Secções
Entrar
Miguel Costa Matos Economista e deputado do PS
03.06.2025

O Parlamento Invisível

O bloqueio mais relevante, contudo, reside na própria estrutura do funcionamento parlamentar: como cada partido tem muito poucas oportunidades de agendamento em plenário, os temas menos mediáticos ficam, como é natural, para trás.

Tomo hoje posse para a minha quarta legislatura — a quarta em menos de seis anos. A maioria das pessoas associa o trabalho de um deputado às trocas de ideias no plenário, aos debates na televisão ou aos soundbites nas redes sociais. Mas há uma função essencial da nossa democracia que permanece quase invisível: legislar.

Há leis que ganham a sua visibilidade própria. Vi-o em primeira mão com o Direito ao Esquecimento ou a Lei de Bases do Clima ou a moratória à mineração em mar profundo. Mas todas as semanas há diversas iniciativas debatidas e votadas sem que os visados, quanto mais os interessados, tenham sequer conhecimento. É verdade que, na especialidade, os projetos de lei são sujeitos a audições e pedidos de parecer. Mas esse diálogo tende a ficar confinado às direções das entidades ou associações consultadas, deixando a maioria dos cidadãos de fora.

Talvez não surpreenda que um Parlamento que nem se organiza para estar aberto diariamente a visitantes sem marcação prévia — como acontece em tantos países — não tenha reinventado a sua comunicação para informar e envolver quem queira participar no processo legislativo. É o país que perde – não apenas na frustração de um ideal de democracia ou das vontades dos cidadãos mas na própria qualidade das leis que produzimos.

O que ninguém fala, porém, é das leis que não produzimos. É certo que, em alguns aspetos, "há leis a mais", como tantas vezes ouço dizer. Mas noutros casos, mesmo com necessidades identificadas e consensos formados, o Parlamento é incapaz de legislar. A instabilidade política dos últimos anos ajuda a explicar. É impensável que os partidos não possam convencionar retomar processos que estavam em curso, tendo de os recomeçar do zero. A isto acresce a escassez de apoio técnico e legístico, muito inferior ao que existe noutros órgãos legislativos, em Portugal e lá fora.

O bloqueio mais relevante, contudo, reside na própria estrutura do funcionamento parlamentar: como cada partido tem muito poucas oportunidades de agendamento em plenário, os temas menos mediáticos ficam, como é natural, para trás.

A lei do Voluntariado tem 27 anos e a principal estrutura representativa do setor já propôs alterações importantes. O regime jurídico das instituições de crédito e sociedades financeiras também já teve uma proposta de revisão do Banco de Portugal que continua numa qualquer gaveta do Ministério das Finanças. A atualização da Lei de Enquadramento Orçamental arrasta-se há anos, enquanto a necessidade identificada pela Inspeção-Geral das Finanças de dotar as subvenções públicas de um enquadramento legal mais robusto não obteve qualquer resposta por parte da Assembleia da República.

Em alguns casos, mais do que novidades, procura-se condensar legislação avulsa, como no prometido Código Eleitoral. Noutros, como no caso do Conselho da Ação Climática, bastam pequenos aprimoramentos à lei para que se desbloqueie um impasse e algo passe a funcionar.

Tudo isto são matérias que não enchem os olhos dos partidos, das televisões ou até da opinião pública. São, porventura, menos urgentes do que a crise na habitação, os baixos salários, a falta de professores ou as dificuldades crónicas do SNS. Mas o país não se faz apenas disso. E os deputados não deviam reger-se apenas pelo apetite dos soundbytes ou pela oportunidade de fazer o próximo vídeo viral.

Agora é tempo de exigir mais ao próprio Parlamento. Já aqui escrevi sobre a necessidade de termos melhor avaliação de políticas públicas e de podermos escolhê-las com base num mesmo critério orçamental. Não podemos ficar por aqui. O país precisa de melhores leis. Para tal, precisamos de um Parlamento mais aberto, capaz e ágil a cumprir uma das suas funções primordiais - legislar. Afinal de contas, é para isso que fomos eleitos. Porque é no progresso que as leis devem trazer que mora a promessa de uma democracia.

Mais crónicas do autor
16 de junho de 2026 às 07:10

Isto não é um Estado

Desde um pacote laboral antiquado até à Prestação Social Única, este será um dos Governos mais ideológico desde o PREC. Infelizmente, à ideologia, soma-se a incompetência.

10 de junho de 2026 às 08:00

Será uma recessão inevitável?

Apesar de estarmos em situação de pleno emprego e de grande escassez de oferta, não haverá capacidade de rever salários e contratos para compensar plenamente os efeitos da inflação.

02 de junho de 2026 às 09:12

Turismo: onde param os ovos de ouro?

É preciso sermos sinceros. Os anos loucos do turismo português acabaram. No 1.º trimestre, as dormidas e os hóspedes cresceram apenas 1,3 e 1,5%. Os proveitos cresceram 5,5%, o que impressiona os mais distraídos, não fosse ser necessário descontar a inflação e o crescimento do número de hóspedes.

26 de maio de 2026 às 11:41

Quem salva quem salva?

A Ministra acha que resolve o problema impedindo de prestar serviços quem saiu do SNS nos últimos 2 anos de ser tarefeiro. A função fica então reservada a quem acumule o trabalho à hora com um horário completo e mais um número mínimo de horas extraordinárias.

19 de maio de 2026 às 07:00

E assim se partiu o vaso

Como em Portugal e muitos outros países, a política britânica fragmentou-se. No caso, não só se regista a ascensão da extrema-direita e o crescimento dos partidos nacionalistas no País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte, como mais recentemente, o surgimento dos Verdes, pela esquerda do Labour. Isto desafia um sistema eleitoral com círculos uninominais, que favorece fortemente o bipartidarismo e o voto útil.

Mostrar mais crónicas