo Marta Soares, gestora de
projetos da instituição, os séniores do Projeto TREVO têm “o saber da prática e
paciência da experiência”, explicou.
O objetivo
passa por preservar conhecimentos tradicionais, promover a inclusão social e
capacitar pessoas com deficiência para uma participação mais ativa na
comunidade, mostrando que a sustentabilidade não se faz apenas de preocupações
ambientais, mas também de oportunidades para as pessoas.
Combater
fugas sem partir paredes
Uma fuga de
água escondida pode significar o desperdício de milhares de litros, contas
muito elevadas e obras inesperadas. Foi para evitar esse cenário que nasceu a
Periplus, empresa distinguida com uma menção honrosa no SME EnterPRIZE.
Especializada
na deteção de roturas e fugas de água, a empresa utiliza tecnologias que
permitem localizar o problema sem destruir pavimentos ou paredes. Recorrendo a
ferramentas como termografia, eletroacústica e gás traçador, a Periplus
identifica com precisão o local da fuga, reduzindo custos, resíduos e tempo de
intervenção.
O impacto é
significativo numa realidade em que cerca de 27% da água distribuída em
Portugal é desperdiçada antes de chegar ao consumidor. Para Mariana Bandeira, da
Periplus, “cada fuga localizada representa mais do que uma reparação. É água
preservada, resíduos evitados, custos reduzidos e qualidade de vida protegida”,
conclui.
Candidaturas
abertas para a 5.ª edição do SME EnterPrize
Já estão
abertas as candidaturas à 5.ª edição do SME EnterPRIZE – Prémio Europeu de
Sustentabilidade para PME, promovido pela Generali Tranquilidade. A iniciativa
distingue pequenas e médias empresas que conciliam competitividade e
sustentabilidade, dando visibilidade a projetos com impacto ambiental e social
positivo.
Podem
candidatar-se PME a operar em Portugal que desenvolvam iniciativas ligadas à
redução de emissões, eficiência de recursos, reciclagem, economia circular ou
promoção do bem-estar dos colaboradores e das comunidades onde atuam.
Além de um
conjunto de produtos e serviços avaliados em mais de 20 mil euros, as PME
selecionadas beneficiarão de um plano de visibilidade mediática promovido pelo
Grupo Medialivre.