Gira: porque pararam as bicicletas de Lisboa?
EMEL gastou mais de €4 milhões no último ano com a rede pública de mobilidade ciclável, mas as queixas amontoam-se: bicicletas estragadas, estações fechadas e aplicação ineficiente abrandam o projeto. EMEL culpa vandalismo, CML mantém-se em silêncio.
O fórum r/lisboa, sub-plataforma do portal digital Reddit, é lar da principal comunidade digital de utilizadores da rede de bicicletas públicas partilhadas da capital: lá são tiradas dúvidas, dadas dicas e, sobretudo, partilhadas frustrações sobre a Gira, gerida pela EMEL, a Empresa de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa.
"Nunca senti tanta frustração com um serviço como com a Gira", disse um utilizador há um mês, queixando-se de uma aplicação "péssima, bicicletas em mau estado" e "apoio ao cliente que demora uma eternidade". "Até quando esta app continuará a ser horrível?", pergunta outro, ao passo que um terceiro se queixa de que "nunca há bicicletas" e que "as que funcionam estão degradadas" – "já nem vou falar da aplicação porque é um degredo, como todos sabemos", remata.
Uma pesquisa por "Gira" na plataforma leva a centenas de publicações e comentários deste teor, que pintam um retrato pouco elogioso de um serviço utilizado diariamente por muitos lisboetas. Há reclamações relativas a bicicletas degradadas, com motores defeituosos, travões gastos e pneus furados, atendimento ineficaz, docas que não funcionam, estações fechadas e, sobretudo, uma aplicação que deixa muito a desejar, bloqueando regularmente, falhando em detetar a localização do utilizador (o que o impede de utilizar a bicicleta) e registando erros sistemáticos.
Os depoimentos, publicados anonimamente na plataforma, são corroborados pela MUBi, a Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta, que à SÁBADO diz que, nos "grupos de WhatsApp dos associados" da organização, este é um tema recorrente. "Recebemos muitas queixas de que a aplicação tem imensos problemas, os utilizadores muitas vezes tentam retirar a bicicleta e ela não sai", refere o representante da associação.
Já José Manuel Caetano, presidente da FPCUB - Federação Portuguesa de Cicloturistas e Utilizadores de Bicicleta, que diz prestar consultoria sobre mobilidade ciclável à EMEL, prefere enfatizar as virtudes do sistema. Conta que a federação recebe "montes de reclamações" mas vinca que a Gira é hoje um serviço essencial para a mobilidade suave na cidade: sem contar com os alugueres de velocípedes por turistas, diz, "sete em cada dez bicicletas a circular em Lisboa são Gira".
Por sua vez, a MUBi diz que os seus membros "recomendam a utilização das aplicações não-oficiais", referindo-se à mGira e à Gira+, alternativas desenvolvidas em regime open source que interagem com os servidores da EMEL para desbloquear bicicletas e que, segundo a associação, "funcionam melhor do que a original".
Em julho de 2025, Tiago Teles e Rodrigo Palmeirim, criadores da Gira+, disseram ao jornal Lisboa Para Pessoas (LPP) que a sua intenção era trabalhar com a EMEL para desenvolver uma melhor plataforma e que gostariam que "houvesse uma atitude mais colaborativa" por parte da empresa, considerando "muito aborrecido da parte da EMEL serem tão hostis" para com os programadores.
Ao mesmo órgão, a EMEL admitiu dificuldades na operação da aplicação, decorrentes do "número de bicicletas e estações" e do "crescimento de clientes utilizadores", e disse ter já investido numa nova aplicação, através de um concurso público, lançado em dezembro de 2024, para um contrato no valor de €1,5 milhões. Mais de um ano decorrido, os problemas mantêm-se.
Um investimento de 4 milhões de euros em 12 meses
Desde então, os investimentos da EMEL na Gira multiplicaram-se, com dezenas de contratos assinados com empresas privadas para melhorar o serviço público de bicicletas de Lisboa. Mas, para os utilizadores, o balanço estará ainda por apurar.
Do Base, portal de consulta de contratos públicos, constam 25 contratos ligados à GIRA, quase todos por concursos públicos, adjudicados pela EMEL a nove empresas, entre elas a Lightmobie, Edmtech, Castanheira & Castanheira, Stand Ciclomarca e Sociedade Ciclista Lusitana.
Esses contratos correspondem, sobretudo, a investimentos em "peças e componentes para as bicicletas", "serviços de reparação de componentes eletrónicos" e "serviços de manutenção corretiva extraordinária de bicicletas" e, todos somados, ascendem ao valor de quatro milhões de euros (mais exatamente, €4,105,832.74) nos últimos 12 meses. O ritmo do investimento parece estar a aumentar: em 2026, já foram gastos 2,1 milhões de euros (€2,113,469.82) em serviços deste tipo, 1,3 milhões (€1,341,524.16) dos quais nos últimos quatro meses.
Só no desenvolvimento da nova aplicação, além dos €1,5 milhões concursados em 2024, foram adjudicados €1,084 milhões às empresas Vaimoo e Resopre para "aquisição de solução informática para gestão, operação técnica e comercial do Sistema de Bicicletas Públicas Partilhadas" em setembro de 2025, num concurso limitado por prévia qualificação. O serviço foi contratado com prazo de execução de três anos.
Excluindo um total de 32 mil euros (€32,011.60), adjudicados à compra de "luvas de trabalho e calçado para os trabalhadores" da Gira, os restantes 2,99 milhões (€2,989,821.14) foram investidos na recuperação e manutenção de velocípedes públicos, não tendo sido suficientes, ainda assim, para estancar as queixas dos ciclistas lisboetas.
Em maio, a EMEL atribuiu a uma onda de vandalismo o estado de degradação de bicicletas, docas e estações, dizendo que tinha registado, até aquela altura, "272 atos de vandalismo que afetaram de forma severa 81 estações". Acrescentou que tem procedido "de forma sistemática à reposição do serviço, reabrindo as estações com a maior celeridade possível", mas referiu que se têm verificado situações de reincidência, garantindo estar a desenvolver "soluções técnicas", sem especificar quais.
À data da escrita deste artigo, pelo menos 34 estações Gira estavam desativadas por toda a cidade, com particular incidência nas zonas da Baixa, Avenida Almirante Reis e Penha de França.
EMEL culpa vandalismo e não define prazos
Em resposta às questões da SÁBADO, a EMEL conta que enfrenta "uma nova vaga de criminalidade mais agressiva, focada no arrombamento e na destruição deliberada de docas e estações", que responsabiliza pelos "constrangimentos sentidos pelos utilizadores". Concretizando em números, refere que, desde janeiro, registaram-se "700 atos de vandalismo" que destruíram 1.400 docas e retiraram temporariamente do sistema "mais de 1.000 bicicletas", o que, dizem, já representou um prejuízo de €3 milhões.
Para combater a onda de vandalismo, a empresa conta que tem participado "ocorrências junto das autoridades policiais", além de desenvolver "um trabalho de proximidade" com órgãos locais. Quanto às docas e estações, diz que, a "curto prazo", está a instalar "novos equipamentos mais robustos e resistentes ao arrombamento" e, a "médio prazo", está a implementar "um nível de segurança mecânico adicional para mitigar o furto de bicicletas".
Questionada sobre o valor dos contratos e o resultado prático do investimento, a EMEL respondeu que se destinam "a assegurar a manutenção regular e continuada da rede GIRA" e que, portanto, não estão "diretamente associados ao vandalismo" apesar de este representar "uma pressão excecional sobre esta capacidade operacional".
Quanto à concretização do investimento de mais de um milhão de euros na aplicação há quase um ano, a empresa responde que "está em desenvolvimento uma nova solução integrada de suporte à GIRA" – sem especificar quando chegará –, sendo a aplicação móvel "apenas uma das componentes visíveis desse ecossistema". Em relação às aplicações não-oficiais e a comparação do seu desempenho com a da EMEL, refere apenas que "não é justo comparar a simplicidade de uma interface de terceiros à gestão completa de um backoffice que permite o funcionamento integrado de toda a operação GIRA".
À Câmara Municipal de Lisboa, a SÁBADO perguntou que avaliação faz do atual estado de funcionamento da GIRA, que diligências tomou para combater o vandalismo do sistema e qual o resultado prático do investimento de mais de €4 milhões na melhoria da plataforma. Até ao momento, não obtivemos resposta.