O ponto de viragem laboral
Há momentos que quebram um governo. Por vezes logo. Noutras, há um clique que não permite as coisas voltarem a ser como dantes. Por vezes são casos. Noutras, são políticas. O pacote laboral poderá ser justamente esse momento para a AD.
O Governo calculou mal as suas opções. Não percebeu que a sua omissão do programa eleitoral, num contexto de maioria reforçada mas ainda muito relativa, seria visto como cobardia. Tampouco percebeu que nem entre os seus colhe o estafado discurso ideológico de como as pessoas hoje querem é ser precárias. Essa banha da cobra foi vendida em 2012 e nos anos seguintes e a muito poucos passou despercebida a sua fina ironia.
Apenas o deslumbre poderia permitir a um político astuto como Luís Montenegro ignorar os poderosos Trabalhadores Sociais-Democratas, que estiveram na linha da frente para denunciar esta iniciativa e convocar uma greve geral. Apenas uma prolongada distração justifica que tenha deixado a sua Ministra do Trabalho não responder aos parceiros sociais durante 5 meses, ao mesmo tempo que dizia que não abdicava das “traves mestras” do pacote, tudo enquanto ameaçava mandar o mesmo para o Parlamento sem qualquer alteração se não houver acordo.
Também é possível que o chefe do Governo tenha entendido tudo isso e, ainda assim, pretendesse passar entre os pingos da chuva, como sugere o Observador. Incerto sobre a duração do seu consulado, Montenegro quis assim cumprir um ritual dos governos de Direita e conceder o favor a algumas empresas amigas. Para cumprir esse objetivo, para quê negociar? O pacote ficará menos a jeito e, de qualquer modo, pouco jeito dá que se fala muito do assunto. Até para distrair os partidos e os comentadores, o Governo abriu o jogo com um ataque vil às famílias e, em especial, às mães que amamentam, permitindo-lhe agora recuar em matérias que jamais entrariam numa proposta séria de revisão do Código do Trabalho.
A greve geral, convocada em conjunto pelas duas centrais sindicais, veio estragar os planos ao Governo. Assim será mesmo que pouca gente vá à rua no dia 11 de dezembro. Ao contrário do que acontecia no tempo do PREC, a força de uma causa já não se mede pelo tamanho da sua manifestação. Todavia, um pouco por todo o país, de local de trabalho em local de trabalho, as pessoas sussurram e comentam os impactos que esta legislação pode ter– atrasar o sonho da maternidade ou da casa própria, trabalhar mais horas e quem sabe ao fim-de-semana, o risco de ser substituído por uma empresa de outsourcing.
As alterações que mais preocupação estão a causar aos portugueses, a par do alargamento da contratação a termo certo, é a liberalização do despedimento. O artigo 53.º da Constituição da República Portuguesa proíbe os despedimentos sem justa causa. Ao longo do tempo, as razões pelas quais permitimos um despedimento foram evoluindo bem como o valorda indemnização. Quem ainda assim achasse pouco poderia ainda tentar um despedimento por mútuo acordo. O que jamais foi admissível foi fazer um processo disciplinar contra um trabalhador que se quer dispensar sem apresentar provas por escrito, nem permitir à “defesa” contrapor com testemunhas. Contestar que isto seja “assim tão mau” remetendo os trabalhadores para a litigância judicial pode ser um bom negócio para os advogados mas é um mau serviço à Justiça que, neste como em tantas áreas, tarda a chegar.
De igual modo, é bastante assustador para muitos pensar na restrição generalizada à reintegração dos trabalhadores. Afinal, mesmo que ganhem a longa e batalha judicial para conseguirem ser reintegrados, agora o empregador na generalidade dos casos pode opor-se à reintegração. Isso sucede mesmo que o empregador mais próximo se encontre a várias dezenas de quilómetros.
Estes exemplos simples do que faz o pacote laboral permitem a quem se lhe quer opor um caminho simples para o senso comum do homem e da mulher que trabalham. Não é que o mercado de trabalho não se esteja a transformar mas que o tipo de políticas que temos de desenhar é oposta àquela que o Governo agora apresenta – com mais estabilidade, mais inovação e maior valor acrescentado nos nossos empregos. Por isso arrisco a dizer: ou muito me engano, ou será desta que o estado de graça deste Governo vai quebrar.
A verdade dos números da imigração
Tanto em 2020 como em 2025, o INE fez grandes correções às suas estimativas anteriores, aumentando retrospetivamente o crescimento de praticamente todos os anos.
Um fundo sem fundo
Mais que a incoerência, a questão central é financiar o quê e como. Portugal ainda tem uma dívida elevada e tanto Bruxelas como o Banco de Portugal preveem que o Governo vá incumprir os limites de despesa já no próximo ano.
Isto não é um Estado
Desde um pacote laboral antiquado até à Prestação Social Única, este será um dos Governos mais ideológico desde o PREC. Infelizmente, à ideologia, soma-se a incompetência.
Será uma recessão inevitável?
Apesar de estarmos em situação de pleno emprego e de grande escassez de oferta, não haverá capacidade de rever salários e contratos para compensar plenamente os efeitos da inflação.
Turismo: onde param os ovos de ouro?
É preciso sermos sinceros. Os anos loucos do turismo português acabaram. No 1.º trimestre, as dormidas e os hóspedes cresceram apenas 1,3 e 1,5%. Os proveitos cresceram 5,5%, o que impressiona os mais distraídos, não fosse ser necessário descontar a inflação e o crescimento do número de hóspedes.