A insustentável responsabilidade de quem controla o mundo
O mundo virado, literalmente, do avesso e as redes sociais repletas de memes e piadas ao que está a acontecer. Faz-me lembrar um meme que diz que ‘a terapia ajuda mas fazer piadas com todas as desgraças que acontecem também é muito eficiente’.
Parece que adoptamos a estratégia de rir para não chorar porque é mesmo preocupante o que estamos a enfrentar, sobretudo porque a maior parte de nós não compreende como começou, o que se está a passar e como vai acabar. Eu também não. Parece-me que estamos perante uma guerra de Egos e poder, sabendo-se que, no contexto moderno, quem controla a economia controla o mundo. E, ainda que não seja óbvio, a guerra é, sobretudo, económica.
Há um bom par de anos, um filme de Hollywood contava uma história que poderá, muito bem, ser a inspiração para o presente. Perante um escândalo sexual do presidente e a poucas semanas das eleições, o governo dos E.U.A. contrata um cineasta para filmar uma guerra. Leram bem. Criaram uma aparente guerra com a Albânia, porque o nome lhes pareceu improvável e poucos saberiam, sequer, da existência desse país. Além das filmagens, a estratégia incluiu uma astuciosa manobra de relações públicas para convencer a opinião pública de que nada mais importava além da defesa da pátria. O filme, apesar de não ser uma obra-prima, é uma sátira excelente ao presente. Vinte e nove anos depois, irá perdurar por outros tantos. No filme, a guerra é encenada como se fosse um filme, com imagens fabricadas, canções patrióticas, heróis improvisados e palavras-chave emotivas para ocupar o espaço mediático e moldar a opinião pública. A gestão da atenção tem um paralelo preocupante com o presente, e outros casos, ao longo destes quase trinta anos. Lembram-se de George W. Bush?
Hoje em dia, com as plataformas digitais, o tempo e atenção que lhes dedicamos, inteligência artificial que produz conteúdo ao nível de filmes de Hollywood, mais as fake news e deepfakes, o efeito Wag the Dog é literal, com campanhas políticas que vão além das manobras de propaganda e contra-propaganda que fizeram a história do mundo. As campanhas modernas assentam em influenciadores, hashtags, trending topics e vídeos que se tornam virais para desviar a atenção de questões ou escândalos políticos, escândalos económicos, conflitos ou crises externas, com o mesmo objectivo de mudar temporariamente o foco e manipular a opinião pública. O controlo da agenda mediática molda percepções porque, entre o facto e o que pensamos sobre esse facto, este tende a assumir-se como verdade. Uma mentira contada muitas vezes torna-se verdade. É um princípio da propaganda e da psicologia social, atribuído a Joseph Goebbels, ministro da propaganda da Alemanha Nazi. Sabemos, por isso, que, se a história é convincente e amplamente difundida, muitas pessoas aceitam a narrativa como real, mesmo sem provas concretas. A repetição cria familiaridade e confiamos mais no que nos soa familiar, confundindo a familiaridade criada pela repetição com a verdade. Ora, no contexto actual, não faltam motivos para inventar uma guerra seja com quem for, especialmente se entre esses dois países a tensão for real, facilitando assim a percepção.
É curioso que, perante a implosão dos líderes deste mundo resultado, como em Wag the Dog, de um escândalo sexual, os E.U.A. tome a decisão de atacar o Irão, despoletando não a granada mas a bomba relógio a que chamamos Médio Oriente e que, também sabemos, é uma designação que resulta de uma percepção criada no Ocidente, com a qual muitos países dessa zona do mundo nem se revêm. Será que, como no filme, estamos a assistir a uma profecia? Que hoje, como ontem, tudo é sobre quem controla a narrativa, quem define o que é real e até que ponto estamos dispostos a acreditar numa boa história, desde que seja bem contada? O que é facto é que já morreram pessoas porque, ao contrário do filme, esta é mesmo a insustentável vida real.
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Edições do Dia
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