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João Carlos Barradas
24.01.2026

No Céu e no Inferno com Seguro e Ventura às avessas

Todos temos o nosso querido Céu e amado Inferno e, no fim, cada qual está com o seus.

É possível que, em boa verdade, por secretas afinidades, acabemos por escolher o nosso próprio destino ao lançar o voto na urna.

Palmilhar o caminho do Céu e do Inferno talvez não seja muito diferente.

Sondagens e autópsias pós-eleitorais traçam, com rigor incerto, lógicas e dinâmicas de irredutíveis atracções e inclinações individuais que, de tempos em tempos, se esboroam e vertem em apatia, revoltam-se num tumulto de protesto.

Nessa inevitabilidade de vagas de constância e ruptura há quem vislumbre uma coerência de afinidades.

«Núcleo duro eleitoral» é uma das denominações para o efeito, tão certa no tempo quanto «rebeldia ou conformismo geracional», mas, não deixa de lembrar algo que já foi dito sobre o transe das almas ao deixarem este mundo.

Outros mundos

Nesse estupor e desnorte, mulher ou homem, deparam-se com seres desconhecidos que podem ser anjos ou demónios e convém saber que Deus nem se intromete em encontros que têm a ver com o que se fez e quem se foi, ao que se aspira e conforta.

Sabe-se disso porque Deus revelou a vertigem da fé a Emanuel Swedberg.

Tinham passado cinquenta e sete anos sobre o nascimento, em Estocolmo, do reputado autor de prolífica obra sobre mineralogia, cosmologia, fisiologia e muitas outras ciências, além de esboços de inventos como submarinos ou máquinas voadoras.

A divina aparição, em Londres, no ano da graça de 1745, levou, assim, o assombrado erudito, muito dado à teologia, a comungar com seus contemporâneos e vindouros extraordinárias visões.

Swedberg – nobilitado como Swedenborg em 1719 – assistiu ao Juízo Final, ocorrido em 1757, tendo o seu espírito contemplado, então, o Segundo Advento de Cristo.

Palmilhou Swedenborg Céu e Inferno e contou tudo isso em mais de uma dezena de obras místicas e teológicas lavradas num latim pedestre até entregar a alma ao Senhor, em 1772.

O misticismo do desvairado génio sueco, em que se interpenetram e confundem mundos tangíveis e transcendentes, foi escrutinado pela mente rigorosa de Immanuel Kant, abalou a poesia e prosa de William Blake e Charles Baudelaire, Jorge Luis Borges e Czeslaw Milosz, e, para referir alguém mais próximo, inspirou Gonçalo Manuel Tavares no «O Senhor Swedenborg» (2009) da série «O Bairro».

Ouvido e visto

Todos se confrontaram com a «O Céu e as Suas Maravilhas e o Inferno Segundo o que foi Ouvido e Visto», portento místico de 1758.

O que importa ao Portugal de 2026 é que o Inferno com suas choupanas, ruínas, lupanares, sons assustadores, intermináveis lutas pelo domínio do trono do Demónio, é intolerável para muitas almas, mas, o enlevo de outras.

O Céu de anjos benfazejos e odores miríficos, luzes deslumbrantes, surge, pelo contrário, como horror doloroso e intolerável a um réprobo que só se sentirá bem entre os seus.

A um asceta a penitência da vida terrena só lhe deixará em aberto a plenitude de um deserto solitário já que nem Céu ou Inferno serão conformes à aspiração a que se rendeu.

São sinas e não falta quem só se reveja entre o que é muito do coração, de raivas, egoísmos, compaixões, resignações; dramas e conciliações em nada estranhas a Swendenborg.

Todos temos o nosso querido Céu e amado Inferno e, no fim, cada qual está com o seus.

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