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Paula Cordeiro Especialista em comunicação
21.07.2026

O clique insustentável

A responsabilidade do scroll infinito é nossa mas, na verdade, não apenas nossa. Pela primeira vez, um regulador afirma que o vício não é fraqueza do utilizador, é arquitetura do produto.

Já ninguém sabe esperar nada de mãos vazias. Na fila do café, na sala de espera, no semáforo: ao primeiro segundo morto, pegamos no telemóvel como quem respira. Normalizámos o consumo excessivo, primeiro de bens e serviços, agora de conteúdos. Há sempre alguma coisa a preencher o vazio, o cérebro não tem descanso. A responsabilidade desta vulnerabilidade nunca foi apenas nossa. Tal como não é nossa a responsabilidade de reciclar cada garrafa de plástico: são as empresas que precisam de encontrar formas de produção amigas do ambiente. A cada consumidor cabe fazer boas escolhas em função do que está disponível, ao preço que pode pagar. E, para que a maioria possa pagar, o preço tem de baixar. Para baixar, baixam-se os critérios, todos, incluindo os de proteção ambiental.

Voltemos ao outro óbvio que nos tem escapado. A responsabilidade do scroll infinito é nossa mas, na verdade, não apenas nossa. Pela primeira vez, um regulador afirma que o vício não é fraqueza do utilizador, é arquitetura do produto. A 10 de julho, a Comissão Europeia concluiu, a título preliminar, que a Meta violou o Regulamento dos Serviços Digitais devido ao design viciante do Instagram e do Facebook. Dois anos de investigação para provar o que já se sabia. Em causa estão o scroll infinito, a reprodução automática, as notificações e as recomendações altamente personalizadas. Funcionalidades que, escreve Bruxelas, põem o cérebro em piloto automático. A Meta pode recorrer, mas é cada vez mais difícil tapar o sol com a peneira.

Na mesma semana, a Meta descontinuou uma funcionalidade de IA lançada dias antes, que permitia gerar imagens a partir de qualquer conta pública do Instagram. Como já aconteceu, o consentimento como detalhe técnico não pode suplantar o princípio.

Contudo, a mesma tecnologia serve outra intenção. A aplicação Guia-NOS usa a câmara e a inteligência artificial para descrever a quem não vê objetos, pessoas, textos, cores e expressões faciais. Empresta o olhar a quem precisa, no mesmo mundo em que milhões de olhos estão viciados num ecrã. Este vício tem consequências documentadas na primeira geração que nasceu com smartphones: no sono, na ansiedade, no bem-estar. E é essa geração que, lentamente, começa a fazer outras escolhas. Telefones que servem para telefonar, música sem algoritmo. A geração Z recuperou também o iPod, descontinuado em 2022: carregar músicas à mão, sem anúncios, sem feeds, sem notificações; nas escolas que baniram smartphones, iPod é agora um discreto substituto. Ainda não tenos uma revolução. Mas é um clique cada vez mais sustentável.

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