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Catarina Castro. Do Banco de Fomento para o do tribunal?

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Catarina Castro está a ser investigada por burla e abuso de confiança na sequência de uma denúncia por alegadamente se apropriar dos investimentos de vários clientes. É analista na SIC sobre temas económicos e financeiros e integrava até há pouco o Conselho Consultivo do Banco de Fomento.

"Fomos abordados por várias vezes pela drª Catarina Castro, nem queríamos fazer aquele investimentos. Mas houve bastante insistência. Além do mais, ela apresentava-se como agente vinculada do Banco Best para gestão de poupanças, enfim... cada um pôs cerca de 50 mil euros e tínhamos acompanhamento da empresa dela, a Great Search. Foi ela a dar todas as indicações: abrem conta aqui no Banco Best, explicam que será gerida por um agente vinculado do banco, e pronto” - Humberto Jardim, empresário madeirense do setor do vinho, explica o início do processo que a levou a apresentar queixa-crime por burla e abuso de confiança contra Catarina Castro, então membro do Conselho Consultivo do Banco de Fomento, comentadora na SIC sobre temas económico-financeiros e analista de mercados. Os outros queixosos são Sérgio Marques, ex-eurodeputado pelo PSD e ex-secretário regional no Governo Regional da Madeira, para os Assuntos Parlamentares e Europeus, e Sandro Freitas, fisioterapeuta e dono de uma clínica do ramo no Funchal. A queixa teve seguimento. A PGR confirmou à SÁBADO que “confirma-se a existência de inquérito” e o “este encontra-se em investigação, sendo o Ministério Público coadjuvado pela Polícia Judiciária”.

Catarina Castro investigada por burla e abuso de confiança
Catarina Castro investigada por burla e abuso de confiança Miguel Baltazar

O modus operandi, que é descrito na queixa apresentada ao MP no início de 2025, era simples. Catarina Castro pedia as passwords de acesso às contas para poder fazer diretamente as transações de investimento - os visados acharam normal, dado que estas eram realizadas numa plataforma disponibilizada pelo próprio banco. “Sempre confiei na senhora, nem acompanhava muito de perto a evolução do investimento na app do banco, e na fase inicial as coisas corriam bem, houve valorização do investimento”, recorda Sérgio Marques. O pior veio depois: a Great Search passou a optar por investimentos CFD (Contract for Difference), de natureza especulativa (e contrariando o perfil de investidor que o próprio banco tinha atribuídos aos clientes), e em que há sempre uma comissão cobrada sobre cada operação efetuada, quer o investimento/aplicação se traduza num lucro ou num prejuízo para o investidor. Ou seja, quando mais movimentos ou operações forem efetuados, mais o operador da plataforma ganha. Segundo a queixa, todas as operações nas contas dos queixosos são de tipo CFD e o número subiu exponencialmente, ao ponto de “comer” praticamente todo o capital investido. Por exemplo, na conta de Sérgio Marques, em junho e julho de 2022, havia que pagar 3.282,50 euros em comissões - quando a conta já só tinha €2.837,21. Tudo somado, Humberto Jardim perdeu €48.820,85, Sandro Freitas €49.475,51 e Sérgio Marques €48.574,16.

“Depois de muitas insistências, quis resgatar o investimento, comecei a insistir para que me fosse depositado o valor investido, mas aí entrou numa espiral de justificações para o impedir o resgate, e comecei a desconfiar. Percebi que estaria praticamente a zero”, aponta Sérgio Marques, depois de semanas sem conseguir respostas da agente vinculada do Best.

Marques, que já foi uma figura de primeira linha do PSD regional, adianta que conhece, para além do caso dos três madeirenses, “no continente, um conjunto de pessoas lesadas, pelo menos meia dúzia, de maior dimensão”. A SÁBADO falou com outra pessoa que se considera lesada por práticas alegadamente abusivas de Catarina Castro em valores substancialmente mais significativos, e que pediu para não ser identificado, que também pondera apresentar queixa.

Afastamentos discretos

A situação teve já outras consequências. O Banco de Fomento, cujo Conselho Consultivo integrava, e que respondeu à SÁBADO desconhecer a situação referida, deixou-a no entanto de fora no último elenco, publicado em Diário da República a 23 de março último. E a SÁBADO sabe que o ministro das Finanças, Miranda Sarmento, que tutela, o BdF, tentou pessoalmente obter informações mais detalhadas sobre o percurso de Catarina Castro e as acusações que lhe são apontadas.

De resto, Catarina Castro também integrou a SEDES (Associação para o Desenvolvimento Económico e Social), presidindo à SEDES-Madeira, e também acabou já dispensada desse posto.

A visada, através do seu advogado, respondeu à SÁBADO que “desconhece em absoluto a existência de qualquer processo-crime e nunca foi ouvida ou sequer notificada no âmbito de qualquer processo-crime”. E “não foi acusada de nada. Pode ter sido denunciada, o que é um direito de quem se considerar ofendido, mas quem tem poder de acusar é o Ministério Público e a nossa cliente nunca foi sequer ouvida”. Quanto ao conteúdo da denúncia, responde que “essas afirmações são falsas e se houver processo-crime a dra. Catarina Castro dará todas as explicações que sejam necessárias”.

O Banco Best, em resposta oficial, indicou apenas que “não tem conhecimento da queixa-crime referida, nem de qualquer outra apresentada por clientes a este respeito. Mais esclarece que, desde o início de 2024, não mantém qualquer relação de agente vinculado, quer com a entidade [a Great Search], quer com a pessoa referida”. No entanto, a SÁBADO apurou que existiu uma outra denúncia criminal que partiu do próprio Best, na sequência, indica fonte conhecedora do processo, “de alegações contraditórias no contexto de um processo cível que está pendente”.

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