Se a humildade cósmica aparece no coração humano de 100 em 100 anos, estamos bem tramados.
Há um gesto de humildade neste pescoço virado para cima, gesto repetido no esternocleidomastóideo de milhões de pessoas no dia 12 de agosto, dia do eclipse anunciado com a exatidão que só a ciência consegue. Um movimento do pescoço que levanta o olhar não para um avião de passageiros ou para um avião de guerra, ou para foguetes muitíssimo ruidosos e pindéricos produzidos pela quase humana dinamite, mas movimento de pescoço que levanta o olhar para esses astros que estão sempre por aqui, a Lua e o Sol. Admiramos a sua posição raríssima neste eclipse, como se esses astros estivessem a executar uma qualquer performance apreciada. Seria um bom motivo de reflexão, aliás, este fascínio pelo raro, pelo acontecimento de 100 em 100 anos, e este quase desprezo pelo que se repete diariamente: o pôr do sol, por exemplo, que é por si mesmo um espetáculo. Não se trata de comparar belezas, já que não há calculadora algébrica que quantifique as coisas estéticas. Há mais beleza num eclipse do que num pôr do sol? Talvez sim, talvez não. O que há seguramente é muito maior raridade no eclipse do que num pôr do sol. Não foi só uma questão estética, foi, acima de tudo, a questão da raridade. Uma vez na vida conseguimos ver um eclipse no nosso país e uma vez na vida morreremos, poderia dizer um cínico. Aquilo que só acontece uma vez na vida é evidentemente valioso, por si só. Não se trata de beleza, mas de importância. O raro é importante.
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