Austrália e a velha história da insustentável limitação
O algoritmo não consegue detectar todos os jovens menores de 16 anos e muitos continuam a usar estas redes; outros usam a partir das contas dos pais e, pasme-se, alguns mentiram na idade. Quem diria? A Dinamarca vai seguir e França anunciou que vai avançar no mesmo sentido.
Uma coisa é controlar quem entra num bar. Outra, quem se regista, para usar, uma rede social. E se, num bar os bilhetes de identidade falsos são uma realidade, imaginemos o que se pode fazer para adulterar a nossa identidade, online. Bem vindos ao presente, a distopia do futuro.
Imaginem que deram muita liberdade a um filho. Habituou-se a uma certa independência e autonomia, a fazer o que lhe apetece, quando e como lhe apetece. De repente, percebem que perderam o controlo da situação e querem voltar atrás, impor uma certa autoridade parental. Conseguem? Com alguma dificuldade, talvez. Depende da relação que têm com esse filho, da idade, de… muitos aspectos. É mais ou menos isto que está a acontecer em relação às redes sociais digitais, com a Austrália a liderar o movimento de restrição, limitando o acesso dos jovens menores de 16 anos a estas plataformas (Facebook, Instagram, TikTok, YouTube, Snapchat, X, Reddit, Threads, Kick e Twitch) e desactivando contas. Sobre isto, todos os pais deveriam recordar o que faziam quando estavam impedidos de fazer o que quer que fosse, mais ou menos sério, mais ou menos importante e eu tenho, para mim, que quem toma estas decisões esquece-se ou prefere viver numa agradável inocência que lhe permite acreditar que “vai tudo ficar bem”. Lamentavelmente, não vai, porque estamos a chorar sobre leite derramado e a única forma de resolver a situação em que nos encontramos é limpando o chão. Sem paliativos, sem medo, com medidas eficazes como esta que, infelizmente, se revela pouco eficaz: o algoritmo não consegue detectar todos os jovens menores de 16 anos e muitos continuam a usar estas redes; outros usam a partir das contas dos pais e, pasme-se, alguns mentiram na idade. Quem diria? A Dinamarca vai seguir e França anunciou que vai avançar no mesmo sentido.
A Austrália decidiu, também, obrigar as empresas de tecnologia a implementar sistemas de verificação da identidade, os quais, sabemos, levantam inúmeras questões de fiabilidade e privacidade pelo que a questão persiste: como resolver este problema, global, da enorme influência destas plataformas, no quotidiano de todos nós? Acabando com elas? Pode ser mas, depois, levanta-se outro problema porque muitos destes jovens cresceram num contexto em que obtêm as notícias nas plataformas digitais, aprendem e informam-se nestas redes. Vamos ensiná-los que antes da redes existiam sites e que, antes disso, podíamos comprar o jornal, ligar a rádio e ver televisão? Até nós, mais velhos, preferimos as redes, dizem todos os relatórios de consumo de media. A que preço e que informação? Esta será, talvez, a grande questão porque, como qualquer ferramenta, as redes sociais digitais são, na sua essência, neutras. A definição algorítmica que distribui o conteúdo, o tipo de conteúdo e os diferentes perfis de criadores de conteúdo, serão os aspectos que precisam, de facto de verificação e controlo. São verificados? Não. Podem ser verificados? Mais ou menos.
Os órgãos de comunicação social têm, desde sempre, conotações. Podem ser políticas, económicas, ideológicas. Veladas mas não ignoradas ou escondidas. Há um rosto, ou vários, há transparência na sua propriedade que nos pode dar pistas sobre eventuais interesses mas há, sobretudo, um conjunto de obrigações a que estão sujeitos e um código deontológico que nos garante isenção, objectividade e, sobretudo, verdade, no jornalismo.
O digital veio ampliar a voz da comunicação social mas também criou um abismo no qual o conteúdo produz um eco difícil de discernir. São criadores, influenciadores, o cidadão comum, opiniões, divagações… demasiado ruído que não permite garantir que o que estamos a ver, é verdade. E, por isso, sempre a mesma ideia: literacia. Porque um jovem que contacta com uma agência de notícias global, um órgão de comunicação social de serviço público, nacional ou internacional, jornais, revistas, canais de televisão ou rádio de referência no seu país, bem como organizações não governamentais, ou instituições reconhecidas internacionalmente, se comparar a informação que estas fontes veiculam é capaz de acabar o dia informado. Ao passo que outras fontes que pululam nas redes, suja origem desconhecemos, que parecem órgãos de comunicação social, mimetizam o grafismo da comunicação social, criadores de conteúdo duvidosos ou que expressam, de forma extrema, ideias e opiniões, podem prejudicar a noção de informação. Um jovem com capacidade crítica, que tenha noção do conceito de bolha de filtro vai saber o que fazer para confrontar ideias e opinião. O grande problema é o crescente número de jovens, e menos jovens, que desconhecem os modos de funcionamento e agenciamento da sociedade algorítmica em que nos encontramos e a forma como esta contribui, largamente, para anular o contraditório, limitando-nos a visão do mundo e a amplitude do pensamento, filtrando esse mesmo mundo ao limite da porta lá de casa. Já nem saímos do prédio, não vamos ao vim da rua, ficamos no sofá, entre aquilo que já sabemos e o que querem que pensemos que conhecemos. Insustentável.
Austrália e a velha história da insustentável limitação
O algoritmo não consegue detectar todos os jovens menores de 16 anos e muitos continuam a usar estas redes; outros usam a partir das contas dos pais e, pasme-se, alguns mentiram na idade. Quem diria? A Dinamarca vai seguir e França anunciou que vai avançar no mesmo sentido.
Insustentável desinformação e a vitória de nada ou ninguém
A informação é poder. E esse poder deriva do conhecimento que temos sobre os factos
Este contexto é insustentável. Qual?
O mundo mudou e, com ele, o contexto da comunicação social, agora ausente dessa responsabilidade em apresentar os temas sobre os quais refletir.
Uma certa e insustentável inocência
As redes estão preparadas para alavancar o óbvio: emoção, contradição, discussão. O que nos provoca raiva ou indignação ganha uma força que a mesma história, contada de outra forma, não consegue alcançar. E, por isso, se queremos, realmente, fazer por mudar, o digital ajuda mas não chega.
Ano novo, vida nova… insustentável?
Preocupa-me a forma como nos abstraímos da realidade: tudo contribui para um ritmo insustentável.
Edições do Dia
Boas leituras!