Insustentável: o pôr do sol também se vende
A pressão do excesso, da aparente importância em captar a imagem perfeita, ou mostrar que se esteve no mesmo local que milhões de outras pessoas é real.
Há uma canção dos Pulp que descreve uma cena simples. Uma pessoa compra um bilhete para ver um fenómeno natural, que a natureza oferece todos os dias, de graça, há milhões de anos, e descobre que alguém encontrou forma de o cobrar. Mais à frente, a mesma voz vai ver as auroras boreais e fica desiludida: estavam pálidas, fracas, não correspondiam ao que prometia a publicidade. É então que percebe a primeira regra da economia: pessoas infelizes gastam mais.
Desafiaram-me a ouvir esta música para pensar a relação entre tecnologia e consumo, e eu lembrei-me, de imediato, da indústria da beleza e do turismo, no Instagram. Ou sobre como o Instagram mudou a forma como estas indústrias se relacionam connosco. Ou terão sido as indústrias a mudar o Instagram? Nunca saberemos mas sabemos que há uma inter-relação porque também sabemos que as redes sociais são uma montra permanente de rostos corrigidos, corpos editados, peles sem um poro à vista, num padrão tão repetido que deixámos de o questionar. A insatisfação como negócio.
Aqui a canção descreve quase literalmente o que está a acontecer no turismo: compramos o bilhete a pensar na imagem. E quando lá chegamos, a realidade raramente está à altura do filtro. A pressão do excesso, da aparente importância em captar a imagem perfeita, ou mostrar que se esteve no mesmo local que milhões de outras pessoas é real. A própria indústria começa a admitir que o problema não é falta de turistas, é a concentração em poucos lugares, sempre os mesmos, os que apareceram primeiro numa fotografia. Novamente, o Instagram.
A ligação entre a beleza e o turismo é a mesma que liga os versos desta canção: a imagem perfeita gera desejo, o desejo gera viagem ou compra, a experiência real nunca está à altura, e essa desilusão, em vez de nos afastar, prende-nos ainda mais ao ciclo seguinte.
A canção termina como começou, com a vontade de ensinar o mundo a cantar, sem ter voz para conseguir fazê-lo. Também nós, muitos de nós, sentimos ter perdido a voz na cacofonia em que se transformaram as redes sociais digitais, como será exemplo, o Instagram. Na letra, os Pulp revelam a vontade de comprar tempo para o mundo, embora o tempo não se compre. É talvez a frase mais impactante porque sabemos que o problema não se resolve com dinheiro, mas é dinheiro que nos oferecem como solução, vezes sem conta. Será que devemos pagar para ver a aurora boreal ou para parecer mais bonitos numa fotografia? Vale mesmo a pena subscrever aplicações que nos alteram a aparência? Ainda sabemos aceitar e viver com a pessoa que (realmente) somos e aparentamos ser? Ainda sabemos olhar para o que temos à nossa frente sem perguntar primeiro quanto custa, e quanto nos falta, para chegarmos lá? Mais insustentável do que isto, não sei se há. A canção dos Pulp chama-se ‘a sunset’.
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