Desta vez é mesmo diferente
As sondagens apontam para uma espécie de montanha-russa de preferências eleitorais. No espaço de poucos meses, aquilo que parecia um fait accompli para Gouveia e Melo e, depois, para Marques Mendes, tornou-se um penoso martírio para ambos.
Estas eleições presidenciais serão históricas. Não só por se antecipar serem as primeiras com uma segunda volta desde 1986, mas também pela sua imprevisibilidade. Pela primeira vez em 50 anos de democracia, os principais protagonistas não são só aqueles apoiados pelos partidos tradicionais. Talvez também uma primeira vez, não há um nome óbvio e irrefutável pré-qualificado para a segunda volta. Em ’86, apesar da “primária” à esquerda entre Soares, Zenha e Pintassilgo, a direita tinha Freitas do Amaral. 40 anos depois, tanto a direita como a esquerda estão fragmentados.
Estes factos são reveladores de uma crise no nosso sistema partidário. As bases eleitorais dos maiores partidos já não estão tão fidelizadas, e quando vão além das suas bases, os partidos não conseguem mobilizar, aglutinar e unir como antigamente. Isso começou a ver-se, tanto na mudança de ciclo em ’24 como na sua reconfirmação em ’25, quando o PS tombou até onde tombou e a AD não engrossou significativamente a sua votação. O CHEGA parecia ter-se tornado na “válvula de escape” do sistema, instituindo um novel tripartidarismo em Portugal. Afinal, talvez não.
Apesar da natureza diferente das eleições presidenciais, o sucesso de Cotrim revela que outras forças partidárias podem, no contexto certo, almejar competir com “os grandes”. Isso é um desafio muito aliciante para os pequenos partidos, mas uma responsabilidade muito pesada para os três grandes que não podem esperar que os eleitores estejam no bolso e o poder lhes caia no colo – vão ter de fazer mais para defender e expandir a sua base eleitoral.
A crise não é só dos partidos, também é das lideranças. Ao contrário do que é habitual, os candidatos do PS e PSD não exercem funções governativas há mais de 20 anos e nunca foram candidatos a primeiro-ministro. Não por vontade própria, é certo, mas isso é um crédito para eles. Não só porque significa que, não obstante isso, conseguiram manter relevância política, como também porque não sofreram o desgaste que essas funções acarretam.
Isso revela que os portugueses reconhecem, hoje menos que nunca, o “valor da experiência”. Se a experiência for mesmo algo importante, como acho que é, designadamente para aperfeiçoar e filtrar lideranças, significa também que devemos procurar que a política preserve, valorize e retenha líderes. Sob pena de excluir uns e esgotar outros. Como se um bom dirigente político pudesse ser descartável.
As sondagens apontam para uma espécie de montanha-russa de preferências eleitorais. No espaço de poucos meses, aquilo que parecia um fait accompli para Gouveia e Melo e, depois, para Marques Mendes, tornou-se um penoso martírio para ambos. Essa é a prova de que, em política, não há verdades absolutas nem definitivas. De que ninguém é predestinado e que as campanhas fazem a diferença. Mais que isso, demonstra que não há nem uma rejeição da política à antiga nem a prova de hegemonia da nova.
Os insurgentes Seguro e Cotrim têm, eles próprios, esses dois perfis muito distintos. A graça e assertividade de um, especialmente nas redes sociais, contrasta com a segurança e tranquilidade do outro, que aparece mais nos meios clássicos como nas televisões. A verdade é que, mais do que uma diferença nos métodos, eles representam, respetivamente, as duas pulsões atuais da política portuguesa – a vertigem pela novidade e o apego à estabilidade.
Já Gouveia e Melo e Mendes perderam-se na perceção dos interesses, na arrogância que cheira a desespero e no comentário fácil e, logo, por vezes contraditório, ao que acontece todos os dias. Ao Almirante, porque aprofundou as dúvidas sobre quem é e o que pensa. Ao conselheiro de Estado, porque cimentou a suspeita de que não tem real independência do Governo. Em ambos os casos, porque parecem fracos, enquanto Seguro e Cotrim parecem fortes.
A força, a coragem, a autenticidade, a clareza e a determinação são as virtudes cardeais da nossa época política, como já escrevi aqui várias vezes. É, por isso, que um político hoje deve ter a tranquilidade de ser, apenas e exatamente, quem é e como é. Mais do que se adaptar ao que achamos que os eleitores querem, a política, para ser apelativa e regeneradora, tem de ser verdadeira. Tem de regressar à nobreza dos princípios e dos valores e focar-se em convencer as pessoas dos rumos em que acreditamos.
Depois das três eleições legislativas dos últimos 4 anos, as eleições presidenciais são apenas o último episódio do deslaçar do nosso paradigma político. É um tempo fértil para oportunismos, mas também um tempo perigoso, onde a muitos (e até aos bons) levam-nos o vento. É um tempo que será necessariamente de mudança. Restará aos portugueses escolher qual. De um lado, a fúria do vendaval, em tons mais autoritários ou mais liberais, cada vez mais próximos nos apoios que ponderam dar e nas posições que tomam. Do outro, a capacidade de escutar e ser escutado, de unir pessoas com muitas diferenças políticas em torno da esperança e de um desígnio comum que é Portugal.
Num tempo em que o barulho tenta abafar a razão, precisamos de quem saiba escutar e unir. O futuro não se constrói com indignação permanente, mas com ambição partilhada. O próximo Presidente não deve ser o herói de uma fação. Deve ser o rosto de um país inteiro que ainda acredita que vale a pena construir em conjunto. Também por isso, desta vez poderá mesmo ser diferente.
Desta vez é mesmo diferente
As sondagens apontam para uma espécie de montanha-russa de preferências eleitorais. No espaço de poucos meses, aquilo que parecia um fait accompli para Gouveia e Melo e, depois, para Marques Mendes, tornou-se um penoso martírio para ambos.
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