O Brasil mostrou que não é inevitável que o algoritmo favoreça a extrema-direita, desde que se saiba montar um "Exército Digital" em sinal contrário. O povo ainda pode ordenar, por muito que a desinformação tenha passado a ser um dado incontornável. Nada está escrito nas estrelas, ainda que, por vezes, pareça.
Lula ganhou contra quase todas as expectativas (mesmo dele?) e isso desmonta as teses fatalistas sobre uma suposta inevitabilidade da extrema-direita estar destinada a vencer tudo o que aí vem. Sim, os radicais estão a subir, os moderados a enfraquecer. Mas não, isto não é um movimento linear. Também não o foi na Sérvia, onde o amigo de Putin, Vucic, foi amplamente derrotado pela surpreendente Lista de Estudantes, movimento cívico iniciado após o desabamento do teto de uma estação do comboios em Novi Sad e que em dois anos e meio se tornou em força política maioritária -- sem líder assumido nem sequer candidato a chefe do governo. A mão de Putin no Leste da Europa voltou a ser travada, meses depois da queda brutal de Orbán em Budapeste. Voltando ao Brasil: a "virada" de Lula do primeiro para o segundo turno (mais 11 milhões de votos em três semanas) vai entrar para a história dos grandes feitos eleitorais nas democracias ocidentais. Da apatia passou-se para a mobilização -- e terá contado, à última hora, a memória do que aconteceu a 8 de janeiro de 2023, no ataque aos três poderes de Brasília. Enquanto ainda houver Democracia, o povo continua a ser quem mais ordena. Assim o continue a querer.
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