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Gonçalo Capitão Deputado do PSD
27.01.2026

Sem anos

Numa altura em que se avolumam evidências dos riscos que trazem os populismos de direita, dou por mim a constatar que se cumpre este ano o centenário do golpe de 28 de Maio de 1926, que viria a pôr fim à I República e a abrir caminho ao que seria o Estado Novo.

Não acredito em profecias, cabalas ou alinhamentos cósmicos, mas há coincidências do diabo… Numa altura em que se avolumam evidências dos riscos que trazem os populismos de direita, dou por mim a constatar que se cumpre este ano o centenário do golpe de 28 de Maio de 1926, que viria a pôr fim à I República e a abrir caminho ao que seria o Estado Novo. Cem anos que parecem deixar-nos sem anos de esperança.

Obviamente, de véspera só morre o peru e temos de perseverar na defesa das mais elementares liberdades, até ao fim. Contudo, o cenário não se apresenta animador.

Comunicação social independente excluída de eventos ou encerrada, que mais não seja, pela asfixia económica ou pela cessação de licenças;  catadupas de informação falsa difundida negligente ou dolosamente (a era da pós-verdade); divisão da sociedade por raça, etnia, credo ou orientação sexual e consequentes discriminações; tiradas e promessas panfletárias sem possibilidade constitucional e/ou económica de concretização, estribadas no desespero de muitos; exploração propagandística do sofrimento, da inveja e do rancor… Todos estes sinais de enfermidade podem ser encontrados em vários regimes formalmente (e ainda) democráticos (estes males matam rapidamente, note-se).

EUA, Hungria, Polónia, Alemanha, França, Áustria, Países Baixos e outros países de inquestionáveis credenciais democráticas exibem, já exibiram ou têm seríssimos riscos de vir a exibir alguns destes traços preocupantes.

Se a tudo isto juntarmos traços distópicos no ambiente e na saúde (oxalá “Nipah” não seja uma palavra que entre rapidamente no léxico mundial), perguntamo-nos todos (digo eu) sobre que herança vamos deixar aos nossos filhos e netos. Receio que a recordação dos nossos tempos na História a fazer não seja lisonjeira…

E, depois, estamos nós plantados aqui no “rectângulo”, pensando que, apesar de já não vivermos ao som da balada pachorrenta de outrora, ainda somos de brandos costumes e que isto não chega (curiosa palavra neste contexto) a tanto por cá.

No entanto, podemos sempre pensar que à volta de um quinto dos votantes começa já a sufragar ideias como: julgamento sumário de grupos étnicos por indicação de um político; deturpação de factos, por exemplo, sobre o progresso que inequivocamente tivemos em 50 anos de democracia; lançamento de anátemas sobre os demais políticos que são identificados como “sistema” (sem que isso esteja sequer definido); fim da urbanidade e do respeito pelas opiniões contrárias; demonização acrítica de crenças não cristãs; difusão de informação reconhecidamente (até pelos difusores) falsa e por aí fora…

A segunda volta das nossas eleições presidenciais deverá colocar em “mute” este requiem pelos brandos costumes, mas será preciso diálogo entre São Bento e Belém para que a coisa não ganhe contornos de marcha triunfal. Estamos a passar os cem anos de algo de má memória com a sensação de que estamos sem anos, meses ou sequer dias para evitar algo tão ou mais nefasto.

A 8 de Fevereiro a escolha é sua: moderação e razão ou exaltação e emoção. É preciso dizer mais?!...

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