O encoberto do Irão
A ocultação do Líder Supremo Mojtaba Khamenei está condenada ao fracasso devido à cultura político-religiosa do xiismo, à sofisticação da sociedade persa, e à relevância das minorias étnicas no Irão.
Já se tinham passado nove anos sobre a morte do mulá Omar quando foram divulgadas, pela primeira vez, em Novembro de 2022, imagens dos líderes Taliban rezando ante o seu túmulo algures na província de Zabul, no sul do Afeganistão.
O clérigo, fundador do movimento Taliban – os pashtuns afegãos devotos estudiosos e seguidores do Islão – tinha morrido, vítima de tuberculose, em Abril de 2013 num hospital de Carachi, no Paquistão.
Muhammad Omar Mujahed fora consagrado como Líder dos Crentes, em Abril de 1996, ao envergar o Sagrado Manto do Profeta, a relíquia de Maomé da Mesquita Kherqa-ye Sharif, em Kandahar, meses antes dos islamistas sunitas conquistarem Cabul, em Setembro.
O derrube do Emirato, após os ataques norte-americanos em retaliação pelo apoio dos Taliban à Al Qaeda, de Osama bin Laden, em 2001, relegara, uma vez mais, o mulá Omar à resistência clandestina.
Só muito depois da reconquista do poder, em Agosto de 2021, a liderança Taliban admitiria, em Abril de 2015, a morte de Omar, e a eleição de Akhtar Mansur à frente do movimento, uma chefia efémera a que pôs fim um drone norte-americano, sucedendo-lhe Hibatullah Akhundzada em 2016.
Nos anos de ocultação do Emir Omar ganharam relevo as suas mensagens por ocasião das festividades do Eid al-Fitr, no final do Ramadão, que, pelo seu teor genérico, afiançavam a linha estratégia dos Taliban.
A ocultação de Omar foi essencial para as diversas facções Taliban obviarem a que divergências políticas debilitassem o movimento e obstassem à convergência numa frente unida de pashtun no combate contra a República Islâmica dos presidentes Hamid Karzai e Ashraf Ghani.
Os Taliban reconquistaram assim o poder impondo-se a outros grupos pashtuns e a milícias uzbeques, tadjiques, hazaras ou turcomanas.
A ocultação do Líder Supremo do Irão Mojtaba Khamenei procura, aparentemente, valer-se de idêntico artifício, mas está condenada ao fracasso devido à cultura político-religiosa do xiismo, à sofisticação da sociedade persa, bem como pela relevância das minorias étnicas, sobretudo curdos, azeris, turcomanos e árabes.
Carente de credenciais religiosas como Aiatolá, contestado como sucessor dinástico de Ali Khamenei numa República Islâmica, Mojtaba foi eleito, aos 56 anos, Líder Supremo pela Assembleia dos Peritos – os 88 clérigos a quem incumbe à escolha e supervisão do detentor do principal cargo do regime – no início de Março deste ano e não é visto, nem ouvido, desde então.
O bombardeamento de 28 de Fevereiro, em Teerão, que custou a vida ao seu pai, mulher e outros familiares terá causado a Mojtaba ferimentos graves, mas não incapacitantes, na coluna e num joelho, sendo que o Líder Supremo se encontra presentemente em recuperação e na plenitude de funções, segundo declarações oficiais.
Declarações de índole genérica têm vindo a ser atribuídas a Mojtaba, em regra em consonância com a presumível linha estratégia dos Guardas Revolucinários liderados por Ahmad Vahidi, principal centro de poder próximo do Líder Supremo.
A recusa em permitir que as reservas de urânio enriquecido do Irão sejam transferidas para outros países no âmbito de um eventual acordo de paz é, precisamente, uma das declarações de princípio, de cunho estratégico, atribuídas a que assumiu particular relevo esta semana.
A ocultação de Mojtaba Khamenei, independentemente de justificações de segurança ou da presença institucional do presidente Masoud Pezeshkian, é insustentável.
A legitimidade religiosa, justificação e essência do regime político do Irão, obriga à presença tangível do Líder Supremo.
A doutrina de absoluta tutela religiosa de Ruhollah Khomeini, Velâyat-e Faqih, imposta pela Revolução Islâmica de 1979, implica a presença do Líder Supremo.
O expediente da ocultação está prestes a finar-se.
O encoberto do Irão
A ocultação do Líder Supremo Mojtaba Khamenei está condenada ao fracasso devido à cultura político-religiosa do xiismo, à sofisticação da sociedade persa, e à relevância das minorias étnicas no Irão.
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