O Xerife Luís Neves
Um centrão em decomposição acelerada ruma o país inexoravelmente para o penhasco.
Na Madeira, a conferência de imprensa de Luís Neves, que sequestrou a cerimónia do 148.º aniversário da PSP na Madeira, foi digna de figurar nos anais do deboche político português. Dotado de um pavio muito curto, explodiu em todas as direcções: jornalistas, adversários que deixou dentro da PJ, oposição, num tom digno de um filme de Hollywood, mas que, dada a sua ausência de autoridade, fez lembrar o “Quantos são?! Quantos são?!” do Major Valentão no Contra Informação.
Até então, os problemas dos portugueses com Luís Neves diziam respeito à sua conduta enquanto ex-Director Nacional da PJ. Destaco, da miríade de temas pelos quais está a ser alvo de ataques, o do atrelado. O nível de informalidade com se desrespeita a ordem do tribunal para destruir os barris de precursores químicos para a produção de cocaína, entregando-os ao amigo da Construbarcelos é um atestado muito portuguesinho do clássico “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”. O homem cuja acção é punir quem incumpre a lei, incumpre, ele próprio, ordens judiciais sendo responsável máximo da Polícia Judiciária, gabando-se do incumprimento como um “acto de extraordinária gestão”. O caso ganha repercussões maiores, porque o conteúdo dos barris estava, pelos vistos, a ser usado e Luís Neves enganou-nos ao dizer que o custo de destruição dos mesmos custaria cerca de 150 mil euros, quando esse valor era para a destruição de todo o espólio obtido na apreensão; na verdade, a parte dos barris, não ficaria longe dos 3 mil euros.
Tal como já tive oportunidade de dizer, o caso do tanque/piscina é-me irrelevante, no sentido em que, por mim, uma pessoa deve poder construir o que quiser no seu terreno e não ser sujeita a leis anacrónicas que dificultam o usufruto da sua propriedade, quer por falta de licença, quer por ser uma reserva nacional de alguma coisa definida por um burocrata em mil novecentos e troca o passo. Contudo, o facto de Luís Neves ter ignorado o óbvio conflito de interesses de contratar o empreiteiro da PJ é que tornou o caso, no mínimo, estranho. A PJ é o órgão que muitas vezes pune autarcas por usarem o empreiteiro da câmara municipal para fazerem obras a título pessoal. Parece inverosímil que o seu Director Nacional não percebesse a contradição de incorrer no mesmo tipo de comportamento, mas aqui estamos.
O Ministro da Administração Interna foi polícia, combateu o crime e prendeu delinquentes. Não nego que Luís Neves tenha deixado inimigos na sua antiga casa. Isso é óbvio. Diz-nos, agora, que “[será] sempre um polícia”. Errado! Alguém tem de lhe explicar que já não é. Nem polícia, nem xerife. Nem em Portugal, nem no Faroeste. Luís Neves é, inacreditavelmente, (ainda) um Ministro da República que não sabe nem o seu lugar, nem como atuar, como se viu ao fazer de “reféns” todos aqueles polícias que nada tinham a ver com o seu drama. Mas o cargo que agora exerce é executivo, exercido por confiança directa do Primeiro-Ministro. Já não tem poder de investigar quem quer que seja. É bom que se lembre disso quando a boca lhe foge para o tom de ameaça.
Na verdade – e à falta de melhores explicações, porque não as temos até ao fim –, Luís Neves é um espelho do país e é ele próprio uma súmula do exercício do poder em Portugal. Sai da PJ para o Ministério com o carro apreendido ao alegado traficante. Por que motivo? É que ter-se afeiçoado a ele não basta. Num Ministério com tantos carros, era mesmo necessário o famigerado Golf GTD do Xuxas? Visto de fora, parece uma pelintrice. Usa o carro do traficante para não desgastar o seu? Porque é melhor que o seu? Tudo bem, porque a lei deixa. Afinal não deixa? Então contorna-se a lei. A lei não é relevante, o que é relevante é para que lado é que ela se viola. Não sou eu que o digo! É o próprio Luís Neves! “Sei o que é certo e errado. Nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do bem.” Cometeu erros? Sim, mas foi sempre para o “lado do bem”. Uma frase que deveria destituir qualquer pessoa do exercício de um cargo público. Filósofos e arautos, contemplai: Luís Neves sabe definir o bem. Capitalizemo-lo! Ei-lo: o “Bem”. Eons de civilização humana a discutir o Bem e o Mal para quê? Vide Luís Neves: se ele comete o Mal, fá-lo em nome do Bem. Os fins justificam os meios. Será que Neves tem noção de quem seriam os comensais que historicamente se sentariam à mesa consigo para partir este pão? De boas intenções está o inferno cheio. Luís Neves é tão inebriado em si próprio que não percebe que é uma punch line num western de série B. Luís Montenegro é o realizador deste drama.
Do alto do seu “quero, posso e mando” Luís Neves é suportado por PSD e PS de forma quase simbiótica: um e outro estão a fazer de Neves a cara do regime por si fundado, escudando-o quer no Governo, quer na ausência de oposição. E se do PSD se percebe o triste silêncio, o do PS é demasiado ensurdecedor. Se todos tínhamos a convicção de que Luís Neves era próximo do PS, essa convicção passou a certeza. Ambos os partidos não parecem minimamente preocupados em figurativamente morrerem nesta montanha de Neves.
Um centrão em decomposição acelerada ruma o país inexoravelmente para o penhasco. Luís Neves acena com o papão extremista para se escusar a responder às perguntas para as quais não tem boas respostas, enquanto PSD e PS fingem não reparar que, a cada silêncio, lhe oferecem mais um metro de corda. O velho expediente virou rotina: perante o escrutínio, não se explica – dramatiza-se; perante a contradição, denuncia-se uma ameaça maior; perante o abuso, invoca-se o “lado do bem”. O drama é que a democracia não se mede na lógica maniqueísta do bem contra o mal. Mede-se, sim, na transparência e na assunção de responsabilidade dos seus actores. Se o “regime” acredita que o melhor serviço à República é tornar Luís Neves no seu xerife inimputável, que aplica a lei de forma facultativa, talvez não tenha percebido o mais elementar: não está a travar o populismo. Está a escrever-lhe o argumento para a sequela.
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