Notícia

Raquel Ochoa

As mortes mais cartoonadas da história

27.01.2015 15:38 por Raquel Ochoa
É exactamente a pensada crueldade que nos deixa atónitos, diz Raquel Ochoa
Foto: Sábado

Além de todos os valores que foram atacados, feridos e mutilados, pensem que se perderam os mais respeitados cartoonistas de França, para fazer uma comparação, por exemplo, imaginem um actor de quem muita gente gosta, para dizer o nome de um falecido, o Raul Solnado, e que este tinha sido morto em palco, quando dizia umas piadas sobre o Islão. Atingiram o âmago, o âmago do riso.

É duro.

O que se passou ontem, dia 7 de Janeiro, marcará o ano inteiro e provavelmente a próxima década. Nada parece inocente, perdoem-me a estupidez de me atrever a trazer esta palavra à colação. Tudo pensado ao pormenor para ferir mais que a própria bala, mais que a perda humana. E é exactamente a pensada crueldade que nos deixa atónitos.

Estou em Paris há 15 dias e já tanto se escreveu e se vai escrever sobre Charlie Hebdo que tudo o que posso fazer, para não repetir alguém, é dizer como vi e ouvi, nesse dia, a cidade.

Encontro-me em frente à Gare do Nord na avenida La Fayette, artéria muito movimentada, portanto o 10.º bairro de Paris. O sucedido foi a 10 quarteirões daqui, no décimo primeiro.

pub

Estava a postos para começar a escrever (levantei-me tarde) e nem 11h seriam quando começou uma sinfonia de sirenes que cheguei a pensar se não me deveria preocupar, pois poderia estar a cidade a arder. Sirenes de bombeiros são uma constante numa metrópole, mas quando se trata de algo mais grave têm outro timbre, mais nervoso, porque fazem orquestra – partiram deste bairro bombeiros, polícias e mais não sei quantos carros sem identificação que para abrir passagem carregavam nas buzinas auxiliadas pelas sirenes.

Curioso que no mundo de hoje, se temos um computador ou um smartphone, temos tudo, e apesar de aparentemente ter à minha volta uma cidade a arder, porque não abri nenhumsite de notícias ou o próprio mural do Facebook, não me apercebi de nada até que surgiu no ecrã a mensagem de uma pessoa do outro lado da cidade a dizer-me que aparentemente havia um problema nesta zona.

As notícias veiculavam 10 mortes e que os atiradores andavam a monte, não tive vontade nenhuma de sair de casa, preguei-me às notícias. Devagar, muito devagarinho, eu e toda a gente fomos acordando para o insólito deste horror – é assim o estado de choque. Lá fora, pessoas entravam e saíam de uma das maiores estações do país, o trânsito fluía, as bicicletas, raras porque estava muito frio, seguiam a sua marcha. Dali a umas três horas, a única diferença foi a bandeira francesa da fachada da Gare du Nord, a meia haste, a revelar que a nação enfrentava já o luto.

pub

Nas redes sociais francesas (e nas outras também) não se falava de outra coisa. Na rua nada, silêncio. Obviamente foi conversa de café, mas os franceses pareciam quase querer ignorar. Falo-vos do primeiro impacto. Porém, com o passar do dia percebi que não. Lidavam com a dignidade que a situação exigia, e isso, estás-lhes no sangue, demonstrava-se com uma certa superioridade e descrição, aqui não há lugar para a paranóia.

Não quer dizer que os ânimos não se inflamassem em todo o lado. Falo com uma amiga que me diz ter vindo num autocarro onde não se falava de outra coisa. Alguém disse a frase "proibida" nestes dias: "Eles andavam a pôr-se a jeito."

Transtornada, conta-me que a discussão aqueceu e os intervenientes começaram à pancada em plena viagem.

No lado oposto da cidade, desloquei-me à primeira manifestação na Place de la République. As pessoas juntaram-se sem saber o que dizer. Silêncio. Incomodou tanto porque era tão sentido. O que havia a dizer afinal? Começaram a trazer-se lápis, canetas que juntaram no chão em roda dos nomes escritos a tinta. Começou a chegar mais gente. A praça já estava cheia às 18h, uma hora depois da hora marcada. "Je suis Charlie" era um autocolante recorrente colado à roupa, nas costas e no lado esquerdo do peito. Vieram algumas rosas e alguns cartazes. A noite caiu e começaram a distribuir-se velas. Umas acendiam as outras. E silêncio. A praça ficou a abarrotar de gente, por volta das 20h. Disseram-se muitas palavras de ordem, finalmente.

Extravasou-se um pouco da dor. Mas continuou a haver a dignidade do silêncio. Porque, na verdade, ninguém queria de livre vontade acreditar que aquilo tinha acontecido naquela manhã, ali mesmo.

pub

Nessa noite fui jantar a um restaurante junto às galerias La Fayette. A cidade vivia a sua vida, tudo aparentemente normal.

Exceptuando o súbito novo significado que se atribuía às sirenes que passavam constantemente – nunca se sabe o que lá vem, o que aconteceu.

Conversas de café. A televisão continua a disparar todas as opiniões e comentários. As pessoas jantam, conversam, riem. Estão tristes. Mas jantam, conversam, riem.

Há quem diga que conhece um comandante da polícia que lhe disse que recebem ameaças e vídeos todos os dias. Que obviamente a polícia não divulga, nem cede à tentação de levar a sério.

pub

Ao mesmo tempo há quem pergunte como era possível estarem só dois polícias a proteger uma redacção sistematicamente ameaçada? É assim que a República protege a tão prezada liberdade de expressão? Será a liberdade de expressão um valor da democracia assim tão prezado?

Uma coisa é certa, estas hão-de ser as mortes mais cartoonadas da história, a seguir a Jesus Cristo.

E continuar a rir é, por estes dias, como os parisienses mostram nas suas conversas de bistrot, o melhor sinónimo da liberdade.

***

pub

Raquel Ochoa é escritora e está em Paris a escrever o seu novo romance. Ganhou em 2009 o Prémio Agustina Bessa-Luís. 


pub
pub