Corrupção de género
Bater nos mais frágeis é a melhor maneira de continuar a engordar os mais criminosos.
Estou longe de ser um perito em identidade ou disforia de género, mas está visto que isso não impede ninguém de proclamar opinião sobre o assunto – e muito menos de legislar sobre ele. Foi o que fez o Parlamento ao aprovar na generalidade as propostas do Chega, PSD e CDS sobre o tema. Temos de nos ir habituando a este guião: o Chega apresentou o primeiro projeto, dando o tiro de partida numa guerra cultural postiça montada nas costas de algumas das pessoas mais vulneráveis da sociedade. PSD e CDS, a reboque, juntaram-se depois ao esforço, cozinhando um acordo para que as três propostas fossem aprovadas em primeira votação, com os votos dos três partidos – no caso do PSD, impondo a “disciplina de voto” a um grupo parlamentar de inúteis cordeirinhos obedientes.
Vale a pena ler a dúzia de pareceres técnicos enviados por organizações científicas e centenas de peritos, disponíveis no site do Parlamento. A unanimidade é total: “retrocesso” é a palavra mais usada para sintetizar os três projetos de lei, preparados sem ouvir especialistas (muito menos as comunidades afetadas), ignorando ou frontalmente contrariando o consenso científico internacional. Tudo para, na melhor das hipóteses, estigmatizar como doentes mentais pessoas que não o são e, na pior das hipóteses, proibir médicos de prestarem os melhores cuidados aos seus doentes. Para quem tanto diz defender a família e o indivíduo, impor-se às decisões livres de indivíduos e famílias e intrometer o Estado na relação entre médico e paciente diz tudo sobre a hipocrisia que preside às iniciativas aprovadas.
Mas este processo legislativo não é só um exercício de ignorância arrogante ou uma campanha de falso moralismo para marcar pontos à custa de populações vulneráveis. Ele marca uma aliança tática previsível entre os setores mais extremistas da sociedade e a velha elite organizadora da grande corrupção. O tema tem origem nesses grandes combatentes pela integridade – o Chega dos pederastas e dos bandidos banais, presidido por Ventura, conhecido consultor de esquemas de batota fiscal para contribuintes de bolsos fundos. A mãe espiritual desta aberração é a obscura militante Maria Helena Costa, uma zelota evangélica com teorias da conspiração publicadas sobre o tema e que tem como autoridade moral no assunto ser uma mãe que odeia o próprio filho, a ponto de querer fazer desse seu ódio o padrão moral da nação, imposto pela força da lei.
Do lado da AD, quem abraçou a causa com mais ardor e entusiasmo foi Paulo Núncio, do CDS, que agitou bandeiras contra o “wokismo” e apresentou, em entrevistas e artigos de jornal, a sua posição como moderada, sensata e assente na ciência. Não é nenhuma dessas coisas, como demonstram, um por um, os
pareceres técnicos entregues ao Parlamento. Mas é (e é só isso que pretende ser) uma excelente manobra de diversão de um partido tornado irrelevante pelo eleitorado, mas que mantém uma agenda febril de facilitador de negócios.
Paulo Núncio anda a exibir a sua beatice de plástico em defesa da violência legislativa contra as minorias das minorias, mas ele não é um histérico, como Maria Helena Costa. É um consultor da rapina, como André Ventura. Núncio fez carreira como advogado de Direito Fiscal no poderoso escritório Morais Leitão. Passou também pela Garrigues, onde serviu uma filial da Petróleos da Venezuela instalada no offshore da Madeira, numa altura em que a empresa canalizava dinheiro sujo para o buraco do BES, pouco antes da derrocada final do banco. Saiu da Garrigues para o Governo de Passos Coelho, como secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, onde se notabilizou pelo famoso apagão fiscal, em que mais de 10 mil milhões de euros em transferências bancárias para offshores desapareceram da base de dados do Fisco, entre 2011 e 2014. O apagão passou anos sem ser detetado (só viria a sê-lo em 2017, já no Governo Costa), porque Paulo Núncio deixou de publicar a informação estatística necessária, mantendo os pedidos de publicação da Autoridade Tributária anos na gaveta, enquanto os portugueses engoliam o “brutal aumento de impostos” do tempo da Troika.
Uma semana depois de ter votado triunfalmente os projetos de lei sobre identidade de género, lá estava ele no local onde sempre foi feliz, uma conferência no Funchal em defesa do offshore da Madeira, onde disse que a fábrica de empresas-fachada sempre cumpriu as regras europeias – uma mentira objetiva que as instituições europeias já ditaram e confirmaram. Paulo Núncio mente descontraidamente sobre offshores, como mente sobre “ideologia de género”, porque é um expedito com uma carreira: montar esquemas de fuga ao fisco e de circulação de dinheiro (limpo ou sujo, tanto faz) como advogado, e vir defendê-los e protegê-los como político. É a sua profissão.
Sempre houve uma elite corruptiva a ganhar a vida facilitando e agilizando a rapina dos bens públicos – e produzindo as narrativas necessárias para perpetuar o saque. Nos tempos em que Paulo Núncio esteve no Governo, a narrativa era “não há alternativa”: resgates multimilionários para os milionários e a arraia-miúda a pagar. Tinha de ser. A fúria de um povo abandonado à sua sorte, em Portugal e um pouco por todo o mundo, gerou uma onda de populismo que obrigou a atualizar a narrativa e procurar novos inimigos para distrair os deserdados. Aí estão eles: quando não são os imigrantes, são os “wokistas” da “ideologia de género”.
A mesma elite corrupta que alimentou durante décadas o centrão dos negócios alia-se agora ao radicalismo religioso ou “cultural”, montando uma nova narrativa que permita manter a carburar a máquina do esbulho. Inventam-se novos bodes expiatórios, de braço dado com os alucinados das falanges evangélicas, para que tudo fique na mesma. Estamos a entrar na fase violenta desta cultura de rapina, em que se fabricam danos colaterais no Parlamento para que, nas fábricas de offshores, o negócio continue de vento em popa. É por isso que vemos na mesma fileira a Leninha Taralhouca do Chega e o refinado Paulo Abrenúncio do CDS. Uns são os idiotas úteis, os outros são os vendilhões do templo. Tudo bons cristãos.
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